Tenho dificuldade para lembrar das coisas. Das pessoas e dos seus rostos. Dos lugares e das coisas que são ditas. Das coisas que já disse. Então, costumo escrever algumas coisas, pra poder lembrar depois.
Sempre tive intensa necessidade de escrever por causa dessa falta. Sem memórias nos tornamos um pouco vazios por dentro. A passagem das horas parece não incomodar. De repente, os dias se parecem todos com alguma coisa que já se viu antes, mas não é possível saber onde. Ou, então, os dias são tão novos que a intensidade com a qual se vive nos esgota a cada final de dia.
As noites me deixam chateada. Os dias de chuva também. Não tenho em que pensar. O hoje é tudo o que eu tenho. Parece que tudo acontece agora. O ontem, o hoje e os projetos do amanhã.
Rolo e me enrolo na cama. Não há estrelas quase sempre. Carneirinhos, não sei contar. Desvio a atenção pra qualquer sombra que as luzes da rua fazem nas paredes e já não sei mais o que eu fazia antes.
As noites não passam. Arrastam-se. E, quando me resigno a esperar que, finalmente, o dia venha, então, ele vem. Cinza, com nuvens de chuva. Pesadas nuvens como os passos pelo caminho. Olho para trás e vejo marcas. Mas não são minhas. Nunca ando, definitivamente, sozinha. Um alento.
Uma boa xícara de café fumegante me desperta. E de novo me vou entre as pessoas buscar um pouco de mim, deixado em algum canto. Retalhos, memórias perdidas – não escritas, escondidas em alguma esquina.
Quero me encontrar em você. Um dia desses a gente topa por aí e se acha. Como naquele outro dia, você está lembrado? Num encontro não marcado, despistando qualquer revés e a gente assim vai vivendo o que temos de mais precioso: a luz do sol que as nuvens teimam em escondê-las. Brincadeira de mal-gosto delas, você não acha? |  | |