| | Homens trabalhando no desmanche de grandes pedras para a construção de um novo prédio. Pedras soltas em meio a terra solta e águas. Este é um dos espaços geológicos urbanos de Gramado. |
“Plantada num ponto elevado da serra, por sobre uma rocha de larga extensão...” ( Padre José Scholl, 28 de fevereiro de 1955).
A estrutura do Planalto Gaúcho conforme o Padre Balduíno Rambo, 1942, tem seu fundamento em arenito, como entre Taquara e Canela, em 290 metros. O fato do arenito formar um horizonte contínuo no talude e de se encontrar em toda parte, permite a conclusão desta rocha constituir o fundamento do Planalto.
“Todo o Planalto tem o topo formado por efusões melfíricas sucessivas.” O meláfiro em todas as suas múltiplas variedades. Na 1ª camada: tênue capa de meláfiro sobre o arenito. Na 2ª camada: patamares do meio, largo cinturão cercando vales e rios. Na 3ª camada: tabuleiros, chapadas, chapadões que no fundo se ligam aos campos do Planalto. Nas bacias do rio dos Sinos e Caí, ao menos três degraus: a chapa de arenito, o cinturão do meio e a chapa do topo. Todo o Planalto pende para o oeste, e um pouco para o sul.
Assim, todos os rios maiores tem seu curso orientado de nordeste a sudeoeste. As Rochas Melafíricas que encobrem todo o Planalto, tem essa terminologia explicada da seguinte forma: muitos autores falam em BASALTO, termo mais conhecido.
O BASALTO, como chamamos aqui, difere do MELÁFIRO na idade geológica. O Basalto tem sua constituição mais recente e o meláfiro, de idade mais remota.
Sem entrar em petrografia profunda, pode-se afirmar que o Meláfiro, quanto mais escura a cor, tanto mais conservada a rocha e, tanto mais dura e mais consistente; quanto mais vermelha ou clara a cor, mais decomposta a rocha, tanto mais frouxa na textura e tanto mais misturada com formações secundárias. Um corte de pedreira pode nos auxiliar nessas identificações.
Em comum temos então que, tanto o Basalto como o Meláfiro, são rochas de efusão, ou seja, de massas em fusão derramadas à superfície da terra, ou, ao menos, esfriadas à pouca distância dela. Nesse estado líquido, o Meláfiro pode espraiar-se segundo as leis físicas dos líquidos, originando-se assim, a horizontalidade típica de suas formas. No resfriamento mais rápido do que o granito, o Meláfiro, pela superfície livre, rasgou-se em juntas verticais e horizontais, dando origem a colunas e lâminas.
No fator ecológico, temos que pensar nos agentes da natureza em relação ao Meláfiro. A ação do vento é mínima e se limita a varrer os detritos desintegrados pelos outros agentes, transportando-os para outros lugares, não influindo sensivelmente sobre sua fisionomia. A ação de temperatura depende da estrutura da rocha. Aqui, devido aos fendilhamentos das texturas compactas, podem haver tensões. A ação da água, no entanto, é mais preocupante. Seu influxo se manifesta primeiro na superfície das rochas, depois nas águas correntes das enxurradas e dos rios. A superfície das rochas deixa perpassar a água das chuvas e do orvalho até vários centímetros de profundidade. Imediatamente, se inicia a destruição da rocha. A cor muda, a consistência afrouxa, e aí, as partes mais salientes são as que se destroem mais depressa, arredondando os blocos. Se esses blocos tem núcleo, começam a descascar feito cebolas. Se a água descer mais, ao longo das juntas, ataca o fendilhamento, reduzindo-o a detritos terrosos, alargando o espaço e provocando o desabamento final da colunas e lâminas.
O Planalto, devido a altitude e configuração de suas bordas, é a região de índice pluviométrico mais alto do Estado do Rio Grande do Sul. Portanto, nossas rochas mostram uma predisposição ideal para a EROSÃO: a quantidade de precipitação é tal que a vazão das águas deve produzir efeitos destruidores, como, por exemplo, o abaixamento repentino de sua borda, acelerando os efeitos de destruição nos pontos de maior declive.
O Rio Caí é dado como exemplo.
