A polarização extrema da política é capaz de matar democracias

Na coluna do Jornal NH do dia 17/05/19 próximo passado, publiquei na minha coluna um artigo intitulado: “Obscurantismo e Alienação”. Sempre procuro ter cautela ao abordar situações de natureza política socioeconômica, mormente quando se trata de nossa nação brasileira, como também da América Latina. Nesse, afirmo sem margem de dúvida que nenhum Partido Político com sua ideologia e/ou concepção de mundo é ideal.

Há acertos e erros. No entanto é preciso frisar com clareza conceitual a importância do papel dos Partidos Políticos instituídos, se quisermos manter a lisura dos sistemas que dizem respeito aos regimes democráticos. Por quê?
“...demagogos potenciais existem em todas as democracias {...} em algumas democracias, líderes políticos {autênticos} prestam atenção aos sinais, {como} tomam medidas para garantir que os autoritários fiquem à margem, longe dos centros de poder”. (LEVITSKY, Steven – ZIBLATT, Daniel – Como as democracias morrem – Zahar – 2018 – RJ – p.31). E segue:
“...nem sempre os políticos revelam toda a plenitude do seu autoritarismo antes de chegar ao poder. Alguns aderem a normas democráticas no começo de suas carreiras, só para depois abandoná-las.

O curioso nesse contexto é que na atualidade os extremistas e radicais, como também no passado, aliás, conhecendo a história da humanidade, as estratégias que usam não são mais à base da força e dos golpes violentos, salvo raras exceções, mas a estratégia é sempre através das urnas e/ou do voto. A sutilidade que perpassa despercebida no tecido social, mormente da classe média e os pobres, uma significativa maioria tem dificuldade em discernir esses potenciais perigos, pois a “erosão da democracia” é, para muitos, quase imperceptível. Pergunta-se o porquê dessa afirmação: há uma ausência de politização em quase todas as nações, salvo sempre as exceções, como na percepção da morte das democracias, pois normalmente são sutis e ironicamente, acontecem por via eleitoral.

O povo em geral, e principalmente as novas gerações precisam estar bem mais atentas e preparadas para esse jogo dúbio que transita nos bastidores da atual sociedade sem que seja notada e explícita a ideia dos que trazem no bojo de seus discursos a resolução milagrosa de todos os problemas da nação, mormente em nosso país. Daí infere-se que:
“...é importante saber se as elites políticas, e sobretudo, os Partidos Políticos, servem como filtros, {pois} os mesmos {devem} ser os guardiães da democracia”. (ibidem).
Partindo desse pressuposto e em outros aspectos, vê-se o quanto é importante às novas gerações serem preparadas para a “arte de pensar”. Por isso é que fica mais patente ainda, o quanto é necessária e importante na formação das consciências as disciplinas nas áreas humanas e afins. Tanto nas escolas de primeiro e secundo graus e, com especial destaque, nos cursos Universitários, a “filosofia” e a “sociologia”. Afinal, preparar apenas técnicos para as demandas do mercado e do capital financeiro é sepultar e atrofiar a nação para um sistema de pessoas “sem rosto e sem identidade”, tornando-as escravas de sistemas cruéis e castradores. A tecnologia por si só não edifica uma nação e muito menos acrescenta algo no seu desenvolvimento, mas escraviza e torna o povo “massa de manobra” e refém nas mãos de tecnocratas inescrupulosos.
É preciso ter ciência que no processo de edificar uma nação livre e soberana, o segredo sempre está na formação integral das novas gerações, onde a tecnologia, a ciência e pesquisa estejam em sintonia com as ciências humanas com igual peso e investimento ao se tratar de “verbas” para tais áreas. Se em muitas Universidades e educandários há desvios do dinheiro público, roubos e deslealdade, sem margem de dúvida, é preciso corrigir com rigor, mas nunca se justifica cortar num sentido geral. Afinal, há muitas instituições sérias e que contribuem com a nação, e, com o progresso e desenvolvimento, e, essas, devem ser preservadas e incentivadas. Do contrário significa que o objetivo dos cortes não são os desvios e, sim, ideologias obscuras que dão margem à metas discutíveis. É preciso dar incentivo às instituições de qualquer natureza que são idôneas. São atitudes de “gestores públicos” sábios, cívicos, sensatos e maduros e dignos de respeito.
Conhecer a história retrospectiva de muitas nações que passaram por momentos difíceis é fundamental para que com elas aprendamos a lidar com situações anômalas da “Coisa Pública”, em favor do bem comum. A virtude da prudência é necessária e importante para identificar as estratégias de políticos com perfis autocratas, esses “...devem ser mantidos fora, {embora} primeiro eles têm que ser identificados, {pois} não existe, infelizmente, nenhum sistema de alarme prévio totalmente seguro”. (ibidem)
É bom reforçar o que anteriormente afirmei, ou seja, conhecer a história retrospectiva de muitas nações é fundamental para que aprendamos a lidar com tais situações anômalas da política nacional que sempre transitam no meio de todos os Partidos. Há muitos exemplos a citar: Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Alberto Fujimori no Peru, Hugo Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e muitos outros líderes que após serem eleitos subverteram as instituições democráticas. Também, países como a Geórgia, Hungria, Nicarágua, Filipinas, Polônia, Rússia, Sri Lanka, Turquia e Ucrânia. Os cientistas políticos Levitzky e Ziblatt – 2018 p.16 no livro: “Como as democracias Morrem” nos apontam algo que deve nos fazer pensar, ou seja, “...a maior parte dos colapsos não foi causada por generais e soldados, mas pelos próprios governos eleitos”.


