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Guia de Gramado RS - Serra Gaúcha - Brasil

Gramado RS - Serra Gaúcha

Texto publicado em 26/09/2003* - 13:47, sexta-feira.por Prof. Darli Alves
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 11 anos!
A Independência do Brasil
A Independência do Brasil na visão do Prof. Darli Vianei Alves

Em Portugal existe sete de setembro? O leitor mais atento, com toda certeza responderá que sim. Só que lá, nesta data não é feriado e também não há comemorações.

Para os brasileiros o dia 7 de setembro é um dos feriados mais aguardados do ano. Nesse dia um verdadeiro culto cívico é prestado à Pátria com realizações de desfiles pomposos nas principais ruas e avenidas do Brasil.

O que temos para comemorar? A Independência do Brasil?!! Quem a proclamou e por quê? O Brasil é independente? O que caracteriza uma nação livre? Bem... vejamos...


Durante 322 anos o Brasil de águas infindas, de bons ares, de lindas matas povoadas de pássaros e animais, ouro e produtos tropicais, índias e mulatas, era a melhor colônia portuguesa existente no mundo. Nesses três séculos enviamos a Portugal toneladas de pau-brasil, açúcar para refino e ouro, além de couro, tabaco, algodão..., riquezas para fazer de Portugal um dos países mais poderosos do mundo, o que não se concretizou na prática, talvez, daí, tantas piadas de português...

A vinda da Família Real portuguesa ao Brasil, em 1808, foi vital no processo da Independência do Brasil. As 36 embarcações que aqui aportaram trazendo à bordo cerca de 15 mil pessoas da mais alta linhagem lusitana, possibilitaram ao príncipe regente Dom João promover importantes medidas, tais como: abertura dos portos brasileiros, para o comércio com as nações amigas, fundação da Academia da Marinha e Militar, Banco do Brasil e da imprensa régia. Logo as principais vilas e cidades foram contempladas com praças, teatros e bibliotecas. Casas foram construídas e reformadas. Surgiram muitas lojas, oficinas, livrarias, salões de barbeiro, padaria, tabacarias, hospitais, escolas... e, em 16 de dezembro de 1815, o Brasil foi elevado a condição de Reino Unido a Portugal e Algarve.

Tudo corria bem no Brasil, menos para os escravos e trabalhadores, basta lembrar a Revolução Pernambucana em 1817. Em Portugal, após serem expulsas as tropas napoleônicas, um general inglês foi nomeado comandante do exército português e governador do reino, causando um grande mal estar, culminando com a Revolução do Porto em 1820. Vitoriosos, os revolucionários lusitanos tomaram o poder e exigiram o retorno da Família Real a Portugal, a fim de que Dom João VI aceitasse a nova Constituição e que o Brasil fosse recolonizado.

Em abril de 1821, com medo de perder o trono, Dom João retornou para Portugal, porém esvaziou os cofres do Banco do Brasil, levando quase todo o ouro para Portugal. Antes de partir, aconselhou seu filho mais velho para que ficasse e procurasse o mais rápido possível proclamar a Independência do Brasil antes que algum “aventureiro” o fizesse, a exemplo das colônias espanholas.

Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o “Pedrinho” para os íntimos e “rapazinho” para a Corte de Lisboa, contava com apenas 23 anos quando se preparava para ser rei do Brasil. Não entendia quase nada de política. Criado solto numa fazenda, a 80 Km do Rio, Pedro brincava sozinho na mata, brigava a pau e soco com outras crianças e bolinava as escravas. Apesar de ter epilepsia congênita, tinha predileção por cavalos levando 36 quedas e uma paixão o dominava: “o belo sexo”, tendo várias amantes, sendo a principal, Domitila de Castro, de quem fez Marquesa de Santos, com quem teve quatro filhos. Gostava de usar roupas de algodão e chapéu de palha, de tomar banho nu na praia do Flamengo. “Ria, debochava e zombava com quem quer que fosse”. Agora estava diante de uma grande responsabilidade, a de tornar o Brasil livre de Portugal.

Dom Pedro aceitou a sugestão do pai e também os conselhos de José Bonifácio após receber um documento contendo oito mil assinaturas pedindo pela sua permanência no Brasil. Emocionado, o príncipe regente, numa cerimônia realizada no dia 9 de janeiro de 1822, desafiando a Corte portuguesa, que exigia seu retorno a Portugal, anunciou solenemente sua decisão: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”. A ruptura era iminente e as tropas lusas se amotinam no Rio, mas acabaram expulsas do Brasil. Um ministério efetivamente brasileiro foi criado sob a liderança de José Bonifácio e, no dia 4 de maio, Dom Pedro decretou que nenhuma medida das cortes seria aplicada aqui sem o “cumpra-se” do príncipe, recebendo por tal medida, no dia 13, o título de “Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil”.

A tensão aumentou ainda mais quando no dia 1º de agosto, o regente declarou inimiga qualquer tropa portuguesa que desembarcasse no Brasil. Para acomodar as desavenças internas ente os conservadores que desejavam a União do Brasil com Portugal, e os radicais, que queriam a ruptura definitiva com a Metrópole, Dom Pedro partiu no dia 14 para São Paulo.
No dia 7 de setembro, ao regressar de Santos para São Paulo “usando uma roupa simples de viagem e montado em uma prosaica e usual mula”, após a noitada com Domitila de Castro, Dom Pedro fez algumas paradas no caminho para “aliviar o ventre”, uma disenteria lhe carcomia as entranhas o que o “obrigava a todo momento a apear-se para prover”. Por volta das 16h30min, cruzou com os emissários Paulo Bregaro e o major Antônio Ramos Cordeiro, na colina ao lado do riacho do Ipiranga (hoje um esgotão) “que lhes trouxeram quatro cartas: duas da esposa Leopoldina, uma do cônsul inglês Henry Chamberlain e outra de José Bonifácio”.

