Sabedoria sem compaixão é falsa e compaixão sem sabedoria leva à exaustão

Economiaenegocios Artigos 14 Março / 2018 Quarta-feira por Padre Ari

O quadro do atual contexto societário está paulatinamente numa inusitada tomada de posição ao decidir os passos que estão a exigir do construto político socioeconômico em termos de futuro. Analisando de maneira sincera e coerente a realidade em curso, o destino da humanidade e do Planeta Terra como um todo vem estreitando cada vez mais as chances e oportunidades de crescimento e sobrevivência no ritmo em que está.
A separação entre mente e espírito na cultura contemporânea colocou toda a cosmologia num estágio complexo e com desajustes gritantes, aliás, que pedem socorro por não mais suportar os abusos provocados por ideologias unidimensionais radicais sem pensar no futuro das novas gerações.
“A separação entre mente e espírito também pode ser reconhecida ao se colocarem em contraste dois conjuntos de valores que estão em vigor na pessoa viva no planeta, e de qualquer maneira, todos são afetados pela economia global e pelos valores incorporados a ela”. (CULLIFORD, Larry – A psicologia da Espiritualidade – Estudo do equilíbrio entre mente e espírito – Ed. Fundamento -2015).

De acordo com o autor citado, faz uma belíssima reflexão quando afirma: “...esse conjunto de valores, estimulado pelo lucro e pelas leis de oferta e demanda, é essencialmente materialista e

acrescenta
até mesmo mercenário”. Ora, na prática isso significa de que o sonho de mudar a sistematização para gerir qualquer organização, “ipso fato” conduz a uma série de conflitos, aguça o sentimento competitivo entre as pessoas. Deste imaginário é que emerge um construto com tendências à desagregação interpessoal na vivência do tecido social. Esse quadro é preciso ser claro em reconhecer que é um dos motivos com que as pessoas que trabalham nessas empresas com esse paradigma, as tornam doentes com sérios desajustes psicossomáticos. Basta fazer uma pesquisa de campo entre nossas organizações sejam empresariais, ou de qualquer outra natureza, inclusive religiosas, é assustador o número de pessoas com depressão, e/ou outras doenças, aliás, e muitas que conduzem a óbito. Por quê?
É bom frisar que a visão tradicional da qual significativo número de nossas empresas estão impregnadas em seu imaginário, é para administrar a organização com o fim de apenas lucrar. Percebe-se também tal atitude, na “Coisa Pública” e o resultado são de pessoas que no decurso tempo se esgotam e adoecem com uma frequência sistemática é assustadora. Há aí uma ética racionalista e unidimensional com destaque na lucratividade da organização não importando em que condições. É a conduta fria de um racionalismo exacerbado e, ao mesmo tempo prescindindo de uma ética que contempla o humano, ou seja, da ternura, da responsabilidade e da sensibilidade para com o colaborador que trabalha o tempo inteiro, e, muitas vezes pressionado para produzir sempre mais, indiferente ao ritmo de cada colaborador, pois o fim último e que interessa é apenas o lucro.
Percebe-se então que tais organizações, empresas e/ou outras se trata de “...suprimir consciente ou não de ‘projetos a curto prazo e oportunistas, em vez de esforços bem planejados, concretos e duradouros, pois são os valores do nosso ego cotidiano, visando apenas sobreviver e prosperar enquanto enfrentam ameaças e oportunidades”. (CULLIFORD, 2015).

Os novos tempos exigem duas éticas da qual já falava em artigos anteriores, ou seja, a ética da razão que dá o limite e a ética da ternura e da responsabilidade que edifica e dá sentido à pessoa. Esse é o paradigma que a curto, médio e em longo prazo algo que se possa planejar a economia e todos os setores societários para encontrar um equilíbrio sólido na construção de novo mundo desejado por todos.

