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Guia de Gramado RS - Serra Gaúcha - Brasil

Gramado RS - Serra Gaúcha

/ Cultura
Marília Daros
Texto publicado em 06/01/2012* - 08:26, sexta-feira.por Marília Daros
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 4 meses!
260 Anos Açorianos no Rio Grande do Sul em 16 de janeiro de 2012
Aproximadamente 132 anos em Gramado.

Lusos ou luso-brasileiros. Luso-açorianos ou Portugueses.

Descendentes, com certeza.

260 Anos Açorianos no Rio Grande do Sul em 16 de janeiro de 2012
Na ilha do Pico, o convívio com os sismos e o dia a dia da vida açoriana, em 2001, em Curso de Reciclagem a convite do Governo Regional dos Açores. - Fotógrafo: Amigo em curso
Lusos ou luso-brasileiros. Luso-açorianos ou Portugueses.

Descendentes, com certeza.
Aqui se arrancharam, se arraigaram e se tornaram pais e fundadores ao mesmo tempo. E a terra, por seu trabalho, foi se tornando meio portuguesa na identidade deles e, meio brasileira, quando eles se tornaram brasileiros. Foram se fundindo com a terra de tal forma que hoje estão integrados na história e na rica vida que o Rio Grande do Sul tem, em parte, graças a esta troca de cultura e de formas de viver.


No Arquivo Histórico de Angra do Heroísmo a busca pela documentação comprobatória de meus estudos açorianos em Gramado. Quem procura, acha. Curso de Reciclágem em 2001 a convite do Governo Regional dos Açores. Fotógrafo: Amiga em curso

“Ele veio povoar esta terra quando ainda pouca gente tinha”. Em 1754 a população era de 3.700 a que se somaram 2.700 açorianos chegados entre 1752 e 1754. Não foram apenas os “casais de número”, povoadores de Porto Alegre, que aqui fincaram raízes. Outros chegaram por outros meios. Uma chegada quase rejeitada e pouco planejada que fez com que estes lusos ficassem entregues à própria sorte. Em Santa Catarina ficaram na vila do “Desterro” ou foram levados para pequenas propriedades que passaram a cultivar. Os que saíram de Santa Catarina para o povoado de Rio Grande, na Província de São Pedro, se somaram a algumas centenas de pessoas e uma guarnição militar, sem ajuda, tendo que fazer sua própria sorte num palmo de terra para erguer sua casa e para plantar o alimento da sobrevivência. Sem estes luso-açorianos, certamente, o Rio Grande do Sul nunca seria parte do Brasil.


Conviver com o povo das ilhas açorianas e saber de seus afetos me levou a sentir melhor e entender melhor o que eu já havia lido: um povo sencível e apaixonado por sua terra. Curso de Raízes Açorianas em 1999, a convite do Governo Reginal dos Açores. Fotógrafo: Amiga em curso

Comemorar é preciso. Pelo menos de cinco em cinco anos precisamos lembrar deste povo e dar a eles o devido valor. Saudar a sua cultura, a sua mágica vida que cruzou o oceano e aportou em nosso solo como uma bênção de futuro. As ações que poderão ser feitas nestas comemorações darão a eles o presente maior de um respeito que eles merecem por bravura, fé e cultura.


Grupo do Curso ``Açores a descoberta das Raízes`` em 1999, vindos do Canadá, Estados Unidos e Brasil. Eu fui para estudar mesmo, este povo tão intrigante e teimoso que perdura mesmo sem saber como consegue. Todos fomos para estudar e aprendemos muito. Fotógrafo: Oficial do curso

Gramado pode e deve fazer parte destas comemorações. Desde 1880 aproximadamente, já temos um elo descendente dos Açores, através de nossos pioneiros colonizadores. Desde 2004, Gramado já é irmão geminado com Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira nos Açores, em respeito a esta identidade. Desde 2006 a cultura açoriana faz parte da Festa da Colônia garantindo seu espaço definitivo na nossa história. Este ano de 2012 promete a abertura de um espaço de resgate, na Casa Portuguesa que se construiu na Praça das Comunicações.

Ainda somos referência em usos e costumes lusos. Ainda temos Ternos de Reis, a devoção do Divino Espírito Santo é um resgate necessário. Temos uma culinária bem clara de identidade açoriana, como a doçaria no arroz doce, na ambrosia, nos doces em calda. Receitas que não se perderam. Que o tempo, de alguma forma, preservou, visto que, pelo distanciamento dos pioneiros imigrantes no RS, era de se esperar que muito da identidade se perdesse. Mas isto não aconteceu. E as rezas, as benzeduras, as cantigas, ainda podem sem encontradas no nosso povo de culturas tão misturadas.

