Economia humana em vista do futuro da doutrina social da Igreja

É bom frisar que o pensamento social católico tem necessidade de uma releitura e reavaliação da concepção da economia de livre mercado.

Gregory Grombacher sobre esta questão sinaliza o seguinte:
“...um problema crucial de muitas Escolas do Pensamento Social católico {...} tem uma incapacidade de integrar a lógica do mercado à lógica da moralidade”. (apud – in WOODS, Thomas E. Jr. – A Igreja e o Mercado – Uma defesa Católica da Economia de livre mercado – Vide Editorial – 2019 p.29). E segue:
“...se a Igreja pretende considerar tais questões com seriedade {...} é preciso que entenda a teoria econômica básica, pois existem realidades fundamentais do mercado que não podem ser ignoradas por motivo algum, nem mesmo por preocupações morais, pois ignorá-las pode redundar em danos ainda maiores tanto para os mecanismos de mercado como para a moralidade”.
O texto acima citado para muitos cristãos católicos que procuram sempre caminhar segundo as orientações da Igreja, num primeiro momento, pode implicar certo impacto no seu imaginário. No entanto, segundo Woods, o objetivo na verdade é fazer entender e lembrar que a própria Igreja já traz na sua história elementos que contribuíram com uma visão dinâmica de economia. Com base em vários autores economistas de um passado nem tão longínquo, percebe-se que no decurso do tempo emergiram várias escolas de economia. A saber: a Escola Germânica histórica, que tiveram um intenso conflito filosófico com os austríacos, pois rejeitavam a ideia de uma lei econômica universalmente válida que na prática significava a rejeição das relações da oferta e a procura. Além dessa a Escola Austríaca a de Chicago e outras. No entanto, a Escola mais compatível com os princípios do catolicismo é a Escola Austríaca, cujo fundador foi Carl Menger (1840-1921), professor de economia da Universidade de Viena. Ele escreveu a obra, “Princípios da Economia” que exerceu considerável influência na área.
Essa Escola passou a ser conhecida em economia como a “revolução marginal” e, por sua vez, fez importantes contribuições à metodologia da economia e à teoria da origem do dinheiro. Outro membro que se destacou nesta Escola foi Eugen Von Böhm-Bawek (1851-1914) tornando-se mais conhecido pela crítica que fez ao marxismo e suas obras sobre determinação de taxas de juros. O maior discípulo de Bawek foi Ludwig Von Mises (1881-1973), com significativas contribuições à disciplina econômica, que foi “...desde o campo da epistemologia ao da teoria monetária; da teoria dos ciclos econômicos ao problema do cálculo socialista”. Mises, depois migrou para Nova York em 1940 e adotou o mesmo sistema que havia desenvolvido na Áustria, ou seja, ao criando um seminário de estudos para alunos interessados.
Desta prática emergiram grandes e talentosos idealizadores da Escola Austríaca, dentre eles Murray N. Rothbard (1926-1995), George Reiman e Israel Kirzner. A mesma Escola teve uma espécie de ressurgimento a partir de 1974, quando o economista austríaco F. A. Hayek (1899-1992) colega de Mises, ganhou o Prêmio Nobel de economia, por seus estudos em relação à teoria dos ciclos econômicos. Woods, em toda a sua obra “A Igreja e o Mercado: Uma defesa Católica da Economia de Mercado”, procurar mostrar ao leitor por que e onde está fundamentada a economia de mercado como as bases históricas dentro da própria Igreja. Por isso afirma que “o catolicismo e boa parte da economia austríaca são claramente compatíveis”.
“...A história da Escola Austríaca tem início no século XV, quando os discípulos de São Tomás de Aquino, escrevendo e lecionando na Universidade de Salamanca, na Espanha, buscavam explicar toda a extensão da atuação humana e da organização social. Esses escolásticos tardios observaram a existência da lei econômica: inexoráveis forças de causa e efeito que operam ao modo das demais leis naturais. No decorrer de algumas gerações, eles descobriram e explicaram as leis da oferta e da procura, a causa da inflação, o funcionamento das taxas de câmbio e o caráter subjetivo do valor econômico – motivos pelos quais Joseph Schumpeter os proclama economistas de verdade”. (WOODS, Thomas E. Jr. – A Igreja e o Mercado: Uma defesa católica da economia de livre mercado. – tradução de Giovanna Louise Libralon – Campinas, SP. Vide Editorial, 2019 p.28).
Ora, é bom perceber que Woods, é enfático quando afirma que tal procedimento não se trata de uma forma de liberalismo. O objetivo dessas críticas é retratar o esforço da Igreja ao longo do tempo com as Encíclicas papais, pois foi dentro da Igreja Católica que, ao longo do último século, aconteceram as mais intensas discussões sobre economia e religião. E acrescenta Woods: “...importantes encíclicas papais posicionaram-se, de forma contundente e com veemência, contra o marxismo e o socialismo e a favor da propriedade privada”.


