Quem acompanha o jornal Pioneiro deve ter reparado em uma polêmica que se arrasta por semanas na seção de cartas do leitor. A partir de notícia sobre a Soama, sociedade protetora dos animais que funciona em Caxias do Sul, surgiram manifestações que lembram o jargão "troque seu cachorro por uma criança pobre". Defensores dos animais de rua, que são recolhidos e alimentados na entidade, onde ficam à espera de adoção, foram ridicularizados por aqueles que se dizem preocupados com causas mais nobres, tais como o combate à pobreza humana. Tais manifestações foram rebatidas, estabelecendo-se sucessivos conflitos ideológicos e mesmo filosóficos, do tipo, quem vale mais na balança divina. Porta-vozes dos céus chegaram a interpretar a Bíblia, "esclarecendo" que amar uns aos outros referia-se apenas aos semelhantes. O caso lembrou-me uma discussão anterior, da época de estruturação das leis ambientais, quando se divulgou que matar um passarinho passava a ser crime inafiançável. Houve quem entendesse ser uma afronta à espécie humana dar tal peso a uma avezinha, enquanto outros crimes tinham menor rigor punitivo.
Para não desencadear uma polêmica via Internet, prefiro omitir opiniões que, por mais que tente embasar, serão sempre manifestações pessoais, sujeitas à ira de alguns, acirrando ainda mais uma discussão inútil porque certos conceitos só mudam com a evolução da alma. O que creio ser mais pertinente manifestar é a constatação de uma particularidade humana, talvez proveniente da condição intelectual que nos diferencia de outras espécies, talvez mero produto do ego: a comparação. Comparamos homens e animais, cães sarnentos e crianças pobres, caçadores e assassinos, assim como comparamos elegantes e desalinhados, belos e feios a todo instante. Temos receio de emprestar dinheiro ao mal vestido, não queremos conversa com aquele sujeito tão diferente do bom moço da novela. Ficamos pasmos quando aqueles em quem confiávamos são justamente os que nos decepcionam, mas seguimos apostando em um faro que está mais para preconceito que intuição.
Quando erramos, comparamos nossa falha com a do colega e assim nos sentimos mais corretos. Quando cometemos um delito, lembramos da delinqüência dos políticos e nos sentimos justificados. Quando encontramos celulite no corpo, lembramos de tantas barrigudinhas que desfilam pela praia e comemos tranqüilos mais um prato de batata frita. Quando cobradas por uma impontualidade pelo marido, lembramos de esperas anteriores e puxamos, justamente pela mania de comparar as coisas, uma lista de mágoas que deveriam ter sido apagadas em nome da vida a dois.
Por que é tão grave matar um passarinho quando há tantos crimes brutais por aí? Por que alimentar os cães quando há tanta criança com fome? Ora, por que comparar, se um erro não justifica outro? Se queremos mesmo um mundo melhor? A propósito, melhor que o quê? |  | |