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/ Cultura
Ovídio Hillebrand
Texto publicado em 10/01/2012* - 15:45, terça-feira.por Ovídio Hillebrand
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 4 meses!
Seca e enchentes 135 anos atrás
O texto abaixo , “Caros Amigos”, é de uma reunião que os imigrantes boêmios – do Reino da Boêmia – Áustria- na localidade de Linha Brasil e arredores fizeram 25 anos após terem vindo ao Brasil, lá pelos anos 1870. A transcrição e tradução é de um texto em letra “Sütterlin” (gótica) (vide Google...). O texto é do arquivo histórico do Museu Alberto Hillebrand, registrado no Instituto Brasileiro de Museus.

Na análise dos assuntos tratados pelos imigrantes nesta reunião, conclui-se claramente a finalidade e importância que o Ministério da Cultura dá aos museus. Além da memória histórica guardada, consta a ausência dos poderes públicos, e dados climáticos e ecológicos: falta de estradas e pontes, chuva e seca, desequilíbrio ecológico, com super população de ratos silvestres.

“Caros amigos!
O motivo de estarmos hoje aqui reunidos é de cada um de nós bem conhecido. Hoje, säo exatamente 25 anos que pusemos em prática a decisäo tomada naquele tempo, de dizer um Adeus à nossa terra natal, onde nascemos e fomos criados, afim de, numa terra distante e desconhecida, fundarmos um novo lar.

25 anos! Um longo tempo! Especialmente quando a gente precisa aguardar por este tempo, como nós, naquele tempo, quando todos juntos, fomos ao encontro, de tudo que aqui deveríamos encontrar, mas que tudo seria diferente, clima, os habitantes, a língua, costumes, hábitos e maneiras de viver. Era ao mesmo tempo uma nostálgica espera, alcançar quanto antes nosso destino, para satisfazer nossa bem justificada curiosidade. Sim, algumas coisas, - poderíamos dizer, tudo – era diferente da imagem que havíamos feito da topografia e das outras situações daqui. Como alguns aqui, nos primeiros tempos, pensaram com saudades e nostalgia nas situações anteriores, e imaginaram-se de novo de volta lá, entre conhecidos, e outras situações, como pais, irmãos, parentes, amigos e conhecidos, onde cresceram e se sentiram em casa. Claro que na Europa a vida tem para aquele que näo é täo abençoado pela sorte, também seus muitos lados sombrios; mas em tais situações, como naquele tempo aqui, a gente vê sempre só os lados bons e iluminados. Para o desconforto e as pressões, fecham-se os olhos; e assim, um e outro, não conseguiu se conter, e mesmo com grandes dificuldades, e apesar de ter seu desejo realizado de emigrar, optou de novo viver em sua amada terra natal entre parentes e conhecidos.

Aos mais tardios imigrados aqui na segunda metade dos anos 70, também näo estava tudo um berço de rosas, pois, em relação com as possibilidades daqui, estava em más condições. Dois anos antes da nossa chegada aqui, houve a grande seca; e depois, quando era para ser feita uma colheita, veio a praga dos ratos que consumiram tudo.

As estradas de terra daquele tempo, devido a muita chuva o ano todo, rios sem pontes, e a pobreza entre os habitantes locais, tudo isto realmente não era para despertar uma esperança feliz por um futuro melhor. E de 50, os 25 anos foram tão fáceis, para ninguém decidir, quanto antes dar as costas ao Brasil.

Nós, porém, que até agora, após meio século ainda estamos aqui, mesmo que às vezes, atacados sorrateiramente por um melancólico capricho, que popularmente chamamos de saudades, nós tratamos as situações mais positivamente.

Realmente muito se modificou desde aquele tempo; mas, o principal é que a gente se acostumou ao ambiente e às outras situações. Há bastante gente que veio para cá e se sente realmente aquerenciado e satisfeito; até mesmo já economizaram alguns centavos; mas, gente de uma região industrial que sempre se mete em todas as direções, e para onde mais gente vem para o progresso, este tipo não se encontrará aqui entre nós que dirá "aqui está bom“!

