Nada além de uma ilusão

Em 2005 dei início a um livro onde procurava através dos meus escritos mostrar o que já estava acontecendo com o primeiro governo do Partido dos trabalhadores. Não dei prosseguimento ao mesmo. Em nenhum momento me passou ousar pensar que havia sido institucionalizada a corrupção endêmica e sistêmica no Brasil, no dizer do ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Um assalto ao dinheiro e patrimônio público, como nunca visto antes nesse país.

O desmonte dessa corrupção institucionalizada começou com as prisões feitas pela Operação Lava Jato e culmina agora com a prisão de um ex - presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.
Não foi o primeiro. Quarenta anos atrás, no dia 30 de julho de 1968, o ex-presidente da Republica, Jânio Quadros, que foi condenado ao Ato de Confinamento por 120 dias.

Antes dele, Washington Luís, foi detido ainda no cargo. Café Filho, em 1955 ficou em prisão domiciliar com restrição a sua movimentação, indo mais atrás até o Mal. Hermes da Fonseca.
Por essas traquinices do destino no dia 6 de abril de 2018 a ex-presidente Park Geun-hye, a primeira mulher a comandar a Coreia do Sul, foi condenada a 24 anos de prisão, por corrupçã, suborno e abuso do poder. Como não terminasse a coincidência, na África do Sul, ex-presidente Jacob Zuma, que renunciou ao cargo em fevereiro deste ano, agora enfrenta pelo menos 16 processos por corrupcão extorsão, fraude e lavagem de dinheiro.

São tantas as coincidências.

Brasília, dia 1º de janeiro de 2003 um mar de bandeiras com a estrela vermelha toma conta da esplanada dos ministérios e da frente do Palácio do Planalto. Tinham vindo dos quatro cantos do país. Representavam os 53 milhões de votos dados ao candidato vencedor. Estava ali para ver o momento histórico da posse do novo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Foram mais de 13 anos de espera, desde a primeira candidatura em 1989. Havia naquela multidão o sentimento da mudança, estava nascendo diziam finalmente à democratização da sociedade. A multidão estava alegre com esse sentimento de redenção que finalmente iria acontecer, pois sinalizava na sua visão, o fim do domínio das elites que controlavam o povo brasileiro. Seria empossado quem melhor conhecia o país, afinal foram 12 anos percorrendo com suas caravanas da cidadania o território nacional. E mais, com tal conhecimento informava ser contra tudo isso que existia por aí, era a sua forma de expressar os erros que aconteciam e não beneficiavam a população.

O candidato que perdeu as eleições, José Serra, representava na visão dos eleitores, o continuísmo do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Governo que em outubro de 2002 tinha 23% de avaliação positiva, contra os 43% de pouco antes de sua reeleição em 1998. O presidente Fernando Henrique Cardoso havia vencido em primeiro turno as eleições de 1994 e 1998. Mas a crise cambial de janeiro de 1999, e a conseqüente desvalorização do Real, que havia sido o seu carro chefe de outubro de 1994, o racionamento de energia de 2001 e o crescimento do desemprego mostraram as fragilidades do governo e o desencanto da população.
Foi criado assim um cenário difícil em 2002, que atingiu o candidato Serra. Havia neste último ano de governo, um sentimento igual ao final do governo do presidente José Sarney. Era preciso mudar. Mudar para a melhor, foi o que passou a seus eleitores o candidato Lula.
O presidente Sarney transmitiu o cargo em 15 de março 1990 para Fernando Collor de Mello, que assumiu com uma inflação de 84,3% só naquele mês. As esperanças se evaporaram imediatamente naquela ocasião, o governo Collor foi um fracasso total, os seus planos deram em nada, e fizeram o PIB brasileiro recuar 21% em dois anos. Criou-se naquela ocasião um ambiente de escândalos e corrupção, que levaram ao seu afastamento através de um processo de impeachment pelo Congresso Nacional.
O seu sucessor Itamar Franco, governou sob uma inflação altíssima. Para se ter uma idéia da época, a moeda virtual chamada de Unidade Real de Valor – URV criada paralelamente à vigente Cruzeiro Real teve uma variação de 1º/7/1993 à 30/06/1994 de 4.840 %. Apesar disso o governo conseguiu domá-la através do Plano Real, sem ruptura de contratos, como aconteceu com o Plano Collor. O sucesso alcançado em pouco tempo pelo Plano Real, implantado em 30 de junho de 1994, leva a vitória em primeiro turno do candidato oficial Fernando Henrique Cardoso, ex- ministro da Fazenda.

