A verticalização do paradigma tecnocrático tende a exercer o domínio sobre a política, a economia e a sociedade

Economiaenegocios Artigos 12 Setembro / 2017 Terça-feira por Padre Ari

Por trás dessas conjunturas transmutadas e unificadas com o construto político socioeconômico de nosso país e mundial, vive-se um reducionismo que obstrui qualquer tendência de priorizar a participação ampla, moderna e transparente na gestão da “Coisa Pública”. O mesmo também impede a emergência de um novo sistema político socioeconômico simplificado e eficiente, ou seja, “Estado X Sociedade”, com seus diversos setores para articular e gerir algo sustentável, inclusivo e participativo.
É desastroso perceber que a sociedade como um todo, levando em consideração as diversas organizações que a compõe, continuam a sofrer a fragmentação da vida social, como da economia que continua voltada a si própria sem ter em conta sua função social para a edificação de uma nação próspera. O tecido social sempre necessita estar ciente de sua participação efetiva nas decisões que dizem respeito aos interesses da sociedade e do país.
“...Na origem de muitas dificuldades do mundo atual, emerge a tendência nem sempre consciente, de elaborar a metodologia e os objetivos da tecnociência segundo um paradigma de compreensão que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplicação desse modelo a toda a realidade humana e social, constatam-se na degradação do meio ambiente, embora isto é apenas um sinal do reducionismo que afeta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimensões”. (FRANCISCO, papa – Carta Encíclica Laudato Si’ – Louvado Sejas – Sobre o cuidado da casa comum – nº107 – Paulus/Loyola – 2015). E segue:
“É preciso reconhecer que os produtos da técnica não são neutros, porque criam uma trama que acaba condicionando os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais na linha dos interesses de determinados grupos de poder. Certas opções, que parecem puramente instrumentais, na realidade são opções sobre o tipo de vida social que se pretende desenvolver”.
Portanto, na formação das novas gerações é preciso conduzir o processo educacional para uma visão ampla que transcenda a tecnocracia que, se por um lado, fascina o imaginário das pessoas, mormente das crianças e jovens, por outro, petrificam o olhar em paradigmas ligados exclusivamente a materialidade da vida. Esta, por sua vez torna-se cega quando se trata de administrar os conflitos existenciais que fazem parte da vida humana.
Daí se infere o porquê de um processo educador que não se restrinja apenas a tecnologia, pois assim, desconsidera e fragiliza a identidade e o “eu” de cada ser humano com consequências cruéis e desumanas.

É bom ter ciência de que hoje “...o paradigma tecnocrático tornou-se tão dominante que é muito difícil prescindir dos seus recursos, e mais difícil ainda é utilizar os seus recursos sem ser dominados pela sua lógica”. (Laudato Si’- 108). E segue: “...tornou-se anticultural a escolha de um estilo de vida cujos objetivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da técnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador”.

Entende-se então a razão porque ser crítico face à chamada “Reforma do Ensino” imposto no Brasil sem consultar os educadores que trabalham diretamente nesse campo, aliás, tão importante para o futuro da nação. O que fica explícito nessa imposição do MEC, é que há uma tendência a persuadir a sociedade de que o projeto é moderno, inclusivo e amplo. Na realidade é ideológico, e, com objetivos determinados, ou seja, suprir as demandas da economia de mercado e do insaciável capital financeiro.

O projeto da Reforma do Ensino, aliás, é bem claro do “ensino” e não da “educação”, pois é mais um adestramento do que uma autêntica educação. Afinal não contempla o todo do ser humano, dando um mínimo e não convincente, de espaço para formar o homem a partir de valores, virtudes e princípios éticos da moralidade, do bom senso, da idoneidade e da lisura. É lógico que isso não há interesse aos grupos dominantes dessa sociedade desigual e exploradora, pois vai a contramão de seus interesses.

