Num belo dia de verão, quando tinha 26 anos, tive o seguinte diálogo com meus pais, junto do almoço:
- Vou sair. Vou pegar minha mochila e vou embora. Aqui está muito difícil. Prefiro viver sozinho, mas num outro país...
- Puxa, meu filho, vais nos deixar? - Indaga meu pai.
- Sim. Resolvi. E vou...
- Pensaste bem? - Indaga minha mãe.
- Sim. Resolvi. Está bem pensado. E é amanhã...
- Amanhã. Pela manhã. Já tenho até a passagem. Se vocês acharem interessante, e eu gostaria que achassem, poderiam me acompanhar até o aeroporto.
- Certo. Estaremos lá. - Diz meu pai.
E assim aconteceu.
Fui viver a vida.
Num país longínquo.
Fui “encarar” o mundo...
O tempo passou.
As dificuldades apareceram, mas driblei-as...
Fui trabalhar num lugar onde não gostava muito, mas...
Logo saí e recebi uma oportunidade de um trabalho noturno. Sim, trabalho noturno...
Enfrentei, pois era diferente para mim, mas consegui vencer as “agruras”. Tinha que dormir durante o dia. Foi difícil. Muito difícil, mas consegui enfrentar mais essa dificuldade. Mas o que não é dificultoso não tem graça... Não é verdade? Ou pensam o contrário?
O tempo foi passando...
Ganhei e poupei algum dinheiro.
Até que...
- Pai, aqui é o Marcelo.
- Oi filho, tá bem?
- Sim. Tenho muita saudade, mas tenho uma grande novidade a falar.
- O que? Fala logo...
- Gostariam de me visitar?
- Claro que sim. Mas como? Aqui continua muito difícil. As coisas continuam, realmente, muito difíceis. Não mudaram desde que você partiu. Não temos o dinheiro suficiente para realizar “tal proeza”. A proeza de visitar você.
- Estou perguntando, novamente, se gostariam de me visitar.
- Claro, volto a dizer. Claro... Mas a realidade é aquela...
- Bem, então está na “mão”... Consegui, com meu trabalho poupar e estou convidando um de vocês para passar alguns dias comigo. Infelizmente, no momento só posso convidar um de vocês... Tudo por minha conta: passagem e estada.
- O quê? Estás brincando?
- Não estou brincando. Estou falando sério. Bem sério... É um convite de um filho a seus pais. Pena que não posso trazer vocês dois. Seria o máximo...
- Quando?
- Quando vocês acharem melhor... Vocês vão se escolher. Talvez até no “par ou impar”, quem sabe?
Todos riram e choraram...
O tempo novamente passou.
Entre o pai e a mãe, ela foi a escolhida. Não sei como...
Marcada a data, chegou a passagem e Fernanda embarcou.
Lépida e faceira, mas um pouco nervosa. Nunca tinha andado de avião e nem saído do seu país, mesmo de ônibus...
Foi uma festa na chegada.
Esperei junto com meus amigos no Aeroporto. Queria apresentar a todos minha mãe... Foi uma festa. Alegria e choros, mas isso faz parte de todas as festas...
Passou vários dias comigo. Conhecemos tudo, ou quase tudo...
Foi um “programaço”... assim me expressei junto a todos os meus conhecidos.
Alegria geral...
Até que:
Chegou o dia dos “finalmente”... O dia da despedida.
Aí foi só tristeza!
Mas tudo é assim...
- Obrigado meu filho!
- É a minha obrigação. É o pouco que posso ofertar ao muito que vocês me proporcionaram...
- Até breve!
- Sim, até breve...
...............
Fernanda voltou.
Mais uma festa no aeroporto.
Agora o da casa dela... Aeroporto da cidade dela. Aeroporto do país dela!
Muitas fotos. Ela mostrou muitas fotos do filho. Da casa. Dos amigos. Dos passeios. Muitas fotos...
Muito alegre.
Viu o filho.
Agora a realidade. Longe novamente, mas agradecida pelo presente ofertado pelo dileto filho. Que presente!
Muitas fotos...
É a vida...
Palavra com quatro letras.
É a vida!
Nascemos para o mundo...
Não nascemos para nós!
Nascemos para o mundo...
Mundo globalizado.
Mundo longínquo!
Mundo da “gente”!
E que “gente”... E essa “gente” somos nós.
É o nosso mundo...