Nascendo nos Campos de Cima da Serra gaúcha, a 900 metros de altitude, vem recebendo pequenos tributários, serpenteando coxilhas e deslizando sobre um leito de rocha descoberta, legítimos “lajeado”. Depois, vai desbarrancar pela aba do Planalto, no salto da Toca. Com paredões sempre mais altos, se encaixa saltando de corredeira em corredeira, levando toneladas de peso, entre água e seixos, até saltar no Passo do Inferno, em São Francisco de Paula. Na variação da rocha do leito, e das cachoeiras resultantes, o volume carregado, e o vale tipo “canhão” já está construído. Dali para baixo, a erosão é mais fácil, pois a água atinge o andar do meio. E lá embaixo, no portal da serra, ele deposita tudo o que levou a 25 metros em relação ao Rio Guaíba, sedimentando o baixio.
Gramado, criado sobre um “grande lajedo”, chamado até de “Banhado das Saracuras”, tanto era o acúmulo de água no centro de nossa cidade antes do povoamento, tem muito a ver com esse pequeno comentário geológico.
Se estamos sobre um “grande lajeado” e se temos, como temos, vertentes em profusão, a verdade e que temo muita água rolando por debaixo desse lajeado.
Se temos, como temos, chuvas em profusão, e rios, e arroios, e sangas, então temos água rolando por sobre este lajeado.
A conclusão parece bem clara: temos que ter cuidado com a EROSÃO. Temos que ter todo o cuidado. E todo o cuidado é pouco.
Não quero ser geóloga agora, mas ecologista até que sou.
Se nossos engenheiros e arquitetos prestarem mais atenção, teremos segurança nas construções. Mas se, tudo o que pode auxiliar a evitar a erosão não for ativado, então estaremos correndo sérios riscos. Nossa ITA (pedra), sobre a qual estamos assentados, pode se tornar uma grande “prancha de surf” e nos levar, montanha abaixo, sabe Deus, até onde e como...
Alerta pois, Gramado. Alerta Planalto gaúcho.
O progresso vale muitas coisas, mas não vale tanto descuido e desamor.
O progresso bem-vindo, é o progresso preservador do homem e seu habitat.
O Professor gramadense Romeu Riegel, em seu artigo “A fragilidade das colinas”, no Jornal de Gramado de 12 de dezembro de 2008, registra que ...
- “Gramado, em vista de sua topografia, está livre de inundações, mas não de perder pedaços, ao impacto de muita chuva... que podem rolar morro abaixo, se for solapada a base que os sustenta nas alturas. Isto não é consolo para pobre, mas para abastado pensar que amanhã ou depois, seus belos prédios poderão virar entulhos espalhados sobre o Vinte e Oito, a Várzea Grande, o Piratini, e outros lugares baixos.”...
Ele registra, e eu endosso, que nenhuma medida de peso está sendo tomada para evitar tragédias deste tipo. Esquecer o nosso subsolo é um pecado meio imperdoável. Não vemos, não precisamos cuidar. Cuidamos só do visual da cidade...
Será que é esta a postura correta? Seria triste ver uma tragédia acontecer e levar por terra toda a nossa trajetória histórica. Não podemos “fechar o pensamento” sobre este assunto, sob pena de fecharmos as portas para projetos que agora podem acontecer e abastecer o futuro de mais segurança.
A educação ambiental é fundamental.
Quando escrevi este artigo em 91 e publiquei em 93, não nos preocupávamos ainda com a reciclagem e nem com o lixo que hoje vemos rolando solto, mesmo com toda a mídia que se procura dar ao comportamento educado do cidadão que coloca o lixo no lixo.
Se naquela época, ações de educação fossem realizadas, talvez, e eu digo, talvez, alguma coisa melhor se pudesse escrever agora.
Trago este assunto a baila para que vejam que nosso solo rochoso não é seguro como pensam alguns.
A nossa formação rochosa é deteriorável, degradável.
Olhem os cortes de morros que cruzarem, olhem as pedras que estão à vista da comunidade. Olhem com cuidado um barranco antes e depois de uma chuvarada. Fotografem. Registrem. Vão sentir a diferença.
Somos um vertedouro de águas, em uma grande quantidade de vertentes que fazem até algumas nomenclaturas de Gramado, como é o caso da Rua das Fontes.
Também fazemos parte do Aqüífero Guarany e nossas águas profundas estão sendo reabastecidas diuturnamente.
Nossa identidade está ligada às águas doces de nossas vertentes e do alto índice pluviométrico. Precisamos encarar isto de uma vez por todas e darmos uma revisada nas estruturas humanas de escoamento correto destas águas, tanto limpas, quanto servidas.
Precisamos reabastecer nosso conhecimento dia a dia também. Pelo bem de nossa terra e pela saúde de nossos descendentes.
( com informações cultura ) |  | |