| Texto publicado em 23/02/2010* - 17:16, terça-feira. | por Marília Daros | | *Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 2 anos e 3 meses! |  Carlos Antônio Mancuso O Mestre da História da Arte – Criar é dar sentido à vida. Soube hoje, 16 de fevereiro de 2010, que meu mestre, Carlos Antônio Mancuso, faleceu em 2 de outubro de 2009, de infarto, sendo velado e sepultado no Cemitério São Miguel e Almas em Porto Alegre. Não poderia deixar de lhe prestar uma última homenagem.
Tenho certeza que a maioria de nós, seus ex-alunos do Instituto de Artes da UFRGS, não sabe que ele se foi. Éramos alunos vindos de todos os cantos do estado, sabe-se lá onde todos estão. Nunca mais nos encontramos nos últimos 40 anos.
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| | Depois da formatura em Arte Educação pelo Instituto de Artes da UFRGS, em dezembro de 1969, a brincadeira com nosso Paraninfo, Professor Carlos Mancuso. Junto: Marilia Daros, Lourdes Vargas, Denise Vieira, Dóris Lubisco e Carmen Hoff. |
Mancuso, como o chamávamos, acompanhou todo o meu curso de Professorado de Desenho, de Arte Educação, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre 1966 e 1969 quando me formei. Lecionou História da Arte Universal por 3 anos, História da Arte Brasileira e Estética por 1 ano. Foi nosso Paraninfo na Formatura e nosso lema foi ele que nos deu: “Criar é dar sentido à vida”.
Mancuso foi um professor muito moderno e disciplinador. As suas aulas são inesquecíveis tanto quanto ele. Lembro que não queríamos perder nenhuma de sua orientações e foram suas aulas as primeiras que gravamos, numa época em que ter um gravador era coisa de rico. Uma de minhas colegas, porto-alegrense, de família abastada, tinha um gravador. Então ficávamos ouvindo, perguntando e fazendo anotações, enquanto o gravador salvava as aulas inteiras. Uma por semana, do nosso grupo, levava o gravador para casa e transcrevia, a mão, toda a fita. Repassávamos umas para as outras manuscritas mesmo, ou via Xerox, que já estava entrando no mercado. Assim, tínhamos os conteúdos completos. Acho que ainda tenho estes cadernos em casa.
Nós o amávamos e todos os dias que tínhamos aulas com ele, ele nos acompanhava nos intervalos, para o barzinho da escola, no 8º andar e lá, muitas vezes, em meio ao cafezinho, ele nos dava outra aula de amor ao belo, jamais aprendidas daquela maneira informal. Era alegre e comunicativo e com um sorriso fantástico, contagiante. Na realidade, éramos todas, apaixonadas por ele.
Todas as exposições significativas para nosso curso ele animava que fossemos e até acompanhava para nos fazer ver a arte de perto, com olhar comprometido. Era um companheirão, como diria Ziraldo.
Quando casei, em 1971, ele veio ao meu casamento e deve ter feito isto com a grande maioria de seus alunos. Era impossível a gente não pensar nele naqueles tempos. Mas o tempo é imprevisível e todos tomamos rumos que nem imaginávamos naqueles tempos de anos dourados.
Nos vimos muitas vezes depois da formatura pois ele vinha muito a Gramado. Mas em determinado momento, a gente não conversou mais.
Tenho certeza que a maioria de nós não sabe que ele se foi. Éramos alunos vindos de todos os cantos do estado, sabe-se lá onde todos estão. Nunca mais nos encontramos nos últimos 40 anos.
Em 1996 fiz contato com o Professor Mancuso para um aconselhamento sobre a preservação e restauração da Casa Seidl, em Gramado. Seu parecer, nesta época, foi de grande valia para que aquele bem especial de nossa arquitetura histórica se mantivesse íntegra. (anos depois seria deformada e definitivamente maculada em sua essência de tombamento histórico).
Carlos Mancuso era uma importante referência na preservação do patrimônio cultural e lembro que ele ficou dos mais felizes em ver que eu havia seguido por este caminho em minhas opções de trabalho em prol da arte.