PROTEGER NOSSA DEMOCRACIA EXIGE MAIS DO QUE MEDO OU INDIGNAÇÃO

Como cidadão acredito que é necessário fazer que todos os concidadãos de nosso país pensem criticamente, tomando como base o que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt professores de Ciência Política na Universidade Harvard alertam, como algo de grande significado que também serve a nós. “Muitos esforços do governo para subverter a democracia são “legais”, no sentido de que são aprovados pelo legislativo ou aceitos pelos tribunais. Eles podem até mesmo ser retratados como esforços para aperfeiçoar a democracia – tornar o judiciário mais eficiente, combater a corrupção ou limpar o processo eleitoral. Os jornais continuam a ser publicados, mas são comprados ou intimidados e levados a se autocensurar. Os cidadãos continuam a criticar o governo, mas muitas vezes se veem envolvidos em problemas com impostos ou outras questões legais. Isso cria perplexidade e confusão nas pessoas. Elas não compreendem imediatamente o que está acontecendo. Muitos continuam a acreditar que estão vivendo sob uma democracia”. (ibidem apud Latinobarómetro – in Levitsky-Ziblatt – 2018 p.17).
Percebe-se que a atual situação do Brasil e da América Latina nos induz a verificar com cuidado crítico o caminho que se delineia na política atual. Precisa-se “aprender, sem dúvida, com erros cometidos por líderes democráticos do passado ao abrirem a porta para intenções autoritárias, mas também com as estratégias usadas por outras democracias para manter os extremistas fora do poder”.

De acordo com os cientistas políticos em pauta e acima citados “...os demagogos extremistas surgem de tempos em tempos em todas as sociedades, mesmo em democracias saudáveis, isso tanto da esquerda quanto da direita. Não nos iludamos. O importante e essencial para a democracia é ter líderes políticos e, especialmente, os Partidos Políticos que trabalhem para evitar que extremistas acumulem poder. É preciso mantê-los sempre fora das chapas eleitorais dos Partidos constituídos.

Outro aspecto a ser frisado é que: “...isolar extremistas populares exige coragem política. Porém, quando o medo, o oportunismo ou erros de cálculo levam Partidos estabelecidos a trazerem extremistas para as correntes dominantes a democracia está em perigo”. (ibidem p.18) Por quê?
Se um aspirante a ditador consegue chegar ao poder, a democracia enfrenta um segundo texto crucial: irá ele subverter as instituições democráticas {o que significa que} isoladamente as mesmas não são o bastante para conter autocratas eleitos. As constituições têm que ser defendidas pelos Partidos Políticos e cidadãos organizados, mas também por normas democráticas. Pergunta-se: Como é que os autocratas subvertem a democracia?
“...aparelhando os tribunais e outras agências neutras, usando-as como armas, comprando a mídia e o setor privado ( ou intimidando-os para que se calem) e reescrevendo as regras da política para mudar o mando do campo e virar o jogo contra os oponentes. O paradoxo trágico da via eleitoral para o autoritarismo é que os assassinos da democracia usam as próprias instituições da democracia – gradual, sutil e mesmo legalmente para matá-la. (fonte: ibidem p.19). (continua)
É bom pensar!