A questão é uma só. Gostamos de enganar. Um prazer doloroso e desejado intimamente pelo nosso inconsciente e, até mesmo, declaradamente pelo nosso consciente. Mas enfim, embora muitas vezes tenhamos certeza do engano, ainda assim, ficamos reféns de nós mesmos e de nossas estúpidas escolhas.
As palavras podem vir a ser um pouco duras, mas enquanto escrevo rememoro uma infinidade de passos mal dados e me irrito. Não estou simploriamente olhando só para o meu umbigo, mas para todo o resto. É bem provável que, se ficasse com o olhar voltado só para as minhas próprias enganações não terminaria de escrever o que eu escrevo. Possuída por uma gama de sentimentos como a raiva e a frustração, abriria a janela e gritaria o mais alto que eu pudesse pra ver se é possível que eu espante todas as coisas que me incomodam e que eu teimo em insistir nelas.
A palavra de ordem é achar que sempre temos a razão. Que nunca erramos. Que estamos certos em não corrigir as nossas rotas, em continuar com as nossas vidinhas mais ou menos. Suspiramos pelo jardim alheio, mas teimamos em ficar com o nosso do jeito que está, um punhado de florzinhas murchas que acreditamos que um dia irão florescer e nos enebriar com o seu perfume. Corremos em busca de adubo, receitas mágicas, simpatias e temos a audácia de achar que podemos resolver assim o problema.
Infelizmente é preciso refazer o jardim algumas vezes, comprar novas sementes, usar as mesmas mudas de outros anos, mas que trocamos porque exigiam muitos cuidados e eram traiçoeiras, porque traziam junto um pouco de joio. Ah, mas o que nos custa cuidar do jardim e lhe tirar as ervas daninhas, regar as mudas todos os dias, mesmo longe estar perto. Mesmo sem tempo, pensar em nossas flores? Será que nos tornamos tão práticos e acomodados?
Não existem receitas prontas. Contudo, uma coisa é muito clara. Não é preciso que nos acomodemos e aceitemos o destino ou todo esse palavrório de fatalidades. Viver acomodado é um erro pelo qual pagaremos um alto preço. Pode ser que ao tentar arrumar as coisas, não saia da forma como imaginamos, mas não posso aceitar a desistência.
Aos meus alunos eu disse na semana passada: desistir? Nunca. Reformular, ganhar novo fôlego, sofrer até quase ir à exaustão, mas levantar, continuar firme e lutar. Tudo é possível. Surpreenda-se e busque o que te faz feliz. Não podemos nos contentar com um café morno se é possível saborear um cappuccino fumegante ao admirarmos as flores mais lindas que já se viu.
( com informações cultura ) |  | |