E agora, o que dizer para desculpar-me diante de sua partida sem nosso adeus?
O que posso dizer é que seus ensinamentos e seus convívios não foram esquecidos.
Bastou ouvir seu nome para que aquela gavetinha se abrisse e tudo voltasse a ser presente, mesmo sendo passado.
Dizer que seu legado, deixado em cada aluno seu do Belas Artes e da Faculdade de Arquitetura, não pereceram, não desapareceram. Seu legado está dentro de nós, nos desenhos de nossas letras, nos olhares à natureza, na análise de uma obra arquitetônica, na paisagem urbana, num conceito de cor e forma, na ética e na estética de nossas vidas, numa viagem de turismo para um dos lugares já apresentados por ele, 40 anos atrás.
Guardamos a imagem daquele jovem professor mais maduro que nós, sorridente, que nos transmitiu segurança e confiança no futuro dos que amam a arte e o belo. Que ele não foi esquecido.
Obrigada, Professor Mancuso.
Biografia de Carlos Mancuso
Carlos Mancuso nasceu em Porto Alegre em 1930. Muito jovem, iniciou sua formação artística sendo aluno do professor José de Francesco. Aos 14 anos descobriu a aquarela com João Faria Viana e nunca mais abandonou os pincéis. Em entrevista concedida na década de 90, justificou sua preferência pela técnica: “ senti na aquarela a alegria da espontaneidade, a leveza da linguagem, a rapidez da execução , ela se liga muito ao meu temperamento, com essa possibilidade de transparência, de luminosidade”.
Ainda adolescente, conquistou, como prêmio em um concurso escolar, uma bolsa no Instituto de Artes que, na década de 40, além das artes plásticas, abrigava o curso de arquitetura. Foi lá que começou a “namorar a arquitetura” e decidiu tornar-se arquiteto, graduando-se em 1956. A partir de então, seus desenhos de prédios antigos da cidade, seus projetos e plantas jamais dispensaram a aquarela.
Ao longo de sua trajetória nas artes, Mancuso obteve inúmeros prêmios. Em 1947, no V Salão Infantil de Desenho, recebeu o Grande Prêmio Fortunato Pimentel. Na década de 50, como integrante do Clube de Gravura, dividiu com Scliar, Danúbio, Bianchetti, Vasco Prado e Glauco Rodrigues o Prêmio Pablo Picasso da Paz, pelo álbum “Gravuras Gaúchas”. Raramente participava de exposições coletivas e, por opção, realizava individuais esporádicas. Em sua primeira mostra individual, aos 19 anos, teve como comprador o escritor Érico Veríssimo.
Mancuso ingressou como professor na UFRGS em 1957, assumindo o cargo de assistente do prof. Ângelo Guido, na disciplina de História da Arte e Estética. No ano seguinte, fez viagem de estudos à Europa e, logo depois, excursionou pelo interior do Brasil com alunos da Faculdade de Arquitetura. Ministrou cursos e palestras sobre arte e cultura e sobre história da Arte. Publicou obras e artigos em jornais e realizou pesquisa sobre temas como: a pintura brasileira do séc. XVI ao séc. XX; o processo de urbanização e evolução arquitetônica do RS e a evolução iconográfica da cidade de Porto Alegre.
Em 1969 partiu para Portugal, como bolsista da fundação Calouste Gulbenkian, onde se aprofundou no estudo do Barroco, tema de seu livro, “Aspectos do Barroco”, publicado pela editora Sulina em 1972. Nas décadas de 70 e 80, seu nome esteve ligado à chefia da equipe que restaurou o Theatro São Pedro.
Mancuso trabalhou também na restauração do Solar dos Câmara, na década de 90. Como artista plástico, era conhecido por suas minuciosas aquarelas, sobretudo paisagens e naturezas-mortas. Aposentado de sua carreira universitária, Mancuso continuou residindo em Porto Alegre e registrando em suas aquarelas a paisagem urbana da capital.
Fontes:
Portal do Margs
Site da Zero Hora
( com informações cultura ) |  | |
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