Gramado faz parte do roteiro de colonização açoriana sim, mesmo que distante das formas originais, mas com garantia de sobrevivência em meio ao sertão gaúcho que foi tão duro para os lusos em seu pisar primeiro.

Para eles, a nossa reverência neste 16 de janeiro de 2012, quando se comemoram os 260 anos da imigração açoriana no RS, através da homenagem a Tristão José Francisco de Oliveira, bisneto de açorianos vindos da ilha de São Jorge e que, nesta trajetória, guarda em seus descendentes uma identidade que ainda precisa ser muito estudada e valorizada.

Poesia premiada pela FEPAM, “Concurso Literário de Raízes Açorianas”, 3º Lugar – maio de 1991, em homenagem ao pioneiro colonizador de Gramado, TRISTÃO JOSÉ FRANCISCO DE OLIVEIRA, bisneto de açorianos da Ilha de São Jorge, Portugal. Como podem ver, este assunto já fazia parte do meu cotidiano e de minhas pesquisas há mais de 20 anos atrás.

Do Campestre ao Gramado Atual
Tristão Biriva*

Marilia Daros

Da aportuguesante visão da descoberta ao batismo dos Santos,
afazendados e arranchados foram recriando, na ausência saudosa,
na seiva crioula, saboreando lenta, na faia dura da sobrevivência.

Rudimentar carinho foi se enraizando.
Brotaram veias, brotaram temores...
Mas nada impede que o mundo caminhe...

Há de vencer ou convencer o tempo...desbravando...

E este prazer de possuir a mata, qual rapazote em tempo de cio,
levou alguns daqueles ilhéus a penetrarem em longas jornadas
no ventre virgem da jovem montanha.

Sob o incentivo dela, provocante, excitante,
como a donzela quando quer... e mente...

Nem solidão, nem bugre ou bugio os impediram o andar contente.

Ele era homem, jovem, filho, neto, precisava estar, sopé do mapa.

Sem fronteira fixa: com pés no chão de terra devoluta.
De fronte erguida, olhar na paisagem...

Era a subida, a fome, a sede e o costeiro que lhe deu vertigem.

Esse homem bravo, de Tristão chamado,
seguiu em frente mesmo fatigado.
Seguiu ouvindo a voz do coração,
mescla de luso e gaúcho, foi se aprofundando.

Chegando ou não, importa a luta, a caminhada.

Ele alcança o alto do costeiro, conquista o “secador”
onde descasca o lenho, limpa e finca sua bandeira.

Se foi primeiro, segundo ou terceiro,
importa tanto o tempo, o dia e a hora ?

Ele encontrou o filão d’ouro, d’água, a mina, a fauna, a flora.

Ele anteviu o tempo, amou primeiro.

Esta natura se coloca inteira ao seu dispor.

Jovem guerreiro, dominante, defensor fogoso,
príncipe sonhado,
amante, servo, amigo, forte companheiro.

Floriu o parasita, o chupim gritou...
O xaxim viçoso se espreguiçou...

A neblina veio, com seu manto branco beijando o orvalho,
doce criança que a noite plantou.

Você pode sentir ? Você respira ?
Este caseiro aconchego na serra
é prato trivial feito e degustado a dois...

Se não houver um par a natureza chora !
Agora e sempre a solidão machuca...

No atalho deste pioneiro, traçado a foice,
amor, vibrar e passo certeiro,
hoje caminham tantos e tão longos passos
que pra contar nem tanto tempo tenho.

Creio que agora, no repouso dele,
jazendo em terras que encontrou sorrindo,
plantou seu corpo, seu suor secou,
mas seu amor não deve ter morrido.

Quando escutarem o chupim piando,
aproveitando a calma de outrem,
relembrem sempre quem aqui viveu.

Ele se foi, esquecem deste luso,
de manso anseio, peito aberto, simples.
Mas foi a força que cativou a encosta.

Se ele soubesse, no arranchamento,
quanto tempo teria pra história contar...

Se valeu a pena, se não foi em vão...
Se o lombo duro do manso burro ,
sôfrego rumo tomou e perseverou ...

Então me atrevo a profetizar:
“Valeu a pena, sempre vale a pena,
pois como pensam PESSOAS da vida,
tudo é possível, tudo vale a pena,
quando noss’alma não fica pequena.”

Tristão agora carece na memória,
falta em caminhos e carinhos seus.

Curioso luso biriva que surgiu mansinho,
pra sempre em seu baú ficou
e nos versos meus.

*BIRIVA ou BIRIBA – BERIVA ou BERIBA:
Epíteto que moradores das povoações dão no RS aos habitantes da região serrana; é termo depreciativo. (Apolinário Porto Alegre)
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