Acho que a pessoa deveria pensar um trilhão de vezes antes de tirar a sua própria vida. Dizem os espíritas que o vale dos suicidas é um lugar sombrio e de muito sofrimento. Cavernas impenetráveis, águas sulfurosas e espíritos que vagueiam sem destino... Com certeza, é pior do que o final do mês quando estamos acostumados a enfrentar o temível “aperto”. A morte não se compara a nenhum problema do trabalho vivenciado, tampouco a dor nas costas que insiste em não nos largar. Tudo isso dá sentido a vida e nos mostra os sinais da luta impressos sob o nosso corpo.
Pois bem... é notório que um enterro custa caro. Coroa de flores. Missa de sétimo dia, de mês, de ano...O caixão que pode ser muito dispendioso. O pagamento da taxa do cemitério. O vestido preto. Óculos escuros. Os mais chiques oferecem um coquetel aos presentes. Lenços de seda. Dor e tristeza! Lágrimas de nossos entes queridos e talvez risos e comemorações de nossos desafetos...a morte tem seu preço e melhor se não tivéssemos que pagá-lo.
Antes de morrer deveríamos economizar o dinheiro supostamente gasto no velório e viajar pelo velho continente. No Brasil, recomendo a Foz do Iguaçu com a força gigantesca de suas cataratas e a bela Natal. A cidade do sol. Ninguém deveria morrer sem andar de buggy pelo litoral norte, subindo e descendo as dunas, pelas areias escaldantes da praia de Genipabú. Experimentar uma lagosta com catupiri, tomar um banho de mar na praia de Ponta Negra, inspirar o segundo ar mais puro do planeta, sem falar em tomar um saboroso suco de graviola.
Bem... se o dinheiro para o velório fosse mais curto, poderia ser substituído por uma ida de ônibus até a cidade maravilhosa. Quem sobreviveu ao tédio da viagem, não morrerá mais...Ao chegar no Rio, uma visão panorâmica da cidade, aos pés do Cristo, uma das maravilhas do mundo moderno. Tirar muitas fotos do Pão de Açúcar. Tomar um banho de sol em Copacabana. Passear ou andar de bicicleta pela orla marítima e torcer para ver alguém famoso. Ninguém duvida que a cidade é perigosa, mas para quem pensa em suicídio, mesmo se morresse com uma bala perdida, já estaria no lucro, afinal Rio é Rio.
Quem não tivesse recurso disponível e morasse no sul do país, poderia passar o dia em Gramado, nossa cidade, naturalmente européia. Em pleno Natal Luz, celebramos a vida, acenamos ao bom velhinho e fizemos promessas para o ano vindouro. O turista se encanta e fascina com o acendimento das luzes e os fogos de artifício que enfeitam a cidade, na época quando se comemora o nascimento do Salvador.
Tantas coisas deveriam ser feitas antes que morrêssemos .. tomar um cálice de champanha, um bom chimarrão,visitar um bom amigo, contemplar o pôr- do- sol, passear pelo parque, tomar um banho de chuva e observar a revoada dos pássaros. Que bom que existem coisas que não são compráveis com o vil metal, tais como a noite e o mar, assim como a natureza que não nos cobra ingresso. Certo é que nada tem força suficiente capaz de retirar a beleza da lua, a grandeza do sol e a luminosidade do sorriso de quem amamos que, entre outras coisas, tornam a vida mais poética...
A verdade é que a morte tem seu preço, sobretudo afeta emocionalmente a vida de amigos e familiares. O ponto final da vida tem um alto custo e não vale a pena antecipá-lo. Nada que uma bela viagem, um bom churrasco, uma taça de vinho ou um founde a dois, não fizesse um suicida mudar de idéia. Afinal de contas, a vida, ainda que com todas as suas intempéries, não custa o preço de uma viagem sem volta....