O poder na cultura contemporânea é sem rosto, sem lugar, hermético e sobrenatural

Economiaenegocios Artigos 15 Fevereiro / 2018 Quinta-feira por Padre Ari

No intuito de buscar alternativas de mudanças em relação ao gestar a “Coisa Pública”, se pergunta ante a dimensão do problema em pauta, se há suficiente força para transformar a mesma para rumos mais humanos e inclusivos.
O que se percebe na subjacência da conjuntura é uma perversa ideologia do capital financeiro que cada vez mais busca ferozmente o lucro sem ter preocupação com o tecido social. Isso significa: “...lucrar sem se comprometer, sem estar ligado a produção social e que dissemina desemprego e miséria {...} que vagueia sem se amarrar, que discursa sem se envolver com mudanças deixando um rastro de frustração e depressão com sua pulsão comunicacional”. (SEMERARO, Giovanni (org) – Filosofia e Política na Formação do Educador – Ed. Ideias&Letras – p.67 – 2004)
Com raras exceções, é perceptível as argumentações que os “gestores públicos” usam de linguagens sofisticadas para justificar o injustificável e o obvio. Na verdade isso retrata o caos de uma sociedade que perdeu a noção de valores como a justiça, lealdade e a fidelidade que deveria fazer jus ao cargo pelo qual foram eleitos para servir ao povo. Toda realidade é conduzida ao enaltecimento, no entanto e o que deveria ser prioridade é estar a serviço da população e não ser secundário.

Partindo desse pressuposto a “...a democracia é identificada com o mercado, a cidadania com o consumismo e o político avaliado pelos critérios da publicidade e da venda de imagem”. (SEMERARO, 2004). E segue:
“...eles reproduzem e fortalecem, de acordo com a liberdade total exigida pelo capital globalizado, a flexibilização, a volatilidade, a instantaneidade das relações sociais, solapando a estrutura do trabalho social e a coesão da sociedade”.

Vê-se que administrar a sociedade a partir dessa concepção de mundo “ipso fato” nos deixa claro “...que se perdeu o contato com os problemas reais e as duras condições que afetam a maioria da população assim como os intelectuais e os políticos abdicam não apenas de sua capacidade crítica, mas também de sua “organicidade” a outros projetos da sociedade”.

O Brasil nesse momento mostra que é refém de gestores que perderam a legitimidade pela conduta corrupta praticada por estadistas que fazem parte dos três poderes, sempre ressalvando as exceções. O exemplo sempre deve partir dos dirigentes. Daí infere-se o quadro caótico da nação que principalmente nos grandes centros urbanos parece que perdeu a governabilidade, e assim o país acabou perdendo o senso da ordem e da sensatez e pior: imerso no caos da imoralidade e dos desmandos e crimes hediondos, a nação é tomada da síndrome do medo e da desconfiança. Até quando?
Infelizmente os efeitos práticos da globalização e da pós-globalização no rumo do globalismo tem gerado o descontrole tanto em países de economia estável e mais ainda em países cuja economia se encontra num estado lamentável, com pessoas abaixo da pobreza, ou seja, em nível de miséria. O que representou DAVOS em termos mundiais e para as economias das nações, mormente as mais pobres? É uma situação no mínimo curiosa e preocupante. O porquê de tal realidade?
“...se faz sentir no interesse de uma multidão de intelectuais por um profissionalismo acrítico e hiper-concorrencial”. É estranho que em pleno século XXI ainda a humanidade com toda a tecnologia e avanço não ter a capacidade de eliminar as desigualdades. É não querer ver o rosto do outro que sofre, que tem fome, não tem abrigo digno para habitar, doenças dizimando populações, serviço de saúde que deixa a desejar, hospitais públicos em total descaso. Há fartura de alimentos e o que justifica ainda a realidade da fome? Vergonhosamente observa-se um descaso geral, pois por trás de tudo sempre está a mão invisível do capital financeiro que se reflete pelas bolsas de valores. A preocupação continua de acumular bens. Por que e para que? A verdade é que:
“Na política foi desqualificado o pensamento crítico e proliferaram os “cientistas”, onde os humanistas se eclipsaram diante dos gestores, os estadistas diante das estatísticas, os midiáticos substituíram os educadores, as sondagens de opinião tomaram o lugar dos debates democráticos, os lobbies dispensaram as organizações sociais. Na nova ordem imposta pelo capital só serve a formação de uma inteligência tecnológico-utilitarista não uma concepção ético-política”. (ibidem).


A EDUCAÇÃO É O PONTO CENTRAL NA MUDANÇA DE PARADIGMA

Retoma-se nesse artigo a importância de um processo educacional amplo que aborda não somente as novas gerações para o mercado de trabalho, mas, e principalmente, foque a formação do caráter e da personalidade dos humanos frisando outro modo de agir em relação a coletividade. Isso significa levar em conta uma ética da razão com a ética da ternura, da sensibilidade e da responsabilidade. Ambas harmonizadas abrem caminho para o novo na sociedade, ou seja, a justiça e a solidariedade como parâmetro ético.

No entanto, as grades curriculares oficiais colocadas para os institutos educacionais tanto em nível das séries iniciais, secundárias e superiores revelam-se pobres, vazias e unidimensionais. A mudança do cidadão brasileiro, sem margem de dúvida, deve passar por um processo de educação integral, onde se prepara pensadores que acrescentam ao país novas tecnologias, embora sempre fundamentados a partir de valores, princípios e virtudes que dinamizam e façam a diferença na edificação da conjuntura societária. Por quê?
“...os intelectuais que formam a consciência crítica de seu grupo social são orgânicos a ele porque capazes de construir não apenas um “bloco histórico” (uma articulação) entre estrutura e superestrutura (economia e cultura), entre sociedade civil e sociedade política, entre governantes e governados, mas principalmente porque sua ação rompe com a concepção de poder-dominação e se dedica a elevar intelectual e socialmente as camadas populares conduzindo à hegemonia de uma efetiva democracia”.(SEMERARO, 2004).
Efetivamente necessitamos superar a “ética do desejo”, tão bem comentada por Leonardo Boff em seu livro recém-publicado: Ética e Espiritualidade, onde afirma: “Esta surgiu do desejo de conquistar o mundo; ganhou uma forma particular no capitalismo no seu afã de satisfazer a todos os desejos; e o faz excitando de forma exacerbada todos os desejos, especialmente pelo marketing comercial, gerando a cultura do consumo pelo consumo”. (BOFF, 2017). Pois é preciso colocar um limite nessa ética para proporcionar o devido equilíbrio do tecido social. Sem o limite há sempre a tentação de passar do racionalismo exagerado para o prazer e o consumo desordenado. É algo que se encontra em nossa estrutura humana.
O valor do limite se encontra nas normas e princípios que são valores que constroem a sociedade. Essa é a base para se evitar que o poder, o consumo e a tentação do acúmulo nos fechem para o “rosto do outro”, bloqueando a emergência de um novo paradigma em vista de uma nova história que seja solidária, inclusiva e que nenhuma criatura da natureza, mormente do ser humano, seja excluído. Na Casa Comum criada por Deus há espaço para todos e para isso é que necessitamos nos educar para a solidariedade. Portanto uma “ética da razão” complementada por uma “ética da ternura, da sensibilidade e da responsabilidade” é a “justa medida” para um mundo novo que todos almejamos.
É bom pensar!

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