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Texto publicado em 07/07/2010* - 00:00, quarta-feira.por Sandra Veroneze
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 22 meses!
Até onde somos capazes de nos propormos a ir
O cotidiano é um mestre sábio e, por estes dias, mais uma vez me deu mostras do esplendor humano. Estava eu na praça em frente à minha casa, deliciada com a leitura de um livro sobre os arquétipos das deusas gregas manifestados na psique feminina contemporânea, quando resolvi descansar os olhos e observar à volta.

Cenas de praça normal em um domingo: crianças jogavam bola com amigos e pais, cachorros corriam, alguns adultos sentados tomavam chimarrão, outros caminhavam... Meus olhos pararam em um menino, de aproximadamente quatro anos, que dava a volta na quadra de futebol, em uma cadeira de rodas. Ia firme, com um jeitinho entusiasmado, parando de vez em quando pra tomar ar. Ao longe, seus pais, abraçados, olhavam pra ele, sorrindo. Havia uma aura de amor e confiança naquela cena. Achei lindo e continuei a leitura.

Logo mais ergui os olhos novamente e o menino estava no colo do pai, entrando na quadra de futebol, de onde a aglomeração anterior de meninos e meninas havia se dispersado. A mãe, ao lado, carregava uma bola. A cadeira de rodas ficou fora da quadra... Em minutos, o menino estava no gol e seus pais chutando. Alguns lances mais fáceis, outros nem tanto. Não demorou pra mais crianças se juntarem... Fui às lágrimas... Quando achei que já tinha chorado bastante, novo momento... O pai foi ao gol e o menino pra linha. Ficou um tempo ali, chutando com a mão direita, ajoelhadinho no chão e até dando distância e avançando em pulinhos, pra dar o impulso. Lindo, lindo, lindo...

Momentos assim fazem o mundo parar pra mim. O menino estava visivelmente feliz. Sorria, brincava, ria alto como só as crianças sabem fazer. Com certeza, se sentia amado, integrado. Não me parecia que a sua diferença importava.

Fiquei pensando no tanto de desculpas que às vezes inventamos, forjamos, pra permanecermos na zona de conforto. Temos pernas perfeitamente saudáveis e a desculpa pra não nos exercitarmos é a falta de tempo, a umidade lá fora... E uma armadilha se arma e nos fisga: com o passar dos anos, assumimos o péssimo hábito de fazermos somente o que gostamos, o que é agradável.

Outro dia ouvi, em uma palestra, que somos como as árvores que de vez em quando precisam ser podadas, pra disciplinar seu crescimento. Árvores que não são podadas (pessoas que só fazem o que querem, do jeito que querem, quando querem), crescem desordenadamente. Espalham seus galhos por onde tiver espaço. A poda dirige os galhos, potencializa a força e o poder dos nutrientes que são retirados do solo pra seu alimento... E então renasce viçosa e forte... É o ser humano que, pelo hábito da virtude, age mais por dever e menos por inclinação de seus desejos, personalidade...

Dar um passo à frente, sair da zona de conforto, se propor a exercitar as potencialidades... Tudo isso dói, cutuca... Mas como diria meu mestre de hap ki do, a dor sempre vai existir... E se em determinado momento ela estiver mais presente que a alegria, não é motivo pra nos desgostarmos do bem maior, que é a vida. Exatamente como aquele que, se não tem pés, chuta com as mãos. Mas não deixa de jogar futebol!

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