A teoria da praxiologia de Ludwig Von Mises e a Economia Católica

Muitos economistas contemporâneos talvez se questionem sobre a aproximação da Escola Austríaca em questões de economia com os princípios da visão econômica do catolicismo. Dentro desse contexto revela-se uma visão unidimensional que permeia todo o imaginário vigente em nossa cultura.

Trata-se de um paradigma no mínimo curioso, pois sempre é abordada uma economia forjada sobre paradigmas fragmentados como se a vida fosse gavetas estanques. Ora esse paradigma é fruto de uma visão econômica liberal exacerbada e fruto da ideologia Iluminista que não consegue sequer esconder no seu bojo em perceber e internalizar a realidade como um todo.
A Escola Austríaca econômica de livre mercado frisa um imaginário antropológico importante e prescinde sempre de dar espaço para separar a ciência econômica do ser humano concreto. O economista Ludwig Van Mises neste aspecto bate de frente com a Escola de Chicago que elege a economia sob uma visão do positivismo lógico em seu agir, como a Escola Histórica Alemã e o pensamento econômico marxista e das sociais democracias. Por quê?
“...a abordagem econômica austríaca rejeita o cientificismo que se introduziu aos poucos em tantas disciplinas e na própria economia como um todo”. (WOODS, Thomas E. Jr. – A Igreja e o Mercado – Uma defesa Católica da Economia do Livre Mercado – VideEditorial – Tradução: Giovanna Louise Libralon – Campinas – SP – 2019 p.41).
É bom frisar que toda a cultura Ocidental extrapolou o conceito de razão ao torná-la absoluta. Observe: “...a razão é algo importante entre os seres humanos; no entanto, é preciso também mostrar os paradoxos e contradições quando tal assertiva é levada ao absoluto {...} é preciso perceber que se corre o risco de colocar em seu bojo algo impactante, seja do ponto de vista positivo ou negativo”. (SILVA, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro – Ed. Nova Harmonia – 2018 p.21).
Por outro lado: “...negar a grandeza da razão humana é ingenuidade, pois ela não está num nível de superioridade e acima do Criador”. (SILVA, Ari Antônio – Planeta Terra em crise: Urge repensar a história com Novos Paradigmas – Ed. Nova Harmonia – 2017 p.92).
Percebe-se a estranheza ao verificar que o pensamento da Escola Austríaca em termos de economia de mercado não seja mencionado no contexto Latino Americano. Segundo Woods, muitos mostram não conhecer o pensamento dos economistas austríacos. Os críticos do distributismo acusam tanto Rothbard quanto Ludwig Von Mises taxando-os de:
“...simplesmente liberais, seguindo os passos dos fisiocratas franceses e dos economistas políticos ingleses liberais. Eles eram contrários ao socialismo não porque este viola a lei natural, como ensina a verdadeira filosofia e confirma a Revelação, mas porque é menos eficiente na produção de riqueza material do que o livre mercado”. (op.cit.John Sharpe “Economia liberal versus católica – in Woods, 2019 p.42”).
Fica claro então, que Rothbard e Mises não têm nenhuma familiaridade com os seus acusadores de serem liberais e muito menos ligação com a Escola de Chicago que dá ênfase à “eficiência econômica”. Por outro lado, Mises destaca em seu pensamento econômico as “ineficiências do socialismo”. Ele afirma que a questão da eficiência não deixa de ser uma perversidade moral e pergunta: “...será que não sabem que a vida é mais que eficiência”? Contudo, e por outro ângulo, Mises concorda em dizer que a eficiência é um valor – ou seja, ela é tão-somente a arte de evitar o desperdício. Em contrapartida, na sua visão e seu posicionamento vai contra o socialismo porque tem uma visão que vai muito além da mera questão da eficiência da maneira como é entendida essa palavra.


QUAL O FUNDAMENTO DA CRÍTICA DE MISES À ECONOMIA SOCIALISTA?