Novamente o sentimento de mudança volta em 2002, e a classe média era quem mais estava sofrendo nesse final do governo FHC. Ainda assim, havia um receio de mudanças bruscas que poderiam ser realizadas pelo candidato Lula. Surge então a figura do Lulinha Paz e Amor, simpático e afável, imagem trabalhada pelos marqueteiros de Duda Mendonça. A vitória no segundo turno estava decidida. Aos eleitores do PT, ficou a impressão que o personagem apresentado era apenas para ganhar as eleições. As mudanças esperadas aconteceriam após a sua posse.
Entretanto, vieram seus porta-vozes procurar mostrar que as promessas de campanha só seriam realizadas em um possível segundo mandato. O governo conseguiu paralisar o Congresso Nacional, e que soube ser muito bem aproveitado pela oposição. A inabilidade política, de quem agora era vidraça, fez com que reformas importantíssimas fossem paralisadas, desagradando a todos. Como o caso da reforma trabalhista, que sofreu criticas de trabalhadores e empresários.
Não são só essas, as reformas sindicais e universitárias, foram também paradas.
A reforma tributária diziam que iria receber o máximo empenho dos governistas para que pudesse ser votada. Pois o que aconteceu em 2003, foram apenas meras intenções, e preservou a esfera federal em prejuízo dos estados e municípios.
A agenda do governo não ficou emperrada apenas dentro do Congresso. Uma lista de medidas citadas por Lula em sua campanha presidencial de 2002 como prioridades de seu governo sequer chegou ao Congresso por conta de divergências dentro do próprio Executivo. Assim pode-se citar, que ficou paralisada a reestruturação do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC), devido à força que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) pudesse vir adquirir. E, também o marco regulatório do setor de saneamento, que balizaria os investimentos na área. Isso que o governo Luiz Inácio Lula da Silva assumiu com as promessas de mudanças, mas ficou em dívidas com os seus eleitores.

Os primeiros sinais do que aconteceria nos dois governos já poderia ter sido percebida antes da posse.

Em junho de 2002 é apresentado pela cúpula do Partido dos Trabalhadores o documento intitulado Carta aos brasileiros, nele é apresentadas diretrizes de um futuro governo Lula. Bem diferente das ações propostas no documento final do congresso realizado pelo partido em novembro de 2001, em que era proposta a ruptura. Ruptura de todos os contratos e formas de ações existentes.
Em agosto de 2002 passa despercebido dos eleitores o compromisso de todos os candidatos ao cargo presidencial de manter os contratos vigentes e principalmente o acordo com o FMI. Vende-se desta forma aos eleitores pertencentes à classe média, fiel da balança desde que voltou às eleições diretas para presidente, a ilusão que haveria mudanças e essas para melhor. E, aos tradicionais eleitores do PT, que apenas era necessário fazer aquelas afirmações para chegar ao poder. Para depois fazer as verdadeiras mudanças, dentro da concepção que aqueles eleitores acreditavam.

Já eleito como presidente da República há uma demora na definição dos nomes que comporão a equipe econômica, o que gera na segunda quinzena de novembro de 2002 e na seguinte do mês de dezembro, uma intranqüilidade no mercado financeiro. A indicação de Antônio Palocci como ministro da Fazenda não serena os ânimos.
O nome mais esperado era de quem iria ocupar a presidência do Banco Central a quem cabe ser o guardião da moeda. E, desde junho de 1999, através do Comitê de Política Monetária – COPOM, o responsável por fixar as metas da inflação e estabelecer as taxas de juros básicas, a taxa Selic.

