O homem moderno não foi educado para o reto uso do poder

Economiaenegocios Artigos 05 Dezembro / 2017 Terça-feira por Padre Ari

Sempre depois de uma longa caminhada é salutar, mormente, o ser humano que recebeu o dom da inteligência, da vontade e da liberdade, ter a humildade e a grandeza de revisar o próprio trajeto até então percorrido. Nesse contexto da história, os humanos necessitam de um espírito de simplicidade no modo de pensar um olhar para dentro de si. Tal postura fundamenta com maior clareza a “dignidade humana” feita “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27)
A premissa de onde se deve partir liga-se a uma visão holística da existência humana focada numa ecologia humana e ambiental. Afinal na temporalidade não há espaço para um progresso e desenvolvimento retilíneo e infinito. Há a necessidade de realismo histórico em admitir a finitude do tempo e do espaço onde se está inserido. Portanto nesse paradigma é bom ter consciência que:
“A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante de uma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de enormes mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, robótica, as biotecnologia e as nanotecnologias. (FRANCISCO, papa – Carta Encíclica – Laudato Si’ – Louvado sejas – Sobre o cuidado da Casa Comum – nº102 – Paulus/Loyola). E segue:
“É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos a vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque “a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu. A transformação da natureza para fins úteis é uma característica do gênero humano. Por outro lado “...não se pode deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, na engenharia e nas comunicações”.

Os textos acima nos apontam algo importante para a nossa civilização. No entanto não deixa de ser também o ponto crucial no qual a cultura atual necessita pensar. Tudo hoje é muito rápido, marcada por uma ideologia imediatista, e, como tal tem suas consequências práticas que coloca em risco não somente a ecologia ambiental, mas, e, de maneira trágica, a sobrevivência da própria humanidade.
“A tendência bem orientada pode produzir coisas realmente valiosas para melhor qualidade de vida e do ser humano, desde os objetos de uso doméstico até aos grandes meios de transporte, pontes, edifícios e espaços públicos”. (Laudato Si’ – 103)
Sempre é bom frisar por uma questão de justiça de que toda a questão em jogo não se trata de criticar ou querer barrar e não apreciar essas belezas criadas pela inteligência humana, e sim, a ousadia de tender e sentir-se onipotente esquecendo que em todos os projetos, ou seja, as novas descobertas nas diferentes áreas, com certeza podem induzir à destruição tanto da ecologia ambiental quanto a sobrevivência do próprio humano se não soubermos lidar com critérios, valores e princípios com esse extraordinário poder que está nas mãos humanas.
É preciso ter uma apurada consciência que o humano “não é plenamente autônomo”. A autossuficiência levada à absolutização faz com que “...sua liberdade adoeça quando se entrega às forças cegas do inconsciente das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal”. E nesse contexto fica explícito que urge uma “...ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si”.

“Se por um lado, o poder econômico incentiva, fortalece e aquece com fartos recursos a formação do ensino técnico, por outro lado pode desmantelar tudo o que diz respeito à formação humana [...]. Educar significa formação integral da pessoa humana; a formação unicamente sob o ponto de vista tecnológico não passa de um adestramento, pois na prática, é destruir a “dignidade humana”, afinal o paradigma ideológico racionalista valoriza somente a individuação e o subjetivismo”. (SILVA, Ari Antônio – Planeta Terra em Crise – Urge repensar a história com novos paradigmas – Ed. Harmonia – Nova Petrópolis- RS – 2017).

A reeducação através da tecnologia é um fator determinante no processo de um “mundo novo”, pois querendo ou não, consciente ou não, caminha-se na beira de um abismo, o que é perigoso em todos os sentidos. Por quê?
“O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas do ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial, e muito lentamente a lição do deterioramento ambiental”. (Laudato Si’ – 109)
Toda a pessoa de bom senso, consciente precisa dar-se conta que a economia atual e o sistema vigente jamais irão resolver os problemas de ordem social, política e muito menos econômicos. É preciso um olhar muito cuidadoso, sutil e criterioso para perceber que a economia de mercado e muito menos o capital financeiro e especulativo darão uma resposta que vá de encontro ao conjunto das necessidades do tecido social.
Daí a necessidade de mudanças dos sistemas políticos socioeconômicos tradicionais, aliás, que até então não foram eficientes na redução da pobreza, da desigualdade social. Ao contrário ainda hoje se vive uma política cujo abismo deixou mais pessoas fora do mercado de trabalho, preços excessivamente absurdos, produtos básicos vergonhosamente elevados, o poder de compra do povo diminuiu, a incerteza ante o futuro é nítido, e o descaso dos que deveriam dar o equilíbrio no gestar a “Coisa pública” e, descaradamente pseudos-políticos usando os meios de comunicação com mentiras, sem um mínimo de remorso em suas consciências e com o uso inadequado do dinheiro público.
É urgente a superação desta situação deprimente e vergonhosa em que o país está passando. Necessita-se sangue novo, cabeças arejadas sem os vícios que envergonham qualquer cidadão brasileiro que tenha bom senso.
“O ponto a que se precisa chegar é de uma autêntica ética do cuidado”. E o que significa isto?
1. Cuidar da comunidade de vida com compreensão.
2. Cuidar da comunidade de vida com compaixão.
3. Cuidar da comunidade de vida com amor. (BOFF, Leonardo – Ética e Espiritualidade – Como Cuidar da Casa Comum – Vozes – 2017)
Com toda a certeza esse é o desafio que se precisa aprofundar para repensar um novo e mais construtivo Brasil, mas com critérios e valores que edificam todo o tecido social para o bem comum, sustentabilidade e a preocupação para a inclusão de todo o brasileiro da nossa Nação nos projetos, nas decisões que favorecem a todos e não apenas uma elite sem escrúpulo.
É bom pensar!

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