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Gramado RS - Serra Gaúcha

/ Cultura
Cassiano Santos Cabral
Texto publicado em 04/01/2012* - 09:44, quarta-feira.por Cassiano Santos Cabral
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 4 meses!
Entre Avós e Netos
Alzira era uma daquelas tradicionais avós, de cabelos brancos, usava um xale triangular em crochet nas costas e um batom cor de rosa nos lábios. Excelente doceira. Ela parecia uma avó dos contos de fada. O cabelo sempre preso com um coque, olhos muito azuis. A senhora de rosto rosado, com marcas de expressão e a voz terna, como se estivesse sempre nos abraçando, através de suas palavras açucaradas.

Alzira era a avó postiça de toda a vizinhança. As crianças ganhavam balas, escutavam histórias, subiam nas árvores e colhiam frutas do pé, quando apareciam na casa da idosa.

Aquele era um dia especial para Alzira. Sua pequena neta, de apenas quatro anos, filha de Paulo, o mais velho dos cinco filhos, iria visitá-la. Tiele morava num apartamento, em outra cidade e já fazia tempo que as duas não se encontravam.Aquela era uma boa oportunidade para a menina fazer novos amiguinhos, comer muitos doces e brincar com Boris, o gato persa.

A menina chegou e logo a avó colocou-a no colo e começou a contar-lhe contos de fada. Ela também falava do pai da menina quando era criança e do Menino Jesus. Enfim... Eram muitas histórias para dividir com a pequena Tiele.

Já era no meio da manhã e o almoço deveria ser preparado. Meio dia, comida na mesa. Alzira colocou o feijão no fogão para o almoço e nem controlou o tempo de cozimento...

A menina estava encantada com aquele cheiro de comida caseira. O espaço da casa. O gato que andava livremente pelos sofás de sala. A senhora não se importava com pêlos e pulgas e nem era tão maníaca por limpeza como sua mãe. A casa da avó não era tão bonita como a dos pais, mas era tudo mais bagunçado e isso a menina gostava. A casa da avó tinha biscoitos e podia-se comer doce de leite, mesmo antes do almoço.

Depois de muitas conversas, a menina sentiu-se a vontade para perguntar a avó:
- Vovó, quantos anos a senhora tem?
A senhora, surpresa, respondeu-lhe com outra pergunta:
- Quantos tu acha, querida?
- Dez? Responde a ingênua menina, mostrando os dez dedos.

- Bem mais que isso... Começava a rir a senhora...

- Vovó, por que o meu cabelo é preto e o teu é branco? A menina estava na fase das descobertas e queria saber de todos os porquês, mesmo aqueles sem respostas...

A avó, pacientemente, começa a explicar a menina:
- A vovó nasceu faz muito tempo... Já tive um, dois, três, quatro anos. Aos seis entrei na escola e aprendi a ler e a escrever. Tive uma festa de quinze anos. Depois estudei e virei professora. Casei bem nova com seu avô...

- E onde ele está? Ele está preso no retrato da sala?
- Não... Ele vive com o papai do céu, num lugar muito bonito...

- Depois tive filhos, netos... O tempo foi passando, o cabelo foi mudando de cor, a pele da avó foi ficando com marcas, mas eu também já tive quatro anos...

- Já, vovó?
- Sim, querida...

- Eu queria ser gente grande, mas o tempo não passa para mim.

- Ah... Meu amor... Depois dos quinze anos vai passar muito rápido.

A menina arregala os olhos com tantas informações e não entende como uma pessoa tem tantas histórias para contar, afinal, seu mundo era acordar, comer, escovar os dentes e brincar....

- Nossa vovó... E a senhora não queria ser criança de novo?
A avó acaricia os cabelos da neta e lhe faz uma confissão:
- Eu vou contar um segredo para ti...

- Conta...

- A vovó ainda gosta de brincar de bonecas. Eu sou meio criança também...

- Oba!!! Sério, vó? Vamos brincar, então? A menina pergunta exultante com a confissão da anciã.

Alzira pega em cima da cômoda uma desbotada boneca de pano, chamada de Clarinha. Ela senta-se no chão e começa a brincar com a neta. As duas pareciam com quatro anos de idade. Um momento único. O reencontro do passado com o presente. Laços de família.

A avó sente um cheiro estranho na cozinha e exclama:
- Meu Deus... O feijão está queimando... Vou desligar.

Depois que retorna da cozinha, afobada, a avó fica desconcertada.

- Vovó... Eu vou te contar um segredo...

- Juro que não conto para ninguém... O que é?
- Eu não agüento mais feijão. Eu como todos os dias. Vamos brincar com a Clarinha e com o Boris?
A avó recebeu uma lição de sua neta e retornou a brincadeira. A boneca, o gato e a menina. Não havia nada mais importante naquele momento. A vida é feita de bons momentos e não devemos desperdiçá-los por nada, pois eles não voltam.

A menina não estava com fome, mas foi compensada com a tele - entrega de uma saborosa pizza de quatro queijos
Anos se passaram e a neta sempre visitava a avó para brincar com clarinha e com os descendentes de Boris. Elas falavam de namorados, de bailes, de crianças... Algumas panelas de feijão foram queimadas. A boneca de pano, as árvores centenárias do quintal e as lembranças da infância resistiram ao tempo. O segredo das duas nunca foi revelado.

Alzira deixou um legado de sonhos, um velho xale e uma porta jóias que tocava uma delicada música e a neta virou bailarina.
   
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