É bom sempre ficar atentos ao veneno letal que está embutido nesta “pseudos/reforma”, aliás, que deveria ser amplamente discutida, estudada com calma, e com critérios bem fundamentados na ética e numa espiritualidade profunda. Por outro lado, deveria ter lisura e honestidade para construir a nação do futuro com base na inclusão, sustentabilidade e na transparência. Todos os setores representativos da sociedade deveriam ser convocados para esta tarefa da Reforma, como os educadores, professores, psicólogos, teólogos, associação de pais e mestres, enfim “experts” que podem agregar na elaboração de algo sério, imparcial e responsável para a formação das novas gerações.

Portanto, não é assunto para emitir “Medidas Provisórias”, mas sim, algo digno de estudos profundos e bem elaborados, tendo em conta a magnitude do que é formar vidas humanas.


SEM A PARTICIPAÇÃO E A DESCENTRALIZAÇÃO DO PODER POLÍTICO E DA ECONOMIA NAS DECISÕES TORNA-SE INVIÁVEL UM NOVO BRASIL

Dentro de qualquer organização e principalmente quando se trata de uma nação tudo está interligado. Os problemas vigentes que se vivencia no momento histórico é fruto dessa falta de uma visão holística da vida.
Infere-se dessa premissa que uma “Reforma do Ensino” nos moldes como está sendo feita, não possui legitimidade por não ser posta dentro de um contexto de unidade nacional. Está mais que na hora de superar a ideologia da fragmentação vivida até então. Portanto deve ficar patente que:
“...Educar não significa apenas ensinar conteúdos, mas ser referência para os alunos pelo testemunho pessoal de fé, idoneidade, caráter e de acolhimento para as crianças e jovens que, inseridos num contexto sociológico desprovido de valores e virtudes, anseiam por ver em seus mestres um sinal de luz e esperança”. (SILVA, Ari Antônio – Educação e Transcendência – Por uma cultura de paz e da inclusão – Ed. Nova Harmonia – 2016),/i>.
Por que não serve a metodologia usada pelo MEC, para a dita “Reforma do Ensino”?

1. Há na mesma um esvaziamento da identidade humana com lacunas absurdas cuja consequência prática é o niilismo existencial e o desespero das pessoas, mormente dos jovens diante da vida pela ausência de referências seguras e de sentido.

2. Tal reforma, salvo alguns pontos positivos, é feita por pessoas cuja idoneidade não demonstra e nem contemplam uma visão ampla e confiável ao não deixar claro se o objetivo último é o bem comum ou para saciar a demanda do mercado como do feroz e insaciável capital financeiro.

3. Para uma autêntica reforma do ensino é imprescindível à participação de todos os organismos da sociedade nas decisões para o próprio bem comum, levando em consideração que se trata do futuro da nação em longo prazo.

4. Para isto é exigência um novo sistema político que tenha base na descentralização e participação no poder, a fim de se gerir a “Coisa Pública” com mais eficiência, transparência e lisura em todos os setores, mormente na economia da nação.

5. Valorizar melhor os educadores em sua missão de formar o homem de amanhã e, de modo particular, para a elaboração dos programas das grades curriculares em nível das séries iniciais, médio e superior. Por outro lado, a valorização deve também passar por uma remuneração mais justa e digna aos mestres.

Afinal é o futuro de um país que está em jogo e nas mãos dessas pessoas que trabalham na educação.
Não se pode admitir uma “Reforma de Ensino” feita às pressas e sem a participação de toda a sociedade civil, religiosa, empresarial, familiar, universidades e faculdades de educação como se fosse um apêndice secundário no conjunto da nação.
A tecnologia tem seu valor enquanto serve à sociedade e não o contrário. Por quê? “...a técnica tem a tendência de fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea, e, “o homem que é o protagonista sabe, que em última análise, não se trata de utilidade nem de bem estar, mas de domínio; domínio no sentido extremo da palavra”; por isso, “procura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente os da existência humana”. Reduzem-se assim a capacidade de decisão, a liberdade mais genuína e o espaço para a criatividade alternativa dos indivíduos”. (Laudato Si’). Isso exige um novo imaginário para os tempos modernos que tenha sempre como fim o bem comum, a igualdade social e inclusiva com determinação e consciência.
Sempre é bom pensar!

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