É através do Banco Central que o Estado intervém, diretamente, no sistema financeiro brasileiro, e indiretamente na economia. Portanto, era de máxima importância saber quem ocuparia esse cargo. O perfil a ser mostrado ao país e ao mundo deveria ser o de alguém com alto grau de conhecimento, experiência e credibilidade.
O nome escolhido foi o do banqueiro Henrique Meirelles, recém eleito deputado federal pelo Estado de Goiás, e que havia sido presidente do Banco de Boston nos Estados Unidos.
Os ânimos serenaram no mercado financeiro nacional e internacional. Caberia a partir de esse momento aguardar as ações e projetos a serem implementados pelo novo governo em seus quatro anos de mandato.
E ao completar 100 dias de governo, o presidente defendeu a reforma previdenciária e tributária, dizendo que era preciso acabar com “privilégios” e promover a justiça social. Algo recentemente visto na divulgação da Reforma da Previdência pelo atual governo do presidente Michel Temer.
O Ministério da Fazenda divulgou documento denominado de Política Econômica e Reformas Estruturais, em que fixavam o rigor fiscal e a inclusão social. Assim, esses foram os primeiros sinais de que não haveria as tão famosas mudanças prometidas.

Pois bem, em 30 de junho de 1999 foi implantada uma política monetária tem como linha mestra o acompanhamento sistemático da inflação.
Usou como modelo o adotado pela Inglaterra, lá denominado de Inflation Targeting, ou seja, fazer política monetária a partir de índices de preços e com câmbio flutuante.

Desde o último trimestre de 1998, havia metas de superávit primário (receitas menos despesas, descontados os juros) que naquela ocasião do anúncio da nova política monetária eram positivas. Foi o remédio apresentado na ocasião para se manter a inflação sob controle. Recebeu o governo Lula essa forma de política monetária, e a manteve como principal forma de agir com relação à inflação.

Foi feita uma tentativa de aumentar a liquidez monetária, com o pressuposto que com mais oferta de dinheiro haveria redução das taxas de juros finais a serem cobradas pelo sistema financeiro, e o aquecimento da economia. Alguns economistas acreditavam que essa redução ao trazer o aumento da liquidez monetária e por conseqüência aumento do crédito haveria pressão na diminuição das taxas de juros. O que aconteceu na ocasião foi que o reingresso dos depósitos aumentou a liquidez das tesourarias das instituições financeiras, que canalizaram para compra de títulos públicos, de baixo risco e boa rentabilidade, e sem inadimplência, o que não seria seguro em empréstimos para empresas ou consumidores.

Os grandes beneficiários das elevações das taxas de juros nos governos petistas foram as instituições financeiras, destacando-se os bancos com os seus extraordinários lucros na casa de alguns bilhões de reais. Como continua acontecendo.

Lucros que se forem convertidos em euros ou dólares continuarão ainda serem estupendos. Nos primeiros dias de maio de 2005, os dois maiores bancos do país divulgaram os seus lucros do primeiro trimestre, e sem surpresa alguma ultrapassaram a casa de um bilhão de reais.
Para ser mais preciso já naquela ocasião o maior banco do país obteve um lucro de R$ 1, 205 bilhão e o segundo colocado com R$ 1, 141 bilhão, tudo isso em apenas três meses. Graças à elevação dos juros básicos e administração dos fundos de investimentos detentores da dívida pública.

Em 2005 a dívida pública quase alcançou a marca de R$ 1 trilhão ( R$ 979 bilhões), foi e é sustentada até hoje pelas taxas de juros. Para este ano de 2018 está estimada chegar em R$ 3,8 trilhões. Resumindo foi o próprio governo que retirou a poupança interna para sustentar a sua dívida.

