 "Pois logo ali, o sol se punha..." |  |
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Em mais de duas décadas de vida, vi o sol se pôr pela primeira vez. Falo de observar o lento movimento do astro-rei até se esconder no horizonte. É incrível que tantos pôr-do-sol tenham me passado despercebidos. O azul celeste, aos poucos, vai ficando cor de laranja, depois vermelho, até escurecer de vez. Altamente inspirador para meia dúzia de devaneios.
A imagem do pôr-do-sol no Lago Guaíba (que todo mundo chama de rio) é cartão-postal em Porto Alegre/RS. Estive na capital gaúcha um fim de semana desses e finalmente apreciei o espetáculo da natureza a partir da Usina do Gasômetro. Primeiro, da janela do barco, ficava observando o reflexo cor de laranja na água turva daquele – rio? Lago? - que infelizmente foi degradado pelo homem, mais um paraíso vitimado pelo nosso descaso.
Distante da costa, era quase fácil esquecer que eu estava em Porto Alegre, a poucos metros das avenidas movimentadas, dos prédios abandonados, das ruas mal cuidadas, dos que pedem esmola nas praças, dos vendedores ambulantes que tumultuam a Rua da Praia, dos torcedores do Inter buzinando até o Beira-Rio e de tudo aquilo que faz parte do cotidiano porto-alegrense.
Pois logo ali, o sol se punha. Enquanto a vida na metrópole ainda pulsa, a natureza segue o seu ciclo permanente – e não notamos! O sol se põe todos os dias, nasce de novo na manhã seguinte, depois se põe mais uma vez e assim por diante. É o ciclo. Assim se passam os dias, os meses, os anos, a vida. E nem percebemos. Literalmente, não percebemos.
Nossa rotina nos faz ver coisas corriqueiras – como o nascer e o pôr-do-sol – com olhar de surpresa e encantamento. Em 20 e poucos anos, vi o sol se pôr pela primeira vez... registrei meus olhares e devaneios sobre o que a natureza opera todos os dias e ninguém nota, sem saber o que virá até o próximo pôr-do-sol.