A trilogia de documentos do vaticano II que abriu o diálogo da igreja com a modernidade

Economiaenegocios Artigos 18 Fevereiro / 2019 Segunda-feira por Padre Ari

O “ide” de Jesus é dinamicidade e não estagnação. Como já afirmei no texto II. O processo do “Anúncio” sofre continuamente conflitos e debates, embora tudo isso seja positivo. Cultura é uma palavra que vem da língua latina “cultus” significa “cultivar”.
As preocupações iniciais do Concílio figuravam a liturgia, a eclesiologia, o ecumenismo, embora o foco do problema fosse a relação da Igreja com o Mundo. A ampliação dos debates eclesiais na época do Concílio vinha de solicitações das várias partes do mundo como a relação histórica da Igreja com “...o povo judeu, ou seja, a responsabilidade de muitos cristãos na “Shoah”, como o pedido dos bispos árabes sobre o Islã, e assim, também, se estendeu ao Budismo, Hinduísmo e as religiões naturais com o documento “Nostra Aetate” que desembocou depois na “Unitatis Redintegratio”.
Portanto, fica explícita, segundo o sociólogo Assunção, ao fazer a leitura do Concílio Vaticano II à luz da hermenêutica do teólogo e papa Ratzinger, que os documentos: Nostra Aetate, Dignitatis humanae e a Gaudium et Spes, é que deram o “giro” da Igreja em relação à modernidade. (Fonte: ibidem)
Ratzinger com muita lucidez infere de Gaudium et Spes elementos concretos de ação da Igreja junto ao ‘mundo”, embora sempre vai frisar, usando palavras do sociólogo Max Weber as “autonomias das esferas, que passam a se reger por sua legalidade própria, sem extrair da esfera religiosa”. (apud – in Assunção, p.112)
Segundo o comentário de Assunção, isso tem referência à ‘autonomia do temporal uma relação à autoridade eclesiástica’. E segue: “...não significa uma mundanização da Igreja, mas uma restauração da mundanidade do mundo”. Por outro lado, muitos pensadores, intelectuais e políticos tentam excluir a Igreja de participar nas decisões importantes do tecido social. Sem dúvida, trata-se de preconceito, senão de uma hermenêutica falsa.
“...colocar entre parêntesis o homem e o ethos não leva a um crescimento da liberdade, mas arranca das suas raízes. Portanto, a ideia de Deus não é o polo oposto à liberdade do homem, mas é o seu pressuposto e o seu fundamento. Não se fala mais adequadamente do homem, da dignidade e dos seus direitos quando se exclui {do} discurso sem Deus como não científico, relegando-o à esfera meramente subjetiva e edificante”. (RATZINGER, Joseph (Bento XVI) – Ser cristão na era neo pagã – Vol. I – Discursos e Homilias (1986 – 1999) – Ed. Ecclesiae – 2014 – p.35). E segue:
“...o discurso sobre Deus pertence estruturalmente ao discurso sobre o homem, e também faz parte constitutiva da Universidade. Não é por acaso surgido justamente onde o “Anúncio”, “no princípio era o logos” ressoava todos os dias. O “Logos”, isto é, o Sentido, a Razão, a Palavra plena da racionalidade. O Logos gerou o logos e criou o seu espaço”.

Talvez os ditos “intelectuais” da modernidade e da pós-modernidade necessitam mais do que nunca, no hoje da história, de uma séria revisão dos seus paradigmas, salvo sempre as exceções, ao pensar que possuem o saber absoluto da história e do conhecimento em qualquer área. É sempre salutar na busca do saber e no desenvolvimento da ciência ter em conta que: “...quando a racionalidade é admitida só em seus aspectos singulares e é negada na totalidade e como fundamento, a Universidade se dissolve em uma justaposição de disciplinas especializadas”. (cf. ibidem p. 35) A especialização é uma característica da ideologia Iluminista que fragmenta a totalidade da realidade, e isso deve paulatinamente ser superada.
Qual o conceito de secularização? Precisamente é aqui que se deve frisar seu verdadeiro significado, pois em muitas ocasiões houve uma hermenêutica equivocada. No entanto, no contexto da eclesialidade é algo positivo enquanto quer “...restituir ao mundo a sua profanidade, a sua mundanidade, embora tenha nele a presença do sagrado e, sobretudo, do religioso regulado institucionalmente”. (ASSUNÇÃO, Rudy Albino – p.112). E Ratzinger nos alerta para o seguinte: “...A autoridade eclesiástica não pode substituir a ‘ratio specifica’ nos diversos setores da realidade, mas deve reconhecê-la e pressupô-la.
Mas há necessidade de frisar que o impulso da Gaudium et Spes deu uma significativa contribuição para o diálogo da Igreja com a modernidade, até porque, ajudou a compreender o que significa inserir-se no mundo sem ser do mundo. Sem dúvida foi um marco importante na caminhada da Igreja frente aos novos tempos. O teólogo e papa Ratzinger soube expor muito bem os quatro possíveis modos teológicos de entender o “mundo”:

