Marciello (um amigo meu) é um gaúcho legítimo. Daqueles que fala tradicionalisticamente (perdão pelo neologismo), anda a cavalo todos os dias e que cumprimenta as pessoas xingando - "mais grosso do que um dedo destroncado em mangueira de estância". Pai amoroso de dois filhos, uma menina de treze e um rapazinho de um aninho e pouco, o cara andava pelas ruas do Alegrete com o nariz empinado, qual touro premiado na Expointer. Nas sextas costuma tomar umas que outras no Bar do Mané, perto de casa. E lá, no bar, costumava gritar em alto e bom som "filha minha não namora sem minha permissão, o peão tem de vir beijar minha mão e me pedir licença pra sair com ela"...
Pois é...
Foi num dia chuvoso e frio em que Marciello voltava do campo, dirigindo mal como sempre fazia, ouvindo a Rádio Clube tocar o Hino Alegretense e acompanhando (mal e desafinadamente) a letra que Marciello parou num sinal perto de casa.
Enquanto "estrangulava o gato" cantando viu sua filha de 13 anos, linda de morrer, abraçada num garoto. Para piorar a situação, a menina ainda se vira, abraça mais ainda o cara, e tasca-lhe o mais cinematográfico dos beijos, daqueles que dá calor até de se olhar.
Marciello paralisou. Chegou a colocar a mão na arma (um revólver 32 que deve ter pertencido ao Bento Gonçalves de tão velho), olhava pros lados, começou a rir e a chorar ao mesmo tempo. Alguém buzinava atrás dele, pois o sinal já estava verde. Marciello acelerou e foi pra casa, desolado.
Qual de nós (pais de meninas) não teve pesadelos com essa exata cena? Qual de nós já não fantasiou (no pior dos sentidos, claro) que sua filha está ficando grande e que os meninos (agora rapazes) estão começando a olhar pra elas de maneira diferente. Qual de nós, amigos, já não pensou em dar uma lida naquela misteriosa agenda, ou mesmo uma espiada no MSN, ICQ, ou coisa que o valha, só pra saber o que está acontecendo?...
O tempo é inexorável, meus amigos, e cruel, também... Além de nos deixar a cada dia mais
velhos, faz com que as nossas filhas fiquem a cada dia mais lindas e mais cobiçadas pelos meninos (agora rapazes, não esqueçamos jamais). As festas se avolumam no calendário, assim como as agendas, que ficam cada vez mais grossas e secretas. Elas começam a prestar atenção à maquiagem ("mãe, acabou o meu batom, posso usar o seu?"), ao tipo de roupa que vestem (cada dia menos pano, ou mais apertadas, e sempre mais caras...). E começa aquela chuva de eternos telefonemas e toques no celular (aliás, quem souber me explicar pra que serve um toque no celular, por favor, não hesite) que provocam aqueles enigmáticos sorrisos.
E enquanto nossos cabelos branqueiam (ou desaparecem, no caso do meu amigo Marciello do
Alegrete), o horário de volta das festas é cada vez mais tarde. Chegam a nos dizer que "a festa começa à meia-noite", como se fosse a coisa mais natural do mundo. Claro que, no nosso tempo, era diferente. Afinal éramos rapazes respeitadores com as filhas dos outros e hábeis cortejadores, e qualquer outra mentira que possamos inventar agora...
Meu amigo me falava um dia que somos os príncipes encantados de nossas filhas. Só que quando elas começam a namorar, nos transformamos em dragões... É verdade... quantos de nós podem dizer que não ligam se suas filhas de 13 a 16 anos voltarem do colégio aos beijos e abraços com um carinha qualquer, cheirando a chiclete, mas com pose?
Um dia aparecem com o tal famigerado... o namorado (ou "namo", no dialeto adolescente)... No caso do meu amigo Marciello, o namorado respondia pelo apelido de "Buldogue" (?!?)... Usava piercings e brincos e outras frescuras e tinha quase DEZOITO ANOS!!! "Mas o que quer um galalau desses com a minha princesinha? Boa coisa não pode ser!"... E não adianta a gente falar grosso, ou proibir, porque elas namoram mesmo... E sentem ciúmes... e choram... e passam horas no banheiro se arrumando pro tal canino...
Enfim, amigos... estamos todos solidariamente irmanados nesse drama do Marciello, cuja filha, atualmente, dedica-se à criação de cães ferozes. Marciello, infelizmente, teve de se contentar em participar do namoro como sogro (se não pode vencê-lo, junte-se a ele) e hoje - até para não perder a filha, segundo ele - é amigo íntimo do genro.
E não se enganem alguns achando que suas filhas não vão encontrar os príncipes encantados, ou namorar "antes do tempo", ou perder HORAS diante de um espelho choramingando não terem "nada para vestir"... Isso acontecerá, mais cedo ou mais tarde, com cada um de nós. Embora muitos de nós ainda tentem NEGAR pura e simplesmente...
Só nos resta aceitar e esperar que escolham bem, não é?
Um abraço, Marciello. |  | |