A PIEDADE RELIGIOSA NÃO SUBSTITUI A TÉCNICA
(Etiéne Gilson)

Partindo desse pressuposto é bom saber que “...na atuação humana não há constantes como na física”. Emergiu então a teoria de Ludwig Von Mises ao falar de uma ciência chamada “Praxiologia”. Quando se refere à economia, aborda dizendo que essa é “uma ciência mais ampla da ação humana”. Ela nasce de um axioma certamente incontestável: os seres humanos agem. Foi a partir dessa constatação básica que Mises, Murray N. Rothbard e outros estudiosos austríacos começaram a deduzir toda uma elaborada estrutura conceitual da verdade econômica.
A partir desse princípio praxiológico, Mises lança mão de argumentos Kantistas ao concluir que essa verdade sobre a ação humana é um exemplo do juízo sintético a priori de Kant, ou seja, é uma declaração feita antes da experiência, e ao mesmo tempo, substantiva e verdadeira. Por outro lado, o economista da mesma Escola, Rothbard, apresenta uma abordagem diferente quando afirma que: “...o fundamento epistemológico está em Aristóteles e São Tomás {...} fundado sobre uma generalização racional a partir do constante testemunho da experiência sensorial, entretanto, ambos concordavam que a “...tentativa de negar a existência da ação humana refutaria a si mesma, visto que essa negativa em si já constituiria uma ação. (fonte: Woods - ibidem p.36).
É por meio da análise da ação humana que se dá a atuação da praxiologia. Fazendo uso do raciocínio e análise de Woods, frisa a posição de Mises ao afirmar que: “...a ação humana é uma tentativa de substituir uma situação menos satisfatória por uma mais satisfatória”. E nesse aspecto Mises e sua equipe recorrem a São Tomás de Aquino em sua obra “Summa Contra Gentiles” para enfocar que “...ao agir, todo agente pretende alcançar um fim” e que “...todo agente age com vistas a um bem”. Aquino explica que a indiferença diante das alternativas não faz surgir uma ação. Chama à atenção, Tomás de Aquino, quando fala sobre a questão da indiferença:
“...aquele que olha com indiferença para uma grande variedade de coisas não tem, ao realizar uma delas, êxito maior que em outra. Daí se conclui que um agente eventualmente indiferente a alternativas não pode causar nenhum efeito, a menos que ele esteja determinado a acarretar certo efeito por algo. Portanto, ser-lhe-ia impossível agir”. (apud in Woods, 2019 p. 36).
Outro personagem dessa abordagem da ação humana é Gabriel Zanotti, quando declara: “...a metafísica e a antropologia proposta por São Tomás de Aquino são as bases filosóficas mais adequadas para construir o fundamento da descrição da ação humana”. (apud – ibidem in Woods). Ao fazer o estudo dos fundamentos tomistas da “praxiologia”, Zanotti explica que: “...a situação menos satisfatória é a situação de privação com relação àquilo por que o sujeito age, e a situação mais satisfatória é a conquista do bem – o que pressupõe, desse modo, uma passagem da potência ao ato”. (apud Zanotti: “Fundamentos Filosóficos y Epistemológicos de la Praxiologia”– in Woods, p.37- in notas de rodapé). Portanto é preciso frisar que:
“...a ação humana pressupõe escolha: o tempo do homem, seus recursos e, em verdade, até mesmo seu corpo são escassos, de forma que, ao agir, ele precisa escolher entre as alternativas de emprego de tais coisas. Ademais, o próprio ato da escolha pressupõe o conceito de custo, uma vez que, ao optar por fazer determinada coisa o homem deve renunciar às demais alternativas”. (continua).