Consciência Libertadora, um desafio na formação das novas gerações

A instabilidade da cultura contemporânea está vinculada a um conceito que se tornou no imaginário do tecido social algo que é marca do subjetivismo no conceito de “Verdade” e da própria consciência.

A subjetividade é algo que pertence ao humano e digno de respeito para qualquer pessoa. No entanto, é preciso estar sempre atentos para o risco de torná-la absoluta e ser resposta última da existência humana, afinal “...o conceito de consciência

não é
algo de natureza funcional”. (cf. SILVA, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro – Ed.Nova Harmonia – 2018 p.156).
A tendência da cultura pós-moderna é tornar toda a realidade “líquida” que se descarta como algo inútil e sem consistência. Esse imaginário que se ampliou no contexto da atual cultura de tal forma que se tornou um “imperativo” e definitivo. As consequências práticas no dia a dia conduz tudo ao niilismo e que atinge a pessoa no âmago de sua essência interior, ou seja, o sentido da vida.
Partindo desse pressuposto é mister ter presente que: “...consciência moral, se diferencia de consciência psicológica. A consciência psicológica supõe sempre a consciência moral, embora o contrário é impensável”. (cf. SILVA, 2018 – p.157).
É preciso colocar a consciência humana no seu devido lugar, afinal a mesma é o “santuário da vida” e, por isso mesmo nos convida a termos a devida sensatez na formação da consciência das novas gerações que, embebidas nesta cultura do “vale tudo”, num determinado momento de suas vidas perceberão que chegaram a um abismo existencial.
Portanto é bom lembrar que: “...Consciência e Verdade estão intimamente interligadas”. (SILVA, Ari Antônio – Mundo Melhor: Justiça, Solidariedade e Transcendência) – Ed. Nova Harmonia – 2012 – p.225).
São Paulo, na Carta a Timóteo diz: “O homem para ter uma boa consciência” deve procurar a Verdade e julgar segundo a mesma Verdade. (Tm 1,5). E segue: “A consciência deve ser iluminada pelo Espírito Santo”(Rm 9,1; deve ser pura (2Tm 1,3) não deve com astúcia adulterar a Palavra de Deus, mas manifestar claramente a Verdade”. (2Cor 4,2).
O paradoxo da consciência contemporânea na medida em que se pretende colocar como “verdade última” transforma tudo em uma “transcendência imanente” voltada e fechada unicamente sobre o “eu” sem vinculação com a “Razão Universal Primeira sobre o Bem”. O teólogo inglês John Henri Newman afirma: “...no pensamento moderno, a palavra “consciência” significa que, em matéria de moral e religião a dimensão subjetiva, o indivíduo, constitui a última instância da decisão”. (op.cit Newman, in Silva – Mundo Melhor – 2012 – p.228)
Torna-se explícito o reducionismo a que é exposta a consciência, pois essa visão alimenta na sua subjacência a ideologia do pragmatismo e utilitarismo que possui uma finalidade unicamente de consciência funcional. Tal concepção finaliza o humano sobre si mesmo, e, ao mesmo tempo, o subtrai para além do factível. Desse pressuposto não resta outra coisa que o desespero sem perspectiva de dar um salto qualitativo e ontológico além do aqui e do agora. O ser humano foi criado para ser feliz e ultrapassar-se em direção à autêntica Transcendência que o realiza em um “ser” na totalidade.
Portanto, partindo do conceito de “consciência” na ótica de Newman, significa que a mesma sempre está vinculada à “Verdade”, pois o subjetivismo asfixia a grandeza da interioridade humana que foi estruturada na criação para uma grandeza qualitativa que supera o tempo e o espaço, ou seja, com a única Verdade que é Deus.

“...a emancipação do homem de seu Criador leva à desumanização {...} entretanto, esta possui uma dimensão e fundamento teológico e bíblico (Gn 1, 28ss), no entanto, quando prescinde da “Razão Criadora Universal do Bem”, que é a Verdade e esta é Deus, nos conduz aos absurdos políticos socioeconômicos que se retrata na realidade local e mundial de nossos dias. Como explicar tantas desigualdades, fome de nossos irmãos num período da história em que a fartura de bens e alimentos há em abundância?
Felizmente quero concordar com o escritor Ismael Serageldin. Nascido em Gisé em 1944. Ele fundou a Biblioteca de Alexandria, foi vice-presidente do Banco Mundial, co-diretor de painéis africanos sobre biotecnologia e inovação. Escreveu mais de cem livros e recebeu 37 doutorados “honoris causa”, de diversos países como Austrália, EUA, Índia, Líbano, Bulgária e Azerbaijão. Ele foi enfático quando deu uma entrevista, certa ocasião. O assunto da mesma era sobre a pobreza extrema, a fome crônica, as mudanças climáticas. O entrevistador dirigiu a ele a seguinte pergunta: O Senhor acredita que o Planeta está atento à população faminta?
Ele respondeu: Não. A fome é um holocausto silencioso. Custa milhares de vidas e, ainda assim, não gera comoção ou debate.


CONSCIÊNCIA, LIBERDADE E EDUCAÇÃO.