O governo Lula por não ter nenhum plano concreto em andamento e pela baixíssima experiência em governar, se agarrou aos modelos recebidos. Esquecendo que a economia funciona como um paciente que após muito tempo de aplicação de um remédio, o mesmo tem pouco efeito devido às resistências adquiridas no período. Algo que todo o médico tem obrigação de saber.
Quem estava no comando do país e os ocupantes dos altos cargos do país deveriam ter outros modelos a serem aplicados para efetuar o prometido espetáculo do crescimento do país.
Se o país cresceu em 2004, foi exclusivamente em função de um cenário internacional favorável e de alta liquidez. Como exemplo desta liquidez, foram os volumes financeiros aplicados na Bolsa de Valores e em fundos de investimentos. Mas que fogem do país ao menor suspiro.
Para a área social, não há nada o que se dizer, apenas algumas ações pontuais que rapidamente a mídia oficial as inflava como se fosse grande feito.
Não podemos esquecer a energia utilizada pelo então ministro da Previdência de obrigar idoso a irem para fila de agência do INSS para provarem que ainda estavam vivos. O que lhe valeu a criação de um troféu com o seu nome “Troféu Berzoini de Crueldade”, criado pelo então Partido da Frente Liberal, hoje Democratas (DEM).

E, para não ficar atrás, a área da Saúde era sub prioritária.
E o que dizer da promessa de campanha de correção da tabela do imposto de renda, que incide principalmente sobre os assalariados, que foi votada apesar de toda a oposição do governo? Até hoje continua defasada.

Fica, pois a dúvida se tudo isso foi incompetência ou havia também uma boa dose de maldade? O que se viu depois não era maldade e sim corrupção desenfreada.

A política externa, com exceção de alguns pontos como o da acolhida de refugiados fugidos das guerras no Oriente Médio ou na África foram pífios. O mesmo não podem dizer as ditaduras africanas e as latino americanos ou os países bolivarianos. A esses foram jogados bilhões do BNDES para que resolvessem seus problemas de infra estruturas, enquanto aqui no Brasil essas se deterioraram. O BNDES foi abastecido com R$ 550 bilhões vindos do Tesouro Nacional. A instituição até hoje não abriu a sua caixa preta e não se sabe para onde e para quem foram parar os bilhões de reais lhe concedidos.
Tivemos um governo que não era presidido, pois quem foi eleito não gostava de governar, já que a sua única experiência administrativa foi de dirigir um sindicato, assim como a de seus ministros próximos, e passou também por apenas um mandato legislativo de pífia atuação. E o seu único legado daquela época foi a frase de que o “Congresso tinha 300 picaretas”.
O presidente Lula trouxe para o governo o assembleísmo sindical transformado em Conselhos, que não funcionavam, pois ficavam aguardando sempre que houvesse um consenso de todos os seus membros. Esses cansaram de participar de reuniões inócuas e intermináveis, para se chegar a quase nada. Esse modelo é até hoje a espinha dorsal do partido, que enrijeceu, se esclerosou e tornou-se igual aos demais ao longo de suas décadas de existência, com fisiologismo correndo solto, e muita conversa e pouca ação.

Enfim, no ano de 2005 e nos seguintes a publicidade oficial e a ação do marketing governamental, foi de procurar mostrar “tudo de bom que o governo está realizando”.
E, que para terem mais o povo brasileiro deverá reeleger “quem sabe fazer e fará”. Tudo dentro de belos cenários, sorriso no rosto e fala agradável do candidato, e se mais não foi feito, a culpa era da herança maldita recebida. A velha e esfarrapada desculpa. Se existiram alguns planos no governo Lula, foram planos de vôos para o Airbus, que a galhofa do povo brasileiro apelidou de: Aerolula.

Foi puro marketing para esconder a realidade.

Mas, há ainda quem assim quem pense até hoje que precisava de mais tempo. Não houve nada no segundo mandato, a não ser pensar em um processo sucessório que permitisse ao partido ficar pelo mínimo de 20 anos. A sucessão foi com a presidente Dilma Rousseff e deu no que deu. O legado deixado é isso que está aí.

Suavizando esta análise, enfim dentro de um espírito romântico, para todo aquele que ainda acreditam no velho slogan " Sem medo de ser feliz", feito para eleger Lula, termino com os versos do ativista político, ator e escritor Mario Lago, para a música de Custódio Mesquita “Nada Além”, que serviu de inspiração para o título deste longo artigo.


Nada Além
Nada Além de uma ilusão
Chega bem
É demais
Para o meu coração
Acreditando em tudo
Que o amor sorrindo sempre diz
Eu vou vivendo
Na ilusão
De ser feliz

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