O Sínodo da Amazônia

O artigo desta semana trata-se de um assunto que ultimamente tem sido veiculado em diversos meios de comunicação: O “Sínodo da Igreja Católica” sobre a Amazônia.

Algumas pessoas têm me perguntado sobre o assunto e o motivo porque a Igreja tem se voltado especificamente sobre a Amazônia.

Não costumo falar sobre qualquer assunto sem antes ler, estudar e analisar com muito cuidado o tema proposto. Sempre procuro conhecer a fonte e, se, a mesma é confiável.
No entanto, neste momento histórico, que antecede o “Sínodo dos Bispos em Roma” sobre a Amazônia, percebo ânimos alterados de vários setores tanto da sociedade civil, militar quanto religiosa. Já estou de posse do referido “Documento Preparatório” para este Sínodo que acontecerá no próximo mês de outubro. A partir desse pressuposto decidi então, expor as principais linhas do referido Documento, solicitado por muitos que acompanham meus escritos. Sem dúvida, sempre que a Igreja Católica trata de assuntos que implicam a Conjuntura Política socioeconômica e religiosa é normal que haja reações de muitos matizes. Penso que isso é positivo, embora a Igreja jamais tome alguma bandeira de qualquer Partido Político, pois ela tem convicção que sua missão evangelizadora está além de questões meramente políticas socioeconômicas.

A missão de evangelizar segundo a fé cristã deve ser algo que atinja todas as culturas. Esse processo chama-se “enculturação”, embora, e, sobretudo sem nunca omitir e prescindir da “essência do anúncio”: Cristo como centro de tudo.

Por outro lado, é perceptível que nessa tarefa missionária também ocorre de forma paralela algo que nem sempre é positiva, pois sempre há em jogo grupos, pessoas tanto dentro como fora da Igreja com interesses escusos e que não querem mudanças, talvez movidos por hermenêuticas econômicas e de poder, e, por esse e outros motivos estão defendendo o “status quo” de uma sociedade e membros eclesiais com perfil egoístas e desvinculados de sua missão para continuar a cultivar uma Igreja sedentária, acomodada e não em “saída”. É lamentável.

Em contrapartida a Igreja deve se adequar aos novos tempos e ao grito das diversas culturas para não incorrer em erros já cometidos no passado. A Igreja aprendeu a lição, talvez nem todos, pois é preciso evangelizar e respeitar civilizações, culturas diferentes com suas riquezas, desde que não prescindam da “essência do evangelho”: O amor de Jesus pela humanidade. A lição da Igreja aprendida ao longo do tempo, fez com que há mais de cinquenta anos atrás acontecesse o Concílio Vaticano II. O mesmo questionou a imposição de viver a fé segundo, por exemplo, culturas dominantes, que num passado distante impôs a fé a outros povos e culturas não respeitando a cultura, e, muitas vezes confundindo a mensagem de Jesus com uma cultura determinada. Isso tem destruído ricas culturas e civilizações. O Sínodo da Amazônia é uma tentativa de inculturar a fé com os povos indígenas, negros, ribeirinhos e outros que são excluídos do processo de uma fé que respeite a cultura de cada povo indígena, aliás, que constituem muitas nações étnicas. Hoje a Igreja tem consciência que antes de evangelizar qualquer povo necessita conhecê-lo através do estudo de sua identidade, analisá-lo para após isso cumprir a missão evangelizadora sem agredir as culturas autóctones e isso é sabedoria.
Partindo dessa introdução convido o leitor a ver quais as linhas que o “Documento Preparatório” chamado: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral”. Este o tema para o Sínodo.
O subtítulo do documento é: Rede Eclesial Pan-Amazônica – Refam Brasil.

O DOCUMENTO PREPARATÓRIO É DIVIDIDO EM TRÊS CAPÍTULOS

Preâmbulo: Dá uma visão geral da Amazônia e o método de análise é: VER, JULGAR E AGIR.

O capítulo primeiro trata de uma análise sociológica, ou seja, retrata a diversidade sociocultural dos povos indígenas, a memória histórica da Igreja, a justiça e o direito destes povos.
No segundo aspecto procura discernir essa realidade para uma conversão Pastoral e Ecológica. Nesse aparece é abordado a dimensão bíblico-teológica, social, ecológica, sacramental e a dimensão eclesial-missionária.
No terceiro capítulo trata dos novos caminhos para uma Igreja com o rosto amazônico, a dimensão profética e os ministérios.

No primeiro capítulo mostra:
O crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia. Consequências: danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural. Assim forçando um desenvolvimento urbano não seja “integral” nem “inclusivo” de toda a bacia Amazônica. Como resposta a essa situação: Há um crescimento das capacidades de organização e um avanço da sociedade civil, com atenção particular às problemáticas ambientais. No campo das relações sociais, apesar das limitações, a Igreja Católica desenvolveu em geral um trabalho significativo, fortalecendo seus próprios caminhos a partir de sua presença encarnada e de sua criatividade pastoral e social.
- São nove países que compõem a Pan-Amazônia, com três milhões indígenas, constituída de cerca de 390 povos e nacionalidades diferentes. (fonte: Conselho Indigenista Missionário do Brasil/CIMI e outras entre 110 e 130 “povos livres”; ou “Povos Indígenas em situação de Isolamento Voluntário”. Cada um desses povos representa uma identidade cultural particular, uma riqueza histórica específica e um modo próprio de ver o mundo.

