Na calmaria da última madrugada do ano de 2009, acordo com uma expectativa incomum. Todas as madrugadas do Bairro Floresta, em Gramado, são alegradas por um cantar forte e determinado, que anuncia o alvorecer. Um momento mágico que me faz abrir os olhos e agradecer ao Divino Tropeiro a grande magia da vida, minha, de meus familiares e de minha terra. E isto acontece diuturnamente.
Mas nesta manhã do dia 31 de dezembro, eu não posso deixar de ouvir meu arauto de bons presságios. Não se pode quebrar a magia de seu recado, por seu cantar.
É um assovio melodioso e único, que me dá a certeza de ser um mesmo pássaro demarcando seu território e a me fazer esta visita.
Como os cantadores do Divino Menino Deus, nas entradas dos anos novos, até 6 de janeiro, meu arauto vem ao meu terreiro, na soleira da minha porta, para louvar a vida, e eu preciso estar atenta a esta louvação.
E na esperança de ouvir seu trinado, acordo e me preparo para o recital matutino. E ele não demora. É pontual como se conhecesse as horas marcadas pelos relógios humanos. Mas seu relógio natural, que é o sol, lhe garante a pontualidade.
E lá estou eu, confortável em meu recanto familiar e o recital começa. Deve durar uns 5 a 10 minutos e é maravilhoso.
Por que será que precisamos de tantos fogos de artifícios para cantar uma coisa que a natureza faz tão bem e melhor?
Os nossos ouvidos não precisam sofrer as batidas de sons desumanos que fazem o céu bonito mas que dão aperto ao coração. Sensação de espanto e perigo ao mesmo tempo.
Nosso arauto cantador não transmite medo, mas comunica a todos que a vida é mágica e plena e que o luxo da simplicidade de seu cantar não pode ser imitado por vozes e sons humanos.
Que não é preciso recompensar financeiramente seu cantar gratuito e sonoro.
Bendita Gramado amada e suas madrugadas tranqüilas.
Bendita minha terra querida e sua natureza teimosa em busca de sossego.
Bendita a vida pura que nós gramadenses queremos e, fora dos doidos eventos, temos.
Bendita a paz dos convívios naturais que ainda nos podem levar para uma luta pacífica por preservação.
Não tem dinheiro no mundo que compre nossa Gramado, pois nosso amor e trabalho não tem preço.
E isto, quem garante, é nosso arauto, sua majestade, o SABIÁ LARANJEIRA, um dos maiores cantadores em todo o mundo e ave símbolo do Brasil (deveria ser daqui também).
E com Chico Buarque de Holanda eu vou completar dizendo:
"Vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar, pois lá, e é ainda lá, que eu hei de ouvir cantar, uma sabiá cantar, uma sabiá..." |  | |