1. Como ‘cosmos’, realidade não feita pelo homem, {...} associada à ideia de Criação; criado, portanto, apenas como mundo (sem deuses) e para ser não só admirado, mas transformado pelo homem.

2. A realidade diante do homem já transformada por ele.

3. O conjunto de modos humanos de portar e de se relacionar com a terra, onde {...} também o cristão não pode ser oposto a ela.


A CRISE DA FÉ NA CIÊNCIA, O ANSEIO POR UMA ESPIRITUALIDADE MORAL E PELA RELIGIÃO.


O ponto de partida com esta afirmação do título acima exposto é uma provocação de nossas certezas. Não há como construir a história e o avançar do desenvolvimento tecnológico sem ter em conta a totalidade da vida real. A ciência tem seus limites e prescindir dessa realidade jamais encontrará a “Verdade” e o sentido, pois ambos sempre vão além do factível e, assim, irá nos remeter a paradigmas que se apresentam como as “pseudos-certezas”, aliás, que conduz para um caminho sem saída. Construir ciência sem a metafísica não deixa de ser ingenuidade, até porque, a mesma sempre parte da metafísica e, essa, não é real. O ponto de partida sempre será a “hipótese” e a mesma não procede da realidade, embora, e, sobretudo após a metodologia da verificabilidade, poderá ou não se confirmar a hipótese, no entanto, antes de chegar ao real a hipótese está no patamar da metafísica. Negar isso é ingenuidade.
Portanto, não vejo significado em debater algo que é claro, afinal a hipótese nunca é real, e, sim uma possibilidade que pode se confirmar ou não, pois, sempre vai partir da metafísica. Ciência e fé são compatíveis, embora tenham construções paradigmáticas diferentes. “...a fé não cresce a partir de ressentimento e do questionamento da racionalidade, mas a partir da sua fundamental estima por sua racionalidade ampla”. (RATZINGER, p.47).
Sempre é bom frisar que: “...a fé não é uma espécie de resignação da razão diante dos limites do nosso conhecimento; não é uma concessão ao irracional diante dos perigos de uma razão meramente instrumental. A fé não é uma expressão do cansaço e de fuga, mas é a coragem de ser e movimento de abertura à grandeza e à amplitude da realidade. A fé é um ato de afirmação que se fundamenta na força e de um novo “sim” que se torna possível para o homem no contato com Deus”. (cf. ibidem p.50). E segue:
“...o início do Evangelho de João, {...} retoma e aprofunda a narrativa da criação do Antigo Testamento, é e sempre será uma afirmação fundamental da fé: no princípio era o Logos, a razão criadora, a energia do conhecimento divino, que dá significado às coisas. Só a partir desse ponto de vista é que podemos compreender corretamente o Mistério de Cristo, no qual a razão é também amor. A fé faz que tudo o que existe seja racional na sua origem, porque provém da razão criadora de Deus”.

Sempre é prudente e sensato buscar compreender com humildade os desígnios de Deus na busca da verdade, pois a ciência é algo maravilhoso na Criação. “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”, significa a “Inteligência”, a “Vontade” e a “Liberdade”, afinal Deus não tem forma e nem imagem. Deus sempre “é”. Por outro, legou ao ser humano, a capacidade de participar na completude do cosmo, e, isso não nos dá o direito de afirmar que o mundo é fruto de um “determinismo casual”. ( continua)
É bom refletir!

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