O homem deve realizar os valores espirituais na história social

Economiaenegocios Artigos 17 Janeiro / 2019 Quinta-feira por Padre Ari

A construção da política socioeconômica tem deixado lacunas significativas para alcançar o objetivo pelo qual tem sonhado e lutado.
A atual cultura vive obcecada pelo acúmulo de bens materiais e, assim, chegaram a uma situação de incertezas, dúvidas, medos e descompasso de toda ordem.

Não há como reinventar e sustentar um novo sistema político socioeconômico que possa administrar somente a “Coisa Pública”, mas, e também, todas as organizações sejam sociais, políticas, econômicas e inclusive de natureza religiosa. Isso sem questionar e problematizar o conceito antropológico que subjaz no fio condutor, e que tem acompanhado do progresso, cada vez mais aliado à tecnologia, embora prescindindo de um autêntico conceito antropológico, que, aliás, contemple o todo da vida humana em sua dignidade como também da ecologia ambiental.
“...nesses momentos cruciais das civilizações, quando o processo de transformação acontece, jamais se pode deixar para segundo plano o todo da própria sociedade para priorizar outras. Tal postura sempre há de forçar um processo de desintegração com consequências incalculáveis para o prosseguimento da história, tanto no plano humano quanto da ecologia ambiental {...} parece ser este o fator que está em jogo nesse momento da história contemporânea”. (SILVA, Ari Antônio da – A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro – Ed.Nova Harmonia – 2018 – p. 32).
É óbvio que a razão tem seu lugar no contexto da Conjuntura Política socioeconômico, no entanto, é preciso frisar de que “...a construção da racionalidade não pode depender apenas das lógicas formais ou dedutivas; pelo contrário, as ordens e saberes racionais transitam subjetivamente entre os sujeitos. Não reflexos de uma concepção substancialista da razão, mas, hermenêutica e sensível do sujeito racional”. (MÁRQUEZ-FERNANDEZ, Álvaro B. – Pensar com os sentimentos: razão, a escuta, diálogo, corpo e liberdade – Ed.Nova Harmonia/Única – 2014 – p.51). E segue:
“...a paixão racional torna evidente uma experiência antropológica e sócio histórica, na qual a razão obtém uma justificação e interpelação reducionista da razão para um único valor da racionalidade: sua força de poder para o domínio através das ciências e a reprodução dos objetos econômicos”.
A cultura contemporânea necessita recuperar a dimensão da sensibilidade da existência humana, sob o risco de se agravarem as injustiças, as discriminações e exclusões que tem tomado parte do tecido social em nível local e transnacional.
Não é possível que em pleno século XXI, com uma tecnologia de ponta, e, uma sociedade marcada por experiências dolorosas, trágicas, ainda se tente viver sob uma lógica da absolutização da “razão instrumental”. Está mais que na hora de emergir uma conjuntura que supere a indiferença do pensar sobre as questões humanitárias. Torna-se um paradoxo, e, sobretudo um contrassenso não ter como prioridade a superação das fragmentações para um contexto dentro de um imaginário mais humano e solidário.
Portanto, deve ficar claro que: “...a paixão racional é consequência do universalismo cientificista que pressupõe a objetividade entre sujeito e objeto”. (cf. ibidem p. 51).
Em contrapartida, essa visão fechada da razão obstrui qualquer possibilidade de encontrar o autenticamente “humano” e muito menos à abertura para a transcendência, pois essa postura não deixa se ser uma “reeditação do cogito cartesiano” que “...tenta pensar o mundo desde a experiência de um eu absoluto sem imanência existencial”.

TAREFA DA FILOSOFIA NO CONTEXTO DA CULTURA VIGENTE
A missão da filosofia nesse contexto da cultura contemporânea é: “...libertar o eu racional por meio de outras formas de “diá-logos” que resultam da percepção e da sensibilidade do sujeito, pois {...} é nas convivências humanas da paixão como vontade humana, na qual se deve heterovalorizar a razão como condição da experiência do pensamento e {...} como um resultado de múltiplos fatores que intervém na vivência sensível da razão, que merece hoje maior atenção”. (MARQUEZ-FERNANDEZ – Pensar com os sentimentos – Razão, escuta, diálogo, corpo e liberdade – Ed. Nova Harmonia/Única – 2014 – p.52)
Para cultivar os valores espirituais o ser humano precisa se despojar da arrogância de que a razão possa responder a todos os anseios da alma humana. Fechar-se hermeticamente sobre a própria imanência é apodrecer no tempo e no espaço, e, isso leva a respingar na saúde do tecido social, pois isso asfixia o sopro de vida da alma humana. A supressão do sopro de vida da alma é um processo de fossilização no tempo que leva à frustração o anseio de liberdade e realização que todo o ser humano almeja.
Não há outro caminho para o ser humano para se realizar sem que refaça a dimensão da espiritualidade em sentido de totalidade e não na fragmentação, que até então essa cultura da pós-modernidade tem conduzido para uma globalização que desconstruiu significativamente as pessoas do desejo de serem felizes.

É bom ter consciência de que “...a paixão é inapreensível pela razão, é manifestação plena da vontade de um querer e um fazer sem normas. Não carrega um sentido, ela é a divergência de qualquer sentido que tenta dotar a realidade com significados absolutos e significantes universais. Fragmenta as fronteiras do signo e do ícone, diluindo-as em sensações sonoras, visuais, acústicas, olfativas, tácteis, para penetrar e desfazer as formas convencionais da realidade por meio do desejo, do gozo e dos prazeres da liberdade de viver”. (MARQUEZ-FERNANDEZ, 2014, p.53)E segue:
“...a paixão é essa relação material com nossa existência corporal que nos permite pensar com os sentidos e sentir através das emoções o mundo das experiências que também são partes constitutivas da razão,

embora
não exclusivamente implicantes com a autonomia da razão. Não é admissível nenhuma definição clássica de paixão ao considerá-la como um acidente ou afeição da mortalidade humana”.
Ao analisar a frieza do pensar da cultura contemporânea nos leva a analisar de maneira crítica o como se deve caminhar para uma transformação do conceito de razão que vá além de uma consciência calculista para uma mais sensível que condiz com a vida mais humanizada e sensível. Portanto:
“...pensar através da razão e razoar através dos sentidos sensíveis implicam, pois, outro tipo de racionalidade {...} ou seja, é uma racionalidade própria da hermenêutica simbólica, que, considera a sensorialidade dos sentidos a fonte de compreensão do contexto do sentido através dos símbolos e imagens artísticas”. (apud ORTIZ-OSÉS – in MARQUEZ-FERNANDEZ, 2014 - p.54)
É tempo de a sociedade contemporânea avaliar que tipo de vida pode ter sentido e realização para os humanos. Afinal a linguagem tecnológica e da ciência apenas é impessoal e nos afasta de um contexto humanizado de mundo.
“...a autêntica humanização do homem através de si e da natureza parte da condição simbólica e mítica que ele procura criar através de sua paixão pela vida à uma transcendência”. (cf. ibidem)
Sempre é bom se perguntar sobre o sentido real da vida humana, ou seja, e, assim ver-se-á a importância de se fazer uma síntese entre o progresso e o desenvolvimento com a dimensão da espiritualidade que dá o gosto e o prazer de viver. É bom pensar!

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