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Gramado RS - Serra Gaúcha

/ Cultura
Alexandre Kury Port
Texto publicado em 29/11/2010* - 13:27, segunda-feira.por Alexandre Kury Port
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 17 meses!
Capítulo 1
Se me lembro bem era verão, ou outono, mas tenho certeza que o tempo ainda se apresentava como verão, o costume com dias de trabalho sem pausas já fazia parte da rotina, na qual a cabeça não se permitia pensar no coração, afinal somos melhores sozinhos, quando não temos que nos preocupar com ninguém se é dia ou noite tanto faz, o importante é não parar, preencher aquele vazio que nem se sente mais com trabalho e com pessoas que você conhece hoje, e amanhã não estarão mais ali. As noites eram acompanhadas dos amigos, danças, luzes, e som, se não um jantar informal no qual o que vale é se ocupar e não olhar para dentro.

Capítulo 1
A faculdade era outro mundo no qual se ocupava o intelecto, sempre ocupado, envolvido em algo e, mais uma vez, se convencendo que o melhor seria ficar sozinho, a vida pronta, planos prontos e tudo encaminhado, era uma questão de tempo, tempo para que o próprio tempo passasse e a angustia e o vazio fossem ocupados com coisas que nunca o preencheriam. Engano, naquela noite eu não fui pra faculdade, fiquei em casa, tinha trabalho, e de repente uma foto, uma mão na boca, e um jeito que me parecia familiar; nada a perder, porque não ser sincero e lhe falar que quero lhe conhecer só pela sua foto?, e assim o fiz.

A surpresa, amiga de um grande amigo, porém o aviso de que seria impossível, e assim nossa primeira conversa se construiu, impossível, inacessível, uma barreira sem querer conhecer ninguém, ela sabia que seria mais feliz sozinha e não deixava que ninguém se aproximasse, mas o desafio da arte de conversar se fez, insistia para que ela conversasse comigo, e meias palavras vinham como resposta que mais pareciam flechas em uma maneira sutil de não querer se aproximar e não entender porque conversávamos. Então surgiu um meio de conversas sem mais palavras, a não ser olá, tudo bem, e boa noite, o dialogo se construía por poemas.

Grandes mestres nos acompanharam por noites e dias, fazendo-se presentes, e falando por nós o que queríamos saber um do outro, as poesias tomavam vida, e começavam a despertar um interesse, porque poesias se não gostamos delas, e então o erro, uma poesia em espanhol, ela não gostava de espanhol, e a partir disso o convite.

- Toma um café comigo?
Por alguma razão a qual não tem explicação assim aconteceu e um café foi marcado, escrevi uma crônica na qual acompanhado de nossos queridos poetas tentava decifrar o amor não como mito mas sim como um sentimento construído de puro afeto. Paixão é mito, e passageira, amor é sempre amor, mas não brota sozinho, e quando construído, é difícil de derrubar, ela me disse.

- Bobagem, isso é patético, um amor não pode ser construído.

Eu havia me enganado, a pessoa que eu julgava que poderia me compreender pensava coisas absurdas e tinha teorias, e realmente não estava disposta a descobrir o que era amar alguém de verdade, e eu, que queria descobrir naquele momento, voltei pra casa sabendo que aquela pessoa jamais conseguiria ser minha metade. Parti, deixando a crônica e um rosa, querendo saber qual poder teria uma rosa, mesmo me parecendo que, para ela, aquilo não faria diferença alguma.

Ao chegar em casa peguei meu telefone e parti para mais uma noite disposto a disfarçar o vazio e preencher ele com pessoas que faziam parte paralela em minha vida, porém, em meio a luzes, som e risadas, senti o vazio, e não podia fazer mais nada contra ele, comecei a me lembrar daquele desafio na cafeteria regado ao som de jazz, na qual palavras foram para um ringue e se desafiavam, querendo se encontrar, os olhares, as mãos inquietas, e é claro o jeito um do outro. Fui embora, tentava dormir, mas sentia que tinha de entrar na vida dela de alguma maneira, sabendo que ela não deixaria.

No segundo encontro, a certeza de que não daria certo, de que não tinha jeito, que o melhor era deixar assim e a frase.

- É inviável ficarmos juntos.

Então sabia que realmente não tinha chance. Dali para faculdade tentava me ocupar mas não conseguia, voltei para casa, e tentava dormir quando meu celular tocou. Para minha surpresa, era ela, não querendo que eu partisse e então percebi que na noite que ela me mandou uma mensagem para o celular, a primeira, sem eu nem ter seu número, foi me dando abertura para que eu entrasse naquele mundo, e ali seria a primeira vez de tantas que ela me pediria paciência com ela.

Por alguma razão esta história começa pelo fim, alguns dizem que o que começa pelo fim tem um eterno começo, como eu faço parte, não posso dizer isso ainda, mas sei que esse fim fez com que um amor começasse a ser construído, e uma historia escrita, duas pessoas, duas almas, mas algo diferente, pessoas diferentes mas no fundo completamente iguais.

Talvez destino realmente não exista, mas aquela noite, por alguma razão, eu não fui para faculdade, e quis conhecê-la e, pela primeira vez em tantos anos, senti frio na barriga, e fiquei muito nervoso, não era um primeiro encontro ou segundo, mas sim um reencontro, de duas pessoas que provavelmente se esperavam a anos, mas só se aproximaram no momento certo, em que estariam prontos para se conhecer, e não se apaixonar, o fim nunca foi tão começo como o começo nunca foi tão fim, um abraço levava a lágrimas sem explicação.

Quando decidi que estaria ao lado dela, ainda não a tinha ao meu lado, ela pedia pra me ver quase todos os dias, mas simplesmente para ficar em silêncio ou me conhecer, não se aproximava, mantinha uma distância segura. Uma noite não esperei mais e a puxei para meus braços e, por alguma razão, o encaixe foi perfeito, e dali ela não saiu mais, tentativa frustrada de roubar um beijo, e uma bela gripe pela chuva.

Quando chegou o domingo de Páscoa, chovia e ela não saía com chuva, mas foi tomar um café comigo. E assim, ali, na despedida, o primeiro beijo, e me lembro que meu coração na esquina era escutado, ela é diferente, e por alguma razão minha alma me mostrava isso. Naquele dia, um amor começou a se construir e duas pessoas começaram a ver que a vida delas guardava uma surpresa maior, uma reviravolta, um terremoto de mudanças, que elas não imaginavam.
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