- Além das ameaças que emergem do interior de suas próprias culturas, os povos indígenas viveram desde os primeiros contatos com os colonizadores, forte ameaças externas. (op.cit LS, DAp.90). A partir dessa situação os povos indígenas e comunidades amazônicas se organizam, lutam em defesa de suas vidas e culturas, seus territórios e direitos, da vida do universo e de toda a criação. Segundo o Documento os “...os povos indígenas em situação de Isolamento Voluntário”, que não têm instrumentos de diálogo e negociação com os atores externos que invadem seus territórios.

- Alguns “não indígenas” têm dificuldade de compreender a alteridade indígena e, muitas vezes, não respeitam a diferença do outro.

- Houve falta de respeito aos indígenas como também aos afro-americanos, {pior} e a sociedade tende a menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. “A situação social está marcada pela exclusão e a pobreza”. (op.cit DAp 89).
- Nos últimos anos, os povos indígenas começaram a escrever sua própria história, suas culturas, costumes, tradições e saberes. Escrevem sobre o ensino que receberam da parte dos seus antepassados, pais e avós que são memórias pessoais e coletivas. Eles hoje conseguem manter a identidade sem se isolar da sociedade que o rodeiam e com as quais interagem, embora nem todos. Muitos hoje buscam fortalecer a história de seus povos, para orientar a luta pela autonomia e autodeterminação. Nesses contextos a Igreja Católica está presente e comprometida com eles.
- Ainda hoje existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas. Tais resquícios debilitam as estruturas sociais indígenas e permitem o desprezo de seus saberes intelectuais e de seus meios de expressão.

- O que assusta é que até hoje, 500 anos depois da conquista e depois de mais de 400 anos de missão e evangelização organizada e depois de 200 anos de independência dos países que configuram a Pan-Amazônia, continua de um novo colonialismo feroz com a “máscara do progresso”. O Documento ainda diz que “...a Igreja também aprendeu, que, nesse território, habitado por mais de dez mil anos por uma grande diversidade de povos, suas culturas se construíram com o meio ambiente.
As culturas pré-colombianas ofereceram ao cristianismo ibérico que acompanhavam os conquistadores múltiplas pontes e conexões possíveis “...como abertura à ação de Deus, o sentido da gratidão pelos frutos da terra, o caráter sagrado da vida humana e a valorização da família, o sentido da solidariedade e a corresponsabilidade no trabalho comum, importância do culto, a crença em uma vida ultra terrena e tantos outros valores”. (op.cit DSD 17).
Outro aspecto a ser frisado é a palavra do Papa Francisco quando diz: “...Acho que o problema essencial é como reconciliar o direito ao desenvolvimento, inclusive social e cultural, com a proteção das características próprias dos indígenas e dos seus territórios {...} nesse sentido, deveria prevalecer sempre o direito ao consenso prévio e informado”. (Fr.FPI). A situação do direito ao território dos indígenas é a falta de regularização de terras e do reconhecimento de sua propriedade ancestral e coletiva. Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental. Para a Igreja, esse compromisso é um imperativo moral coerente com o enfoque da “ecologia integral” de Laudato Sí. (LS, cap. IV).
É importante salientar ainda nesse primeiro capítulo do “Documento Preparatório” é a questão da espiritualidade. “...Para os povos indígenas da Amazônia, o “bem-viver” existe quando estão em comunhão com as outras pessoas, com o mundo, com os seres de seu entorno e com o Criador {...} vivem no interior da casa que Deus criou e lhes deu como presente: a Terra. Suas diversas espiritualidades e crenças os motivam a viver em comunhão com a terra, a água, as árvores, os animais, com o dia e a noite. Os sábios anciãos, de acordo com as diferentes culturas chamados pajé, curandeiro, mestre, wayanga ou xamã, promovem a harmonia das pessoas entre si e com o cosmo. Eles cuidam da Casa Comum.

Os indígenas amazônicos cristãos entendem a proposta do bem-viver como vida plena no horizonte da colaboração na Criação do Reino de Deus. Esse bem-viver será alcançado somente quando se realizar o projeto comunitário em defesa da vida, do mundo e de todos os seres vivos.
Esse sonho começa a ser construído dentro da família, que é a primeira comunidade da nossa existência. “A família é e sempre foi a instituição social que mais contribuiu para manter vivas as {...} culturas face aos diferentes imperialismos, a família dos povos indígenas foi a melhor defesa da vida”. (op. Cit. Fr. PM)
Se por um lado, temos tantas coisas boas nessa diversidade cultural e religiosa na Amazônia, por outro, existem também algumas seitas que, motivadas por interesses alheios ao território e a seus habitantes, nem sempre favorecem uma ecologia integral.
O texto aqui exposto não é de minha autoria e, sim, uma espécie de síntese do primeiro capítulo do Documento do Sínodo da Amazônia. Ainda esta semana é possível que vá expor resumidamente o segundo capítulo. (continua)