“Segundo uma das testemunhas que deixaram o relato sobre o evento, o alferes Francisco de Castro C. Melo, o príncipe leu ele mesmo os papéis que lhe traziam. Segundo outra, o padre Belchior P. de Oliveira, foi quem leu as cartas para o príncipe. Os papéis davam conta de resoluções das Cortes que avançavam no propósito de fazer o Brasil regressar à condição de colônia”. Após a leitura dos quatro documentos, Dom Pedro, tremendo de raiva entre a fúria e a loucura, arrancou os papéis das mãos do padre, amarrotando-os e pisoteando-os na relva e depois de abotoar e compor a farda, pois vinha de trás da “moita” a quebrar o corpo e perguntou ao padre o que fazer? E o padre respondeu que se ele não se fizesse logo rei do Brasil “seria prisioneiro das Cortes e talvez deserdado por elas”. Depois de alguns instantes em silêncio caminhando com o padre e alguns integrantes da comitiva em direção aos animais que se encontravam à beira da estrada, parou e disse: “As Cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de Rapazinho e Brasileiro. Pois verão agora quanto vale o Rapazinho. De hoje em diante nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal!”. Em seguida a Guarda do príncipe que se encontrava numa venda próxima, foi reunida e comunicada de sua decisão, quando Dom Pedro anunciou “amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas, nenhum laço nos une mais”. Arrancando a insígnia portuguesa de seu uniforme e ordenando aos soldados que fizessem o mesmo, colocou-se à frente da sua guarda, desembainhou a espada, enquanto os paisanos tiraram o chapéus e disse: “pelo meu sangue, pela minha honra e pelo meu Deus: farei do Brasil um país livre”. Em seguida erguendo-se nos estribos da mula e alcançando a espada, afirmou: “Brasileiros, de hoje em diante nosso lema será: INDEPENDÊNCIA OU MORTE”.

Naquela bela tarde, apenas 38 pessoas ouviram o “heróico brado retumbante” de D. Pedro. À noite, na cidade de São Paulo, o príncipe e sua comitiva divertiam-se assistindo a uma peça teatral, enquanto os escravos e o povo ficavam longe das comemorações e das articulações de nossa independência, “o sol da liberdade em raios fúlgidos” só brilhou para os escravos 66 anos depois.

D. Pedro se tornou o primeiro rei do Brasil aos 24 anos, no dia 1º de dezembro de 1822. O primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil foi os Estados Unidos, no ano de 1824, baseando-se na Doutrina Monroe cujo lema era “A América para os americanos”. Portugal reconheceria a independência brasileira um ano depois mediante o pagamento de uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas, emprestado pelos ingleses (dívida externa).

Hoje, 181 anos depois, a situação se repete. O povo continua fora das decisões políticas enquanto potências estrangeiras mandam em nosso país. A insegurança toma conta dos brasileiros: desemprego, violência e muitos políticos corruptos. Nunca em toda a história se produziu tanta violência. Uma pessoa é assassinada a cada 13 minutos no país e o número de seqüestros e chacinas vem aumentando consideravelmente. O trânsito brasileiro se encarrega de matar cerca de 30 mil pessoas por ano. A FEBEM e presídios estão lotados, e milhares de crianças se prostituem nas ruas (somos o país campeão mundial de prostituição infantil e morte de crianças). É notório que nossas instituições e os políticos estão muito aquém do que poderiam fazer para nossa “brava gente brasileira”. Hoje é um dia de reflexão, paixão e amor incondicional. Dia de sonhar com um amanhã promissor, onde todos possam exercer livremente a cidadania, num país verdadeiramente democrático, não de intenções, mas de ações transformadoras. É dia de acreditar que podemos quebrar os grilhões que nos oprimem, é tempo de INDEPENDÊNCIA!!!.

Autor: Darli Vianei Alves
Detalhe de um quadro de Pedro Américo. Mera alegoria ao que de fato ocorreu nas margens do Ipiranga a 7 de setembro de 1822. Fonte: MARANHÃO, Ricardo., Antonio & RONCARI, Luiz. Brasil história: texto e consulta: império. 5 ed. São Paulo:
Hucitec, 1991, v.2, p. 149-156.

RODRIGUES, José Honório. Independência: Revolução e Contra-Revolução – A Evolução Política. Rio de Janeiro,
Ed. Livraria Francisco Alves, 1975, vol. 1, p. 249-51. In: Hilário Barbian. Os detalhes do grito do Ipiranga.
Jornal da Manhã, 7/set/1993. p. 16.

BUENO, Eduardo (Coord.). História Ilustrada do Brasil. Zero Hora. Porto Alegre, 1998. p. 113-120.

TOLEDO, Roberto Pompeu de. Ataque ao sete de setembro. Veja, 13/set/1995. p.132-33.

SECCO, Alexandre. Socorro! Um assassinado a cada 13 minutos. Veja, 7/jun/2000. p. 132-139.

DIMENSTEIN, Gilberto. Mais morte do que independência. Folha de São Paulo, 7/set/1993, p. 2.

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