Ao observar a postura dos “Gestores Públicos” tanto em nível local quanto mundial, salvo sempre as exceções, há uma tendência estranha, embora seja possível perceber, o fundo ideológico que permeia os bastidores e absurdos em suprimir verbas para o setor da educação das novas gerações, mormente, em estudos avançados de “stricto sensu” relativo aos Mestrados e Doutorados das Universidades, como também retirar das grades curriculares dos cursos em ensino médio, das Faculdades de Filosofia e Sociologia, como também de outras áreas. Ouso dizer que é simplesmente uma vergonha a uma nação que suprime verbas para a formação. Para onde se destina essas verbas?
Nenhuma nação que se preze subtrai recursos dessas áreas, pois é o futuro da mesma. Há poucos dias a Alemanha destinou a essas áreas 800 milhões de euros para a pesquisa e a educação. Com tristeza e vergonha nosso país cortou mais de 2 bilhões. Que futuro tem nossa nação num contexto tão deprimente?
Esse é o retrato de uma nação, ressalvando sempre as exceções, cujos responsáveis mostram-se incapacitados para os cargos que ocupam demonstrando total desconhecimento de aspectos importantes como é o caso de grandes matemáticos e cientistas que foram filósofos que pensavam a realidade e forneceram elementos importantes para a tecnologia que hoje usufruímos. Prescindir disso, sem dúvida, além de ser um crime hediondo, é fazer das crianças e jovens, em médio e longo prazo, e, pessoas levadas pelo cabresto a serem cidadãos medíocres como muitos estadistas, ressalvando sempre as exceções, e tornarem as pessoas escravas de sistemas antidemocráticos, opressivos e ideológicos, pois não possuem nenhum interesse em construir uma civilização consciente, operante e sensata, e sim, pessoas como “massa sem rosto”, manipuláveis e escravas de um sistema sutil e cruel.
Caro, leitor é ingenuidade pensar que se vive num país livre. Se desejarmos uma nova geração consciente e livre é necessário prepará-las para isso, pois: “...a liberdade é uma experiência do pensamento no seu reconhecimento do Eu e do Tu. Um primeiro olhar ontológico acerca da liberdade suscita nesse momento hermenêutico do qual se vale a consciência para pensar-se a si mesma como algo do qual pode ser objeto {...} a construção da subjetividade do sujeito do qual se vale a consciência para aceder ao mundo da razão e da sensibilidade sem perder-se na repressão da objetividade, é o que torna possível que a consciência logre essa amplitude existencial desde o ser que a pensa e é capaz de projetar sua realização humana”. (MÁQUEZ-FERNANDEZ, Álvaro – Pensar com os sentimentos: razão, escuta, diálogo, corpo e liberdade – Ed.Nova Harmonia/UNICA – 2014 - p.28).
Uma experiência que vale tornar mais conhecida na sociedade brasileira é no que diz respeito ao pensar, quando o filósofo: Matthew Lipman que nasceu em Vineland, Nova Jersey, a 24 de agosto de 1922, e faleceu em West Orange, Nova Jersey, o 26 de dezembro de 2010. Foi um filósofo americano, reconhecido como o fundador da filosofia para crianças. A sua decisão de trazer a filosofia para jovens, decorreu de sua experiência como professor na Columbia University. Ali Lipman constatou a dificuldade dos seus alunos para raciocinar. Assim, procurou oferecer-lhes uma metodologia capaz de ajudá-los a desenvolver a habilidade de raciocínio, particularmente através do ensino da lógica. A crença de que as crianças têm a capacidade de pensar abstratamente desde muito cedo, levou-o à convicção de que incluir a lógica na educação infantil ajudaria a melhorar a sua habilidade de raciocinar. Em 1972, Lipman trocou Colúmbia pelo Montclair State College, onde criou o institute for the Advancement of Philosofy for Children (IAPS) e começou a introduzir a filosofia nas classes de educação primária e secundária.
Para difundir o programa Filosofia para Crianças – “Educação para o Pensar” Lipman e Sharp fundaram em 1974 o IAPC (sigla, em inglês, para o Instituto do Desenvolvimento da Filosofia para Crianças). A entidade ajudou a promover a implantação do método em centros regionais de mais de 30 países, entre eles: França, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Islândia, Portugal, Espanha, Austrália, Egito, Canadá, México, Chile, Argentina, Brasil, Colômbia, Guatemala, Nigéria, Zimbábue, Israel, Jordânia, Taiaw e Coreia do Sul. Lipman visitou o Brasil em Julho de 1994, por ocasião do 1º Congresso Nacional de Educação para o Pensar. (pgl.gal/matthew-lipman-e-a-filosofia-para-criancas-com-documentarios-sobre-a-sua-pedagogia/l.gal/matthew-lipman-e-a-filosofia-para-criancas-com-documentarios-sobre-a-sua-pedagogia/)
É importante destacar que a filosofia contém a lógica, que ajuda a melhorar o raciocínio das pessoas, o juízo. A filosofia ajuda também a melhorar a formação de conceitos. Um aspecto importante que Lipman coloca quanto à filosofia é quando afirma: “...não estamos tentando fazer com que memorizem Aristóteles. Não estamos querendo que aprendam filosofia, mas que façam filosofia. Isso envolve deliberação, diálogo, raciocínio. As crianças podem ler discutir, raciocinar. Podem falar das coisas das quais falam os filósofos: sobre a verdade, a justiça etc. Podem dizer que as crianças não são capazes de fazer isso, mas o fato é que elas fazem”. (ibidem)
Pergunta-se: É isso que tanto amedronta os “Gestores Públicos” e os faz temer a filosofia? Será que é isso que vai fazer com que a economia se estabilize?
É bom pensar!