Ludwig Von Mises procura demonstrar que a estatização dos meios de produção torna a economia inviável no seu dinamismo, pois: “...os preços são resultados de uma interação contínua entre compradores e vendedores, na qual eles trocam suas respectivas posses, se o Estado detém todos os meios da produção, esse tipo de troca não acontece e, portanto, o processo que dá origem aos preços no sistema capitalista simplesmente não pode existir”. (WOODS, ibidem p.45). E segue:
“...sem a propriedade privada dos meios de produção, não pode haver preços para bens de capital e, sem tais preços, a equipe socialista de planejamento terá literalmente de tatear no escuro ao fazer sua alocação de capital”.
Seguindo a lógica, Mises procura demonstrar: “...a impossibilidade de realizar os cálculos aritméticos de lucros e prejuízos no socialismo puro {...} pois inviabiliza a realização das estimativas empresariais necessárias para dar significado ao lucro e ao prejuízo e, assim, alocar racionalmente os fatores da produção”. (op.cit Murray N. Rothbard no livro: O fim do socialismo e um reexame do debate sobre o cálculo. (cf.notas de rodapé, in Woods p.45).
Partindo desse pressuposto é interessante a observação de Rothbard quando afirma que: “...não pode ser desempenhado a contento pela equipe socialista de planejamento, por causa de inexistência de um mercado nos meios de produção. {E conclui:} Sem esse mercado, não há autênticos preços em dinheiro, e, portanto, o empreendedor não tem condições de fazer cálculos e avaliações em termos monetários cardinais”. (op.cit in Woods, ibidem). Em outras palavras pode-se dizer que a equipe socialista de planejamento não possui sequer parâmetros para optar de maneira racional entre as formas quase ilimitadas de empregar os diversos fatores de produção à sua disposição, ou seja, não conseguem saber qual deles é mais eficiente.
Woods ao comentar a questão dos preços na visão de Mises diz: “...sem um sistema de preços, não há como saber se um recurso específico é de extrema urgência aqui ou ali ou a utilização de um recurso na indústria A constitua um prejuízo líquido para a economia por seu uso ser mais eficiente e racional na indústria B. E continua: “...ademais, a indústria B não tem condições de precificar recursos de modo a afastá-lo de setores em que sua necessidade é menos urgente. E conclui que “...se esse problema até mesmo no caso de processos produtivos relativamente simples, imagine uma economia inteira gerida nesses moldes”. (fonte: ibidem -Woods, 2019 p.46).
De acordo com Woods, o grande feito de Mises foi ter uma intuição que transcendia os argumentos tradicionais contra o socialismo, pois um sistema organizado de acordo com o slogan de Marx: “Dê a cada um conforme sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”, nesse sistema ele argumenta que um trabalhador particularmente habilidoso não colhe nenhum benefício específico de sua maior produtividade: ele é tão-somente sobrecarregado com uma cota maior de produção no futuro”.
Ludwig Van Mises é enfático ao afirmar que: ”...em termos filosóficos, as leis econômicas descobertas por meio da praxiologia, estão fortemente relacionadas com o realismo filosófico e a fé católica”. (WOODS, 2019, p.55). Por outro lado, Rothbard “...dispensa à lei e à economia {mostrando} que não tem nada a ver com eficiência, mas sim com justiça”, {...}“...a oposição de Rothbard ao socialismo também se baseava em motivos morais. Mises em certa ocasião escreveu: “...um economista “jamais será benquisto por autocratas e demagogos {...} ele será sempre {considerado} um agitador. É interessante analisar o que Rothbard frisa sobre a questão da política econômica:
“...não podemos decidir sobre políticas públicas, leis de ilícitos civis, direitos ou responsabilidades com base em conceitos de eficiência e minimização de custos. Porém, se não com base em custos e eficiência, então, com base em que? A resposta é que apenas princípios éticos podem servir de critério para nossas decisões. A eficiência jamais pode servir de base para a ética; ao contrário, a ética deve ser o paradigma e a pedra de toque para quaisquer consideração de eficiência. A ética é o principal. Na seara do direito e das políticas públicas {...} a principal consideração ética é o conceito que “não ousa dizer seu nome”: - o conceito de justiça”. (op.cit Rothbard – in Woods, 2019 p.54). (continua).