Faltou combinar com os russos

O aumento nos gastos com o pagamento da dívida pública no Orçamento da União de 2018 vai diminuir os investimentos do governo.O orçamento da União prevê para este ano gastos de R$ 3,57 trilhões, sendo que R$ 1,16 trilhão serão destinados para o refinanciamento da Dívida Pública. Não significa a saída desse total, uma parte é destinada a pagar títulos a vencer mais os juros, o restante será coberto por emissões do Tesouro Nacional, a conhecida rolagem da dívida pública.

A necessidade do Tesouro Nacional para os vencimentos da Dívida Pública Mobiliaria Federal Interna ( DPMFi) para 2018 é de R$ 617,3 bilhões. O Tesouro possui uma reserva de liquidez (colchão da dívida) para cobertura superior a 6 meses do serviço da dívida interna(principal e juros).

Em Relação a Dívida Pública Mobiliaria Federal Externa (DPMFe) os vencimentos no ano são de R$ 9,5 bilhões. O Tesouro já possui recursos em dólares suficientes para cobertura total da dívida externa em 2018.

A Dívida Publica Mobiliaria Federal Interna e Externa tem uma estimativa de chegar ao final deste ano em R$ 3 trilhões e 780 bilhões.

Esta Dívida Federal representa 51% da relação Dívida Produto Interno Bruto (PIB), mas se for somada as dívidas dos Estados e Municípios a relação chega a 74,4% do PIB. A tendência é que esta relação continue crescendo chegando em 2026 a 79,6%. Após 2026 com medidas concretas de rigidez nos gastos é que existiria a possibilidade de diminuição nesta relação Dívida/ PIB.

Tanto os montantes crescentes ano a ano da Dívida Pública como a relação com o PIB, são preocupantes e deve ter gestão muito competente.

Para sustentar essa dívida os investidores estão representados pelo Fundos de Previdência com 25,5% do montante, Fundos de Investimentos com 25,2%, Instituições Financeiras com 22,3%, Não residentes com 12,1%, Seguradoras com 4,8%, Governo com 4,5% e Outros com 5,6%.

Fica claro que estas aplicações financeiras em títulos públicos são garantidoras de aposentadorias, pensões, reservas financeiras de pessoas, de instituições financeiras e garantidoras de pagamentos de sinistros de seguradoras.

Ou seja, o governo não pode falhar em pagar os juros e o principal nas datas de seus vencimentos.

O processo recessivo e o desemprego acabou diminuindo a demanda e por consequencia a inflação veio caindo. Isso permitiu estabelecer que a inflação estimada para este ano seja inferior ao Centro da Meta de 4,5 % estabelecida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central para 2018. Estamos com a Taxa Selic (Taxa de Juros Básica) em 6,5% que é a referencia para as demais taxas praticadas pelo mercado. Como pode ser visto o governo é o maior beneficiado com a queda na Taxa Selic.

Todavia esta taxa não está sendo seguida pelas instituições financeiras em empréstimos para pessoas físicas e jurídicas. O spread , diferença entre a taxa que o banco paga para seus investidores e as cobradas dos tomadores de empréstimos alcançam até 300%.

Entre as razões que os juros de bancos não recuem, é o de haver ainda falta de informações disponíveis dos tomadores de empréstimos, lembrando quem faz um crediário em uma loja está recebendo um financiamento para pagar a prazo, mas desconhece isto. Existe para análise na concessão de crédito os cadastros de negativos (SPC, SERASA), que consideram apenas os maus pagadores.

No Brasil, todo o histórico dos bons pagadores é ignorado, tanto que há uma dificuldade na implantação do Cadastro de Bons Pagadores. Há interesses em jogar todos em uma vala comum.

Em outros países, como EUA e a maior parte da Europa, já se utilizam dados de cadastros positivos, onde são apontados o cumprimento dos pagamentos efetivados em dia pelo cidadão. Isso pode gerar taxas mais baixas de juros a serem cobradas.

