O Sínodo da Amazônia II

Conforme prometido no artigo próximo passado, fiquei nesta semana no compromisso de expor as grandes linhas do “Documento Preparatório” deste evento da Igreja Católica, sobre o segundo capítulo do mesmo que irá acontecer agora no mês de outubro.

O segundo capítulo nos remete a refletir para uma “Conversão Pastoral e Ecológica”. De acordo com o método exposto no preâmbulo, esse é o momento do “julgar”. O texto procura num segundo momento dar uma fundamentação “Bíblica-teológica” ao mostrar a convicção de que o que subjaz a esse Sínodo é o “...ide anunciar a todos os povos” (Mt 28, 19-20). No entanto, é bom frisar de que esse mandato não deve ser feito de qualquer maneira e, muito menos, pisoteando tudo o que esteja pela frente, até porque na Criação do homem e da mulher foi para serem felizes (Gn 1,27), e, também nos deu a tarefa de administrar a Criação e cuidá-la. A Amazônia e, não somente ela é parte desta obra de Deus, e neste momento histórico é preciso cuidar da “Casa Comum” que se trata da Terra.
Após o Concílio Vaticano II “...os bispos da América Latina e do Caribe reconhecem “a natureza como herança gratuita” e, como profetas da vida {...} assumem seu compromisso de proteger a “Casa Comum” da Criação”. (op.cit Documento de Aparecida, 471)
Ao ler e meditar esse capítulo percebe-se a profundidade e a seriedade com que o “Sínodo da Amazônia” está fundamentado. Os relatos bíblicos dos textos citados no documento são afirmações teológicas portadoras de valores universais; sobretudo {ao mostrar} que cada realidade criada existe para a vida e tudo o que conduz à morte se opõe à vontade divina. Por outro lado, “...Deus estabelece uma relação de comunhão com o ser humano “criado à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27: e lhe confia a proteção da Criação (Gn 1, 28; 2, 15: “Dar graças pelo dom da criação, reflexo de sabedoria e da beleza do “Logos” Criador {...} que encarregou ao ser humano sua obra criadora para que cultivasse e a guardasse (Gn,2,15). (op.cit DA 470).
No término da primeira parte aborda finalizando, “...contra a harmonia da relação entre Deus, o ser humano e o cosmo, se põe a desarmonia da desobediência e do pecado (Gn 3,1-7), que produz o medo (Gn 3,8-10) e a rejeição do outro (Gn 3,12), a maldição da terra (Gn 3,17) a exclusão do Jardim (Gn 3, 23-24), até chegar à experiência do fratricídio” (Gn 4, 1-16).
Caro leitor percebe-se nitidamente que a cultura contemporânea perdeu o sentido bíblico da Criação e, assim se desvinculou da “Razão Criadora Universal do bem” distorcendo a missão de administrá-la e passou a ter um imaginário de que é “dona e senhora de tudo”. Em Gênesis 1, 27, ao criar o homem à sua imagem e semelhança lhe deu uma tarefa. Também por ser sua imagem e semelhança deu a inteligência, a vontade e a liberdade. Em outro artigo que já tenho publicado com o título: O progresso e o desenvolvimento tecnológico tem razão de ser e apontei o fundamento teológico dos mesmos (Gn 1,28ss).
Por outro lado, a pós-modernidade rompeu com a “Razão Criadora Universal do bem” =Deus, no entanto o ser humano quer decidir seu próprio destino ao desvincular-se da Razão Primeira Universal, e, isso tem um preço. É preciso retomar, pois vivendo nesse relativismo, a própria razão humana se tornou apenas funcional, a consciência se relativizou e o homem e a mulher ousaram a ser “verdade última”. Esse é o pecado dessa cultura relativista, egoísta e voltada para si mesma. Quando as ideologias passam a se considerar verdades últimas, a consequência para o homem e a mulher é o encontro com autodestruição de si e da própria Criação. A ideologia do Iluminismo tem acentuado o individualismo. Infelizmente tudo no hoje da história funciona através de “cifrões”. Ora, desse imaginário incrustado no tecido social contemporâneo para a barbárie é um passo.
A mística e a espiritualidade crística se reduziram às cinzas. Tudo gira em torno do “dinheiro” e do “poder” tanto a realidade humana como o meio ambiente. Há um desenvolvimento patológico onde ninguém mais se entende. A ganância pelo ter e pela riqueza cega o homem tem um alto preço, pois “...leva erguer muros, cria divisões e discriminações”. (Papa Francisco)
Nos relatos bíblicos testemunham que a Criação ferida é que estão plantados o “embrião” da promessa e a semente da esperança, porque Deus não abandona a obra de suas mãos {...} renova o propósito de “fazer uma aliança” entre o ser humano e a Terra, renovando através do dom da Torá a beleza da Criação. Tudo isso culmina na pessoa e na missão de Jesus {pois Ele} mostra compaixão pela humanidade e pela sua fragilidade. (Mt 9, 35-36).
Na Carta Encíclica Laudato SI’ nº12, Francisco, papa é feliz quando diz: “...o mundo criado nos convida a louvar a beleza e a harmonia das criaturas e do Criador”.
O Catecismo da Igreja Católica nº339 afirma de maneira poética o seguinte: Cada criatura possui sua bondade e sua perfeição próprias; e em seu próprio ser reflete “um raio de sabedoria e da bondade infinitas de Deus”. E segue: “O solo, a água {...} tudo é carícia de Deus, canto divino, cujas letras estão conformadas pela “multidão das criaturas presentes no universo”(LS’84), assim como se expressou São João Paulo II na sua (Catequese, 30/01/2000).
Em todo o segundo capítulo o Documento procura sempre dar uma fundamentação bíblica teológica. É a partir desse fundamento que o documento nos induz a ver e julgar a nossa atitude como cristãos, e, alicerçados no mistério pascal a maneira de conduzirmos a evangelização, ou seja, “...que esta tarefa evangelizadora {...} deve receber e transmitir o amor de Deus e {que} começa a transmitir o amor de Deus com o desejo e a procura {como}o cuidado dos outros”. (op.cit EG 178). Dentro e a partir desse pressuposto vem então a dimensão social, ecológica e a dimensão sacramental principalmente, tendo como centro a “Eucaristia” e os demais sacramentos, focando finalmente a “dimensão eclesial-missionária”, ou seja, a prática. Entretanto é bom frisar de que todo o Documento foca sempre a dimensão “Cristológica”, embora alguns não queiram ver sob esse ângulo, mas transmutam para questões periféricas, ideológicas, políticas e econômicas. É lamentável!
Por outro lado, sempre procuro frisar que um Sínodo tem a finalidade de esclarecer dúvidas e possíveis erros de interpretação, como também os desmascarar interesses duvidosos e maldosos. É preciso dialogar, debater, agregar e agir com humildade e com muita oração para o discernimento. É bom pensar!

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