Coerência entre vida profissional, ética e espiritualidade: fundamento para uma nova sociedade

Economiaenegocios Artigos 27 Fevereiro / 2018 Terca-feira por Padre Ari

Quando se fala em ter coerência, trata-se de uma conduta onde existe harmonia entre a fé que professo e a ação que de se desenvolve na praticidade da vida. Nesse contexto chega-se ao centro de toda problemática em questão, ou seja, a “Verdade”. A verdade é imutável, pois é importante e necessário distinguir as verdades parciais da “Verdade última” que é o Absoluto.
Lamentavelmente, ainda corre nas veias da atual cultura um ranço perigoso proveniente das ideologias idealistas de séculos próximos passados e de cunho mais abstrato do que real. Essa afirmação vem para dizer que tais concepções de mundo estão embutidas nessas ideologias que fracassaram. Por outro lado, ceifaram muitas vidas inocentes sem ter legado à atual cultura os ideais que colocaram como meta. A verdade é que se vive uma situação caótica envolta numa escuridão que assusta.
Sem dúvida, que querer construir na temporalidade uma sociedade perfeita é um engodo e uma ilusão. Enquanto se está no tempo no espaço podemos melhorar nossas convivências, administrar com bom senso nossos conflitos, no entanto, resolvê-los definitivamente é impensável para qualquer ser humano. Somos seres finitos e precisamos caminhar para o além da história. As culturas, por outro lado, sempre são dinâmicas, finitas e provisórias, embora sempre com possibilidade de avanços mais humanizados.
“A grande sensibilidade, que o homem contemporâneo testemunha pela historicidade e pela cultura, leva alguns a duvidar da imutabilidade da lei natural, e consequentemente, da existência de “normas objetivas de moralidade”, válidas para todos os homens do presente e do futuro, como foram já para os do passado: será possível afirmar como válidas universalmente para todos e sempre permanentes certas determinações racionais estabelecidas no passado, quando se ignorava o progresso que a humanidade haveria de fazer posteriormente? (JOÃO PAULO II – Carta Encíclica - Veritatis Splendor – Paulinas – 8ªed. 2006). E segue:
“Não se pode negar que o homem existe dentro de uma cultura particular, mas também não se pode negar que o homem não se esgota nesta mesma cultura. De resto, o próprio progresso das culturas demonstra que “algo” é precisamente a natureza do homem: esta natureza à medida da cultura constitui a condição para que o homem não seja prisioneiro de nenhuma das suas culturas, mas afirme a sua dignidade pessoal pelo viver conforme a verdade profunda do seu ser”.

Deste texto é possível inferir que na prática a vida humana e sua cultura podem e devem evoluir em sintonia com as novas descobertas, no entanto deve-se perceber quando a própria Igreja afirma: “...subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje e para sempre”. (Veritatis Splendor, 53).

Cristo é o Princípio que assumiu a natureza humana e “ilumina definitivamente nos seus elementos constitutivos”, ou seja, tudo que esteja no cosmos.
A crise de nossa civilização vem sendo retratada a uma velocidade espantosa pela decadência ético-moral que é fruto do afrouxamento dos valores e princípios que sempre precisam caminhar em sintonia com a vida real das pessoas. Jamais se pode aceitar a fragmentação da realidade como processos estanques. Essa visão holística da vida sempre tem a possibilidade de favorecer uma nova e real esperança de um mundo de face nova.
É bom lembrar que: “...somente é valioso aquilo que está entrelaçado de esperança e que transmite esperança. Um bom arquiteto não constrói simplesmente casas, mas constrói esperanças: proteção de lar, de segurança, de beleza. Uma empresa será valiosa a longo prazo somente se oferecer esperança com sua maneira de tratar seus funcionários e seus clientes e com seus produtos”. (Ernst Bloch).

O fenômeno dessa crise em curso na atual sociedade se formos humildes ver-se-á que nela subjaz a falta de coerência na vida dos cidadãos, desde o alto escalão da gestão pública, do mundo empreendedor, da vida das próprias Igrejas e comunidades, algo que é o denominador comum, ou seja, há ausência desta coerência entre fé e vida.

Em geral, para não dizer todas as empresas que faliram ou estão à beira da falência para fechar as portas, no final de tudo aparece a questão da coerência do líder da organização. Como se manifesta essa assertiva? Em primeiro lugar a valorização da dignidade humana que ali exerce seu trabalho, a questão da honestidade e transparência nos negócios, o tratamento dado aos clientes, fornecedores, enfim tudo que gira em torno das organizações, seja empresarial ou de outra natureza. Se não houver coerência entre o que sou como pessoa e o tratamento com o outro, sempre vai paulatinamente mostrar é um sinal para essa empresa, igreja, organização se tem ou não futuro.
A falência de muitas empresas está ligada ao modo de gerir a organização. Ela transmite esperança, amor, respeito, confiança, delicadeza para com os colaboradores? Ela transmite esperança alegria e motivação aos que ali trabalham?
Um valor que pode parecer a muitos empreendedores algo piedoso no gerir a organização, seja na gestão pública, na sociedade civil, nas igrejas é o “Amor”. Tanto a filosofia grega, quanto a bíblia mostram que “...ele não é tanto um mandamento, mas antes uma fonte da qual podemos haurir. Ele é um poder que transforma nossa vida. “O amor é uma fonte de energia”.
Um número cada vez maior de gestores de pessoal atribui importância não só à competência, mas também à inteligência social {...} gerenciar para mostrar empatia e ao mesmo tempo “reunir tropas”. Eles têm de convencê-los da visão da empresa e encorajá-los da visão da empresa e apoiá-los em sua aspiração ao sucesso pessoal.
Um novo conceito de empreendedorismo seja público, civil, organizações diversas ou/e religiosas que não cultivam a coerência não tem futuro, pois falta a essência que agrega e constrói.
É bom pensar!

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