O Banco Central, até março passado exigia que 40% dos valores arrecadados pelas instituições permanecessem depositados na instituição, o conhecido Depósito Compulsório.

Um dos argumentos básicos e inquestionável por cobrança de juros altos, é a falta de educação financeira pela maioria da população brasileira. De fato os tomadores de empréstimos ou que fazem crediário são direcionados pelos bancos ao uso do cheque especial ou do cartão de crédito. Muito menos burocrático que a abertura de um crediário, mas que tem as mais altas taxas de juros cobradas.

Tentando dar uma alívio nas taxas cobradas, já a partir deste mês de abril, o Banco Central reduziu o compulsório dos bancos para 25% dos depósitos à vista. Para Poupança Rural diminuiu de 21% para 20% e para poupança e demais modalidades de depósitos de 24,5% para 20%.

Esta mudança de regra, segundo o Banco Central, injetaria R$ 25,7 bilhões no sistema financeiro. As novas taxas de recolhimento voltariam ao patamar antes da crise financeira de 2008.

Entusiasmado com a queda na Taxa Selic, o Ministério do Planejamento, segundo os seus cálculos, acredita que com a queda dos juros básicos da economia há potencial para liberar R$ 196 bilhões de renda do orçamento das famílias e das empresas brasileiras ao longo de 2018. Apontam que os juros mais baixos vão reduzir em R$ 147 bilhões o endividamento das famílias e em R$ 49 bilhões das empresas – o equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme informa o secretário de Planejamento e Assuntos Econômicos do ministério, Marcos Ferrari. O potencial de aumento de renda aponta que a retomada do crescimento da economia é sustentável.

No dito pelo secretário, o efeito desse processo é que os juros mais baixos permitem não só a renegociação de dívidas, trocando juros mais elevados por taxas mais baixas, como abrem espaço para o aumento da demanda na economia e dos investimentos.

"As taxas de investimento e do crescimento vão aumentar este ano e um dos principais motivos é o ciclo monetário favorável", informou Ferrari, ressaltando que os investimentos já crescem mais do que o consumo no País. Na sua avaliação, um bom sinal para mostrar a "qualidade" da expansão econômica.

Segundo ele, as empresas podem fazer o pré-pagamento de uma dívida cara mediante outro financiamento mais barato. As famílias podem quitar sua dívida no cheque especial com um CDC (crédito direto ao consumidor) com juros mais baixos.

Este entusiasmo esbarra na falta de educação financeira dos endividados e qualquer nova renegociação feitas pelas instituições financeiras para a diminuição dos encargos será como ossos jogados a famintos. Mesmo outras formas de financiamentos continuarão com taxas altas.

Os R$ 25,7 bilhões liberados pelo diminuição do compulsório pelo Banco Central é uma bela quantia, mas insuficientes para acelerar o crescimento para 2018, apenas ajuda.

Embora as instituições financeiras sejam detentoras de 22,3% da Dívida Pública Federal, é nas taxas de juros cobradas dos tomadores de empréstimos é que está o seu maior quinhão de lucros.

O Brasil tem cerca de 150 bancos autorizados a funcionar, mas dados do Banco Central mostram que apenas os quatro maiores – Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Itaú – detêm 73% do total de ativos do sistema e 80% do crédito concedido no País. São eles que fixam as taxas a serem cobradas.

É contada até hoje uma história da Copa de 1958, na Suécia. O técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, bolou um esquema que seria infalível para vencer a seleção da Rússia. Nilton Santos lançaria a bola pela esquerda para Garrincha que driblaria três russo e cruzaria para Mazzola marcar de cabeça.

Garrincha ouviu atentamente o técnico e disse: "Tá legal, seu Feola, mas o senhor combinou com os russos?

Está tudo certo que o governo vem fazendo só os bancos (russos) não estão reduzindo suas taxas como o esperado.

Faltou combinar com os russos.

Publicações recentes