Pressupostos da ruptura entre Razão e Fé (texto X)

Levando em consideração a reflexão de que “razão e fé” são compatíveis, ainda mais quando se percebe que no início do cristianismo ele se aproximou da filosofia grega, não por mero acaso, mas porque o pensamento grego rejeitava os mitos e superstições da época, realidade que neutralizava o politeísmo e deu fundamento ao Deus único seguindo a tradição judaica para o Novo Testamento com a fé cristã.

Essa dimensão deu suporte e um processo de demitologização e crenças inseridas na cultura de então e que não era compatível com o cristianismo, embora se viva no hoje da história um processo semelhante com os novos mitos da modernidade e pós-modernidade, em especial, o mito da ciência e da tecnologia.
Portanto, tanto o pensamento judaico como o pensamento grego, com a valorização da razão, fragmentava de vez essa visão politeísta do cosmo, e, assim, abriu caminho para o Deus único, ou seja, o monoteísmo cujo cristianismo encontrou, sem se diluir na cultura da filosofia grega. O iluminismo grego foi o caminho para superar a cultura dos deuses, embora já no judaísmo em (Ex 3,1-5) no episódio da “Sarça ardente” Deus se revelou à Moisés. Nesse encontro ele é chamado à uma missão especial de preparar e organizar o povo de Abraão, Isaac e Jacó, que culminaria na vinda do Messias Jesus Cristo.

Outro aspecto que fundamenta o monoteísmo judaico é quando há a Revelação do Nome divino, que Deus falou a Moisés (Ex 3,14-15). “Eu Sou” aquele que “É”. E diz mais “Assim dirá aos israelitas: “Eu Sou” me enviou até vós...disse Deus a Moisés: “O Deus de Abração de Isaac e de Jacó me enviou até vós {...} É o meu nome para sempre, é assim que me invocarão de geração em geração”.
Percebe-se nesse diálogo entre o “Eu Sou” com Moisés estava claro a eliminação de qualquer outro deus. A filosofia grega sempre rejeitou os mitos para valorizar a razão. Embora, é bom frisar que a fé cristã, mesmo sendo racional, não se diluiu na grega sob o risco de se tornar uma ONG religiosa. Isso se justifica quando Atanásio de Alexandria tomou uma atitude com determinação em debate com os filósofos gregos, uma postura ao tratar do Mistério Trinitário, mostrando que nem tudo na temporalidade é possível ao pensar puro da lógica. Há realidades que estão além do aqui e do agora, e, para tanto é necessário o “sacrifício do intelecto” segundo Atanásio.
“...a conciliação entre razão e fé, característica do paleocristianismo, sofreu, transformações ao longo dos séculos e {...} é preciso recorrer a uma breve excursão sobre os caminhos de distanciamento entre teologia e filosofia, que nada mais é do que outro nome para o afastamento entre fé e razão”. (ASSUNÇÃO, Rudy Albino – Bento XVI, - A Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade” – Uma análise da visão do papa teólogo sobre o “Mundo de hoje” – Ed.Paulus/Ecclesiae – 2018 p.154).
A essa altura emerge a figura brilhante do teólogo e papa Ratzinger. Ele percebeu a tensão entre a fé cristã e o conhecimento intelectual. Tema que, aliás, já havia sido abordado pelo sociólogo Max Weber e que é muito importante para os cristãos de nosso tempo poder compreender essa ruptura da cultura pós-moderna com a fé. Por outro lado, é interessante salientar a importância do pensamento de Ratzinger nessa tensão histórica.


A RAIZ HISTÓRICA DA FRAGMENTAÇÃO ENTRE A RAZÃO E A FÉ

O pensamento do teólogo e papa Ratzinger nesse impasse histórico é fundamental e esclarecedor quando afirma:
“...o cristianismo nascente se entendia como filosofia, ou ainda, como filosofia por excelência {tanto que os primeiros cristãos foram acusados de ateus}. Mas houve um processo gradual de distinção entre fé e filosofia, pois um determinado conceito de filosofia começou a ser criticado pelos próprios cristãos e, assim, a fé começou a ser abandonada pela filosofia”. (ibidem Assunção, 2018)
Nesse momento vê-se que o ponto de estrangulamento vem de dentro da própria teologia, e, Ratzinger mesmo acrescenta, de que houve uma interpretação que fugia dos seus textos. Vejamos:
“...o cristianismo nascente se entendia como filosofia, ou ainda, como a filosofia por excelência. Mas houve um processo gradual de distinção entre fé e filosofia, pois um determinado conceito de filosofia começou a ser criticado pelos próprios pensadores cristãos, assim a fé começou a ser abandonada pela filosofia”. (cf. ibidem apud – Ratzinger – in Assunção, 2018) E segue:
“...tal processo de distanciamento teve influência no século XIII {...} o Aquinate Tomás de Aquino (1225-1274, {que} segundo Ratzinger via a filosofia como razão pura que, sem recorrer à Revelação, buscava responder às questões últimas da realidade sua certeza {que estaria} unicamente na força dos seus argumentos”. Por isso colocavam duas ordens: a natural e a sobrenatural.
Com base na análise do sociólogo Assunção e, ao mesmo tempo citando o teólogo e papa Ratzinger ele mostra aos leitores a função importante de Ratzinger quando este infere o seguinte:
“...tal distinção {acima colocada} ficou claramente nítida {de que} na Idade Moderna, embora esta tenha projetado sobre o Aquinate, {há} uma interpretação que foge dos seus textos. Por outro lado, ele mostra que há também {...} a negação da filosofia por parte da teologia. {Ele} cita alguns teólogos como: Tertuliano (160-220), Boaventura de Bagnorregio (1221-1274), porém a figura chave para entender tal rejeição, saindo do âmbito da teologia católica {foi} o reformador Martinho Lutero (1483-1546). Seu grito “Sola Scriptura” representou um grito de guerra contra a escolástica, o aristotelismo e o platonismo na teologia. Por quê?