Mas, a saudade! Nas condições daquele tempo não foi surpresa nenhuma se alguém ficava um tanto melancólico; especialmente em determinadas épocas, como Páscoa, quando a gente pensa: hoje é Páscoa! Lá na Boêmia, tudo começa a brotar, a ficar verde e florescer; toda naturesa, assim como também o homem se sente tocado para uma nova vida; e o que a tudo dá o verdadeiro estímulo e uma certa elevada e festiva disposição, é o múltiplo e belo cantar dos pássaros nos jardins, campos e florestas; quem poderia esquecer tão lindo tempo? E aqui? Sim; poderia-se dizer: um eterno sempre igual...(monotonia). E assim temos as festas de Pentecostes, Natal, e Ano Novo! Mesmo se o inverno em si mesmo nem sempre é tão amigável para a classe mais pobre, ele tem suas belezas e alegrias típicas. E quando, estas recordações destes tempos, Natal, Ano Novo, se perderiam da memória?!

Não só que com tudo isto, também nas pessoas mais pobres se faça sentir uma alegre e sábia disposição, mas que também as pessoas se conectem (se liguem) mais e procurem mais amizades.

Sim! 25 anos! Quão curto nos parece este tempo, quando ele passou! Quantas vezes se pensou: como será daqui a 5 ou 10 anos? Iremos sentir-nos melhor? Será que o todo se terá mudado para melhor, ou como será daqui a 20 anos? E quem sobreviverá? Sim, daqueles que juntos fizemos a viagem de lá para cá, quantos já encetaram uma segunda, mas uma mais longa viajem, da qual näo tem mais volta? (Levantemo-nos em sua homenagem!)

O primeiro foi Josef Ullmann; depois Heinrich Albert e esposa, Franz Wieden, Josef Hübner, e o velho Ullmann. Estes seriam os que me lembro neste momento; outros conhecidos, de outras localidades (von drüben...Böhmen): Weidlich de Langenau; os dois Schäfer de Falkenau; Lönert de Kreibitz; Franz Bienart de Langenau; Franz Zitznov de Langenau; Höstler de Langenau. Estes foram os que sabemos, até o momento, que alcançaram o seu destino, o qual, segundo as eternas leis da natureza, todos nós seguiremos.

Então, sem mais, surge-nos a pergunta: Temos melhorado depois de termos vindo para cá? Ou deveríamos arrepender-nos?

Esta pergunta é difícil; até mesmo não respondível, pois ninguém pode realmente medir, supor ou adivinhar como seria com aquele hoje, se tivesse ficado onde estava! Cada um é seu próprio escultor, (ferreiro), diz um provérbio; porém, isto acontece só em casos raros, pois a maioria teria se esforçado, e estruturado da melhor maneira sua situação e condições conforme suas possibilidades.

De maneira geral é preciso reconhecer que, quem quer trabalhar, aqui consegue viver sem miséria; para os olhos e o espírito, porém, infelizmente tem tanto quanto nada. ( visível e palpável, parece não ter nada... O bem-estar, as vezes não é visível, palpável.) Nossos descendentes, naturalmente, vão sentir só pouca falta disto; aí se confirma o ditado inteiramente: " O que não se conhece, não se esquece!“ E assim o pouco da vida permanece praticamente igual.

Neste momento gostaria ainda manifestar meu desejo para que a gente se encontre de novo, relativamente bem dispostos nos próximos 10 anos ( os 15 anos vamos deixar de lado por ora).

Como o nosso prezado amigo Gustav Knie (Kny ? ), o mais idoso entre nós, não deixou por outra, e exigiu que esta reuniäo fosse na casa dele, onde fomos tão bem servidos, peço-vos, caros amigos, saudar nosso anfitrião, com esposa e família, com um triplo "Hoch“!!! ("Viva!“ " Saúde!“) "

Possível autor Franz Oppitz. (concluído por semelhança da caligrafia de outros textos).
Transcrição do original e tradução, Ovidio Hillebrand, novembro 2010.
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