É notório que em escala cada vez maior o cansaço e o desânimo que ronda a sociedade como um todo, especialmente para os mais pobres, discriminados e excluídos e que não conseguem ver uma saída digna de lutar. A população mais carente, e, mesmo a média é que faz girar a economia do país. No entanto, se sentem traídas principalmente pelos “Gestores Públicos”, que pela ousadia, descaso para com aqueles que o elegeram para administrar a “Coisa Pública” se vê como “sobra” da sociedade e sem perspectivas de mudanças em curto prazo. Os “gestores atuais”, sempre ressalvando as exceções, devem ter vergonha para se apresentar como candidatos para esse novo pleito 2018. A sociedade necessita de homens públicos, estadistas com idoneidade e caráter, e, principalmente cientes da responsabilidade que possuem nas mãos ao “gerir a nação” em vista do bem comum.

A sociedade quer e exige constantemente pessoas que inovam este sistema falido, aliás, nos três poderes que perderam o senso da justiça, da retidão, do uso do poder como serviço, salvo exceções. É necessário algo inovador também na questão Jurídica sem os famosos “parágrafos e incisos” que fazem que nunca chegue a condenar principalmente, os homens do colarinho branco que cometem crimes e nunca são condenados. Tudo isso retrata para a sociedade o reflexo exaustivo de um sistema falido, obsoleto e que não responde mais ao desejo do cidadão brasileiro.

Por outro lado, embora nessa confusão haja uma luz no fundo do poço, pois vem surgindo uma geração nova de juristas, que paulatinamente começam a fazer a diferença com outra história para o país. Gente que estão descobrindo e trazendo com dificuldade um novo conjunto de valores, ou seja, a dimensão da espiritualidade. O que vem a ser isso na prática, quando a mesma se vê inserida numa sociedade vazia, niilista e sem grandes perspectivas de vislumbrar um mundo diferente?
“É o aspecto espiritual, relacionando ao eu verdadeiro, à alma. No nível mais profundo da psique humana, há uma comunicação forte com o Absoluto, com a parte divina do espírito, que nos mostra um vínculo inegável entre os indivíduos e destes com a natureza, o planeta e o cosmos. Os valores que derivam mesmo de uma pequena parte dessa realidade estão impregnados de sabedoria e compaixão”. (CULLIFORD,2015). E segue:
“Conciliar sabedoria e compaixão produz uma atitude de amor maduro e altruísta, cujas ações são firmemente baseadas na regra de ouro de fazer ao outro apenas aquilo que gostaríamos que fizessem a nós”. E o autor conclui: “...alguns valores, atributos e virtudes espirituais provém do amor maduro, da sabedoria e da compaixão”.
A esta altura é possível fazer referência para melhor compreender o surgimento de nova sociedade essa expressão profunda: “...o cuidado está ligado diretamente à morada e ao outro. Mas há uma razão ainda maior para considerarmos o cuidado como fonte secreta da ética, pois o cuidado pertence à essência do humano e de o que existe e vive”. (“BOFF,Leonardo – Ética e Espiritualidade – Como cuidar da Casa Comum – Vozes – 2017). Chama a atenção ainda quando o autor frisa: “...a ética do cuidado é imperativa {...} ou cuidamos de nossa Casa Comum ou então percorremos um caminho sem retorno.

O psicanalista norte-americano Rollo May escreve: “...Na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos, perdemos de vista o ser humano. É o mito do cuidado, e somente ele que nos permite resistir ao cinismo e à apatia, doenças psicológicas de nosso tempo”. Em qualquer análise que fizermos da situação cultural contemporânea vê-se que, se por um lado a tecnologia nos encantou, por outro também nos cegou para a vida como um todo, e os valores se perderam pelo caminho.

Todo o contexto político socioeconômico e também da religião, precisa dar uma reviravolta no imaginário que ainda está forte na cultura hodierna, pois fomos marcados no profundo do ser-si-mesmo de cada um com a lógica do racionalismo que se ligou ao capitalismo, ao dinheiro, ao acumular bens materiais. É hora de colocar novamente os pés no chão da vida com realismo e humildade para redescobrirmos que somos passageiros, embora tenhamos o direito de viver bem, mas respeitando tanto a ecologia humana quanto a ambiental, pois tudo é natureza e dela também fazemos parte.
É preciso cuidar do conjunto. É questão de sobrevivência tanto da humanidade, quanto do Planeta Terra. Pense!

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