Lá nas grotas, as transmissões esportivas eram coisas estranhas e incompreensíveis. O locutor, que era o speaker, falava tão ligeiro que ninguém poderia entender. Até a Copa de 1950, aqui no Brasil, passou em branco. E o carnaval era uma coisa do diabo, da qual um cristão tinha que ficar afastado, por isso também não se escutavam as músicas. Os padres tinham muito trabalho para fazer cumprir os preceitos da Igreja, que não combinavam com essas celebrações orgíacas de origem pagã. Liberalidades que chocavam os bons costumes, inquietando os arautos da decência, na época ainda ouvidos na sociedade.
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Os períodos de maior recolhimento no calendário litúrgico, antecedendo o Natal e a Páscoa, eram o advento e a quaresma. Entre os dois, da epifania até a quarta-feira de cinzas, havia o interregno das festas profanas, que preocupavam muito os párocos e as famílias. Os bailes eram proibidos aos sábados, por causa da missa dominical. A folia da terça-feira gorda jamais poderia ultrapassar a meia-noite, para não entrar pela quaresma. Dos púlpitos vinham severas admoestações sobre isso, e também sobre os limites morais desse frege momesco.
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Nos anos 50, o dever cristão ainda impunha a presença física das mães para acompanhar as filhas nos bailes. Uma vez, lá perto do Cutyeck, houve um escândalo coletivo porque um grupo de foliões, tendo à frente um professor público, de camisa aberta, exibindo o peito peludo e suando por todos os poros, saiu em cordão pelo lado de fora do salão, num lugar sem iluminação. No dia seguinte, a picada toda só falava naquela pecaminosa incursão pelo escurinho da noite, puxada justamente por quem deveria dar bom exemplo. É claro que o carnaval evoluiu. A própria Igreja reviu alguns conceitos de sua tradicional rigidez. Com a rédea cada vez mais solta, a autoridade do púlpito foi encolhendo, substituída pela liberal máquina de fazer doido, com sua telinha mágica.
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O chamado tríduo momesco, que se espicha cada vez mais no tempo, transformou-se para muitos no desafio de transgredir os velhos padrões. Até os tradicionais apelos de “não beba” e “não corra” foram substituídos pelo mandamento único de “use camisinha”, porque acasalar-se passou a ser parte essencial da folia. A exibição do corpo, especialmente pelas mulheres, no exercício dos seus novos e amplos direitos, é uma coisa espantosa. A nudez é escancarada, entregue ao apetite dos que parecem ter a volúpia como grande e única credencial. Mas não sou eu que vou deter os tempos. Cada qual, com o seu livre arbítrio, deve saber o que faz. Além do mais, que mal há em sair um pouco da casinha, expandir-se e até soltar a franga de vez em quando?
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Confesso que nunca tive uma relação muito fácil com o carnaval. Meu convívio com ele foi de curta duração, nos anos de juventude. A televisão ainda era bastante primitiva, os grandes e quase únicos atrativos eram os bailes nos clubes da cidade, que disputavam um público jovem e limitado. Muitos foliões formavam blocos, com acesso gratuito a todos os salões, na condição de serem bem-comportados. As fantasias individuais ou de grupos de amigos também se destacavam. Eu freqüentava os bailes com uma animação contida pela timidez, mais para conviver e acompanhar os outros do que por paixão ou impulso próprio. Por isso, nunca tive coragem de sucumbir à idéia da máscara, do adereço ou do disfarce, muito menos de travestir-me. Eu me sentiria ridículo.
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A aversão a penduricalhos também me acompanhou em outras circunstâncias da vida. Quando fui calouro na faculdade, em 1967, o trote da minha turma de bichos era o de carregar um insólito colar havaiano, o que me deixou completamente sem graça. Mais tarde, no Direito, usei uma capa vermelha sobre os ombros. Com isso tinha que comparecer às aulas, participar como cordeirinho de um desfile pelo centro da cidade e ainda ir fantasiado ao baile dos bichos, ali pelo mês de maio, quando também era eleita a rainha dos calouros. Só então me livrei daquela coisa incômoda e grotesca, imposta pelos veteranos. Só o que não me incomodava era o fardamento esportivo, que usava orgulhosamente para jogar futebol, coisa que, aliás, fazia muito bem.
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Mas voltemos à folia. Do carnaval, o que eu curtia mesmo eram aquelas marchinhas, que escutava com prazer e gáudio, mas muito passivamente, porque das letras não sabia mais que uns poucos refrões, como mamãe eu quero, você pensa que cachaça é água... Problema meu. Aos jovens, como ensina Erasmo de Rotterdã, não importa a sabedoria importuna, mas o sedutor encanto dos prazeres. Quieto e pudibundo, posso até ficar no meu canto. Mas sempre estarei de olho, porque lá no fundo, sinceramente, quem não gosta?
PS: Crônica enviada pelo leitor Guido Ernani Kuhn*
*Guido Ernani Kuhn é jornalista e cronista da Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul/RS |  | |