A paixão é uma doença. É uma psicose. Não considero a paixão como um sentimento. Se Nietzsche matou Deus, eu me proponho a matar a paixão!
Na verdade, a paixão se diferencia do amor, que por sua vez não se diferencia do ódio. Amor e ódio são sentimentos absolutamente iguais. Eles caminham em linha paralela. Quanto mais se ama uma pessoa, mais chance se terá de odiá-la na mesma proporção.
O que deve ser destacado é que tanto o amor como o ódio são considerados sentimentos. Existem casais que permanecem casados por 40 anos. Alguns desses casais passam 40 anos se amando, outros passam 40 anos se odiando. Ocorre que tanto o amor quanto o ódio “seguram” uma relação! Fazem-na duradoura!
O verdadeiro término de um relacionamento se dá com a indiferença. Quando um dos companheiros passa a ser indiferente ao outro, o fim do relacionamento será inevitável. A indiferença é a ausência de sentimento, e sem sentimento nenhuma relação perdura.
A nossa sociedade atual possui uma capacidade incrível de fazer com que nasçam “amores relâmpagos”. Com eles, como não poderia deixar de ser, nascem promessas de convívio mútuo até o fim dos dias.
No “amor relâmpago”, existe uma verdadeira “síndrome de abstinência” quando não se está com a pessoa “amada”. Nessas situações, as pessoas expressam sentimentos cuja origem é desconhecida por elas próprias.
O que se deve deixar claro é que se apaixonar e se “desapaixonar” de forma relâmpago é absolutamente normal. Ocorre a todo momento, sendo, inclusive, saudável para o ser humano. O amor instantâneo faz o cérebro produzir uma avalanche do neurotransmissor dopamina. Isso faz com que os apaixonados sintam um prazer incomparável em estar juntos todo tempo.
O excesso de expressões como “eu te amo” e de “você é a pessoa que sempre sonhei para mim” possui uma origem muito mais complexa do que se pode imaginar.
Na verdade, o “amor relâmpago” possui uma faceta interessante. Esse sentimento desmedido é expressado num verdadeiro extrapolamento libidinal, ou seja, há uma anulação de si pela via do enaltecimento do outro enquanto objeto da paixão. Na verdade o “eu te amo” deve ser traduzido como “eu me amo”, assim como o “você é a pessoa que sempre sonhei para mim” deve ser traduzido como “eu sou a pessoa que sempre sonhei para mim mesmo”.
Em 1914, Freud escreveu um artigo intitulado “Narcisismo”. Ele fez uma análise psicanalítica entre a paixão amorosa e o conceito de narcisismo. Nesse texto, ele escreveu que “o apaixonamento é como uma revivência das relações primárias do sujeito infantil, em um encontