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Guia de Gramado RS - Serra Gaúcha - Brasil

Gramado RS - Serra Gaúcha

Texto publicado em 14/12/2001* - 00:00, sexta-feira.por Virginia Millo
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 10 anos e 5 meses!
A Estradinha
Gosto de caminhar com sol nas costas. No início caminho como exercício. Rápido. Bem marcado. Determinado. Aos poucos cada passo torna-se uma fantasia. Uma visão do longe. Um pensamento gostoso que esboça um sorriso maroto.
Sou assim. Ou melhor, caminho assim. Perto de minha casa há uma estradinha de terra. Curvas e retas. Mais curvas eu diria. E isso fazia tudo mais divertido. Como um labirinto mágico. Como mil surpresas depois do fechar os olhos.
Sempre insisti nessa procura pela tal estradinha. Caminho sinuoso. Era puro prazer chegar àquele pedacinho do faz de conta. Que de conta tinha muito e pouco do quase nada. Um dia me perdi nesse mundão sem direção, nem rumos definidos. Perdida e até asfixiada. Com a sensação de nó na garganta. E se for para dramatizar, com uma vontade incrível de morrer.
Foram dias tristes e depois dessa fase escura, casei. Casei. Talvez para fugir daquele turbilhão.
Eu pensava assim: casar é ajeitar a casa inteira, estabelecer novas metas, pendurar prateleiras e ter a certeza de que será possível ser feliz. Eu procurava por isso. Por essa situação clara e transparente.
No início você acha tudo com cara de novidade e superável. Você vê a cozinha como aliada e a casa, uma confidente. Você vê carinho em cada gesto e a sua dedicação torna-se rotina. Só que os dias e as noites alternam-se e você não se dá conta que o passo bem marcado, a postura bem certa já são coisas do passado. E um passado tão próximo. Nesses momentos eu lembrava dos conselhos de minha mãe: “não case”, “seja livre”. E o mais bonito: “Seja você”.
Onde guardamos as sábias palavras de nossas mães? Talvez no fim da estradinha, quando eu desistia de caminhar até o fim. Se ao menos eu soubesse pensar que separação não é um fim, porém um recomeço ... na verdade eu me negava a pensar de tal modo. Começar algo para terminar assim? E a face guerreira? A luta, a reconquista? Eu estava acuada, mas não derrotada, apesar da pouca esperança em continuar.
Nos poucos anos de casamento eu havia engordado. Um pouco. Mais ou menos. Para ser exata quase 17 quilos. As formas já sem curvas afligiam o espelho e meu ego. Decidi iniciar minhas caminhadas. Como se eu caminhasse diariamente pela estradinha. Cinco vezes por semana. Questão de uma hora. Pela manhã. Sem questionar. De cabeça erguida. Até para disfarçar a papada. Acordar, vestir-se e caminhar.
Em todas as manhãs sentia-me uma mulher de fibra, de coragem. Um futuro bonito aproximava-se e era real. Eu seria feliz, uma profissional realizada, com um corpo amado e com a alma livre.
O ato de caminhar estava mexendo com meu ego, com minhas emoções. A estradinha dava voltas em minha cabeça. Mostrava-me como era fácil reassumir minha identidade. E com essa nova maneira de ver a vida reencontrei ele. Procurou-me para saber como eu estava. Convidei-o para entrar. Em minha casa.
Respondia suas perguntas com algo mais (que depois descobri ser maturidade). E amei seu olhar. Admirei sua boca e suas mãos nervosas. “Você está bem? Realmente? Falta alguma coisa? Por que isso aconteceu conosco?”
Pouco respondi, mas muito amei sua preocupação e entreguei-me àquele meu antigo amor, sentado em minha frente. Beijei-o como nosso primeiro beijo. Num misto de pudor e ansiedade. Com o calor aumentando pelo corpo cada vez que sua língua encostava a minha.
Acariciei seus cabelos e mordi sua orelha. De olhos fechados. Num sopro de eterna fantasia, um faz de conta que destroi todos nossos problemas. Não pensei no que acontecia entre nós, eu só desejava recuperar algo perdido e que encontrei no meio da estradinha. Tirei sua camisa e esfreguei seu peito. O tato despertado. O cheiro redescoberto. E a vida sendo possível em um momento de crise. Despi meu homem e eu o amei. Sem me importar com horários, com a flacidez natural de meu corpo, o cartão de crédito e todo tipo de picuinha barata do cotidiano.
Eu lambi meu homem. Mordi. Beijei e gozei. Gozei com meu homem como uma menina. Aquela que eu havia sido. Talvez nada restasse depois desse encontro. Talvez a vida se refizesse ou nada mais se encaixaria. O futuro, nesse instante, não era indispensável.
E se as coisas piorassem ainda haveria a estradinha.
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