A racionalidade lógica aliena a realidade e confisca toda sua alteridade

Economiaenegocios Artigos 07 Janeiro / 2019 Segunda-feira por Padre Ari

Afinal a situação em nível local ou transnacional é baseada num pensamento que vive um descompasso entre o pensar e o viver. Por quê? O objetivo do ser humano em sua realização vem paulatinamente sofrendo um processo de desconstrução em se tratando da sua dignidade.

Inferindo desse paradigma sempre é bom frisar que a racionalidade lógica absolutizada não deixa de ser um processo degradante do humano e para o humano, pois tende sempre a fechar-se sobre o próprio “eu”. Por outro lado, a razão torna-se edificante à medida que se abre para além do próprio ser, e, portanto, não se esgota no pensar.
Toda a crise da sociedade contemporânea tem sua raiz no fechamento da própria imanência, e, assim, “ipso fato” nega a totalidade da vida como um todo, e, consequentemente, perde de vista o sentido último da existência humana.
“...relativizar a pretensão da razão positiva, e/ou lógico-discursiva {...} potencializa a razão mediante sua abertura a formas de conhecimento espirituais que possam encaminhar o homem para a inteligência do essencial e verdadeiro da realidade em sua integralidade”. (BETANCOURT-FORNET, Raúl – Filosofia e Espiritualidade em Diálogo – Ed. Nova Harmonia – 2018 – p.72)
O princípio de uma mudança de paradigma não se reduz a uma simples análise da realidade, mas deve dar um passo além do factível para despertar e visualizar uma unidade quando diz respeito à antropologia que a retrata além da corporeidade e como elemento aglutinador de um ser com significado.

A razão pura e absoluta é fria além de indigesta, e, isso acontece quando a mesma não consegue visualizar uma ética da ternura e do amor que a complementa e a valoriza, bem como possa dar o limite para a existência humana. A cultura pós-moderna centrou-se em demasia no pensar cartesiano, o que a fez algo sem alma. Daí infere-se de que não é no pensar que se esgota o sentido da vida, embora o pensar racional tem a função e a missão de temperar a dimensão da sensibilidade, do carinho, da gentileza e da flexibilidade nas relações interpessoais.
Em contrapartida é sábio a frase lapidar do filósofo alemão Ghelen quando afirma: O homem é um ser de carência, contudo com as ideologias racionalistas petrificadas no próprio pensar, segue um processo de desconstrução do humano e da vida como a torna insípida e vazia. A insistência em frisar esse imaginário na cultura hodierna, a mesma tem empurrado o tecido social para disfunções e desajustes psicossomáticos de toda ordem como a depressão, ansiedade, doenças sem diagnósticos aparentes, desequilíbrios emocionais, porque no decurso do tempo e focado no “ter”, se perdeu o senso do lúdico, da hilaridade, da contemplação da própria natureza com suas belezas e, em consequência, a própria alegria de viver e sentir o belo.
É preciso, visto de outro ângulo da história humana, refazer um novo trajeto para a sociedade contemporânea, aonde se possa retomar um balanceamento entre a razão, a ternura e o amor, pois a razão proporciona o limite e a ternura e o amor torna a vida eivada com significado e sentido, aliás, sem correr o risco de deslizar para o “vale tudo”. É um processo que indica uma construção a partir de uma nova metodologia, mormente na educação integral das novas gerações, em vista da formação do homem em sua totalidade e não fragmentado.
“...não há nenhuma educação para o sublime. Nós ensinamos às crianças como medir, como pesar. Nós deixamos de ensinar-lhes como honrar, como sentir o maravilhoso e o temor. O sentimento do sublime, a marca da grandeza interior da alma humana e algo do que é, potencialmente dado a todo o homem, agora se tornam um dom raro. Contudo, sem isso, o mundo se torna insípido e a alma se torna um vácuo”. (apud HESCHEL, Abraham J. – Natal em Comunidade – Ed. Oikos/Nova Harmonia – SIDEKUM, Antônio – HAUENSTEIN, Iria – (org) – 2018 – p.35).
A razão sem o tempero da ternura e do amor aliena a essência mais profunda do ser humano. Portanto, repensá-la é a abertura da porta para o encontro com o sentido e a realização humana. Urge uma ética da “razão” e da “ternura e do amor” como síntese para um bom viver.

É bom pensar!

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