“...para Lutero, filosofia na teologia implicava a destruição da graça, pois com a primeira o homem pretende chegar por si mesmo à sabedoria. E consequentemente, “a filosofia {seria} pura destruição da teologia”. (Assunção, 2018 p.155).
É bom perceber que nessa rejeição, Ratzinger cita o teólogo Karl Barth (1886-1968) dizendo que em todo esse processo o que se revela “não {foi} uma rejeição à filosofia em si, mas à metafísica”. (cf. notas de rodapé – op.cit. Ratzinger p.19-20 - in Assunção p. 154).
Ao analisar o trabalho meticuloso e ponderado do teólogo e papa Ratzinger, ele se volta com determinação para o filósofo de Könisberg, Immanuel Kant (1724-1804), pois é justamente com ele que se deu o “...distanciamento entre filosofia e teologia, entre fé e razão de forma radical, quando este {chegou} à convicção de que não se pode ir além do conhecimento dos fenômenos, ou seja, do campo da experiência {e} com Kant é que se dá o rompimento da unidade do pensamento filosófico: para além da física o homem não pode senão tatear a essência das coisas”. (ibidem).
É bom frisar que Ratzinger alude também a Friedrich Shleiermacher (1760-1834) que com sua filosofia relegou a religião ao âmbito subjetivo. Ele também transformou a religião em vivência e experiência de dependência do ser humano em relação ao infinito. A partir desta subjetivação a religião torna-se independente da metafísica. Ratzinger aponta que essa abordagem trouxe graves consequências para a fé cristã, pois essa visão não passa de um indescritível sentimento que percebe o infinito e/ou formas de consciência piedosa, expressão de sentimentos que permanecem indivisíveis. Daí se infere que o “conteúdo da religião não importa apenas a sua existência”.
Outro aspecto frisado por Ratzinger sobre Shleiermacher é que “...ele legitima a piedade, a religião e não a fé, pois a mesma fica confinada ao espaço fechado da subjetividade e, segundo o teólogo e papa Ratzinger isso conduz à perda da especificidade do cristianismo e daquilo que ele pode trazer à história, embora o filósofo berlinense ainda lhe atribua o posto de mais alta forma de consciência religiosa”.
Segundo o sociólogo Assunção em sua análise do pensamento de Ratzinger, ele afirma que finalmente outro momento culminante desse quadro é que “...a filosofia se torna positivista, quando a convicção é de que além das ciências exatas não se pode chegar à certeza”{...} por outro, Ratzinger mostra acima de tudo, segundo Assunção, de que o positivismo {e} as correntes filosóficas modernas restringem seu raio e seus métodos ao que é verificável, à semelhança das ciências exatas”. Portanto é partir desses pressupostos históricos que o tema fundamental da obra de Ratzinger é a questão da “VERDADE”.

Nesse paradigma observa-se que Ratzinger mostra que “...a modernidade não implica somente a depreciação da racionalidade inerente ao discurso religioso, particularmente o cristão, mas, sobretudo, uma perda, uma redução do próprio discurso filosófico. E diz mais: “...a modernidade é caracterizada por este processo concomitante de relegação, de desterro da teologia para a esfera subjetiva e de redução da filosofia ao verificável por meio de experimentação. {O curioso nesse aspecto é que} a situação da filosofia não está diferente daquela da teologia. E, nisso Ratzinger defende que há um limite na compreensão moderna da realidade no âmbito da filosofia (em depois, na ciência).

Toda esta reflexão do (texto X), tenta levar aos leitores qual foi o ponto de partida dessa visão unilateral da cultura contemporânea ao reduzir tudo à subjetividade. Sem dúvida, já se está colhendo na prática da sociedade e da cultura atual essa visão unilateral de “razão, ciência e fé”. O preço disso está sendo altamente significativo na vida do homem contemporâneo e no seu bem-estar. É preciso repensar a história com olhos voltados ao sentido último da mesma, aliás, que sempre é o encontro com a Transcendência, fim último da existência humana.
Nunca é tarde! (continua)