Caminhando.
Entregando os folders de publicidade.
Muitos aceitam.
Outros só fazem o sinal com o dedo. “Negativo”. Ela agradece...
Lá segue ela novamente até o sinal a procura dos carros.
Precisa ela no final do dia estar de mãos “abanando” mostrando o resultado do seu trabalho. Precisa levar para casa o resultado do seu trabalho.
O trabalho de ter entregue a informação do seu cliente aos motoristas.
Uns lêem. Outros rasgam. Outros guardam, mas ela cumpriu com o seu dever.
É o trabalho de cada um...
Com chuva.
Com sol.
De dia.
De noite.
Lá está ela a distribuir a publicidade.
Muitas bem feita. Outras de um mau gosto... Mas lá está ela a distribuir... Ela não escolheu!
Todos os dias a cumprir com seu dever.
Muitas vezes solitária.
Solitária como um artista.
Solitária como um escritor.
Solitária a percorrer os veículos que estacionam nos sinais de maior movimento.
Outros dias o que se nota: menininhos que mal sabem dar os primeiros passos já estão ali nos cruzamentos pedindo “o trocadinho” ou “ajudando” a menininha a distribuir os folders. Junto aos “pezinhos” recém formados um “chinelinho” de dedo. Sorrindo e correndo. Feliz quando é fornecido a ele o trocadinho...
Isso é uma realidade. Dura realidade!
Não é uma realidade de trabalho.
É a realidade social...
O que fazer?
Dar o trocadinho? Ou entregar uma bala? Ou ainda entregar a ele um “pedacinho” de pão...
Fico a pensar...
Trocadinho? É didático entregar trocadinho a um menininho? O que irá fazer com o dinheirinho?
E com o pãozinho? Será que irá comer ou dividir com o irmãozinho que ainda não tem o “chinelinho” de dedo para estar ali no cruzamento e realizar o seu “trabalhinho”?
Realidade!
Realidade solitária
Solidão do artista.
Solidão do escritor.
Solidão do “menininho” triste com o sorriso lindo... Será que não está atrás de uma bola de futebol? Será que não está pensando em ser um Ronaldinho Gaúcho?
Realidade!
Realidade de um século. Realidade de um século XXI, em pleno sul da América do Sul. Num país continental. Num país em desenvolvimento. Num país em crescimento. Num país onde as noites, em muitos lugares, são passadas em baixo de marquises a espera do cobertor de jornal ou da sopa do passante.
É a solidão.
Solidão do artista.
Solidão do escritor.
É a solidão da noite. Que custa a passar... Que custa a passar.
É a chuva com seu barulho tradicional.
É frio que bate no cobertor de jornal... É o frio que custa a passar... É o cansaço da espera de tudo...
E o que fazer?
Fico a pensar...
Só pensar?
E o que fazer?
Não sei...
Você tem idéia?
Talvez alguns tenham...
Talvez até alguns já colocaram em prática suas idéias...
Adiantou?
Não sei...
Porque pararam?
Não sentiram respostas?
É a solidão em tudo...
Até no que fazer...
A menininha está ali a distribuir seus folders...
O menininho correndo com seu “chinelinho” de dedo...
E eu?
Eu vou parar por aí... pensando ou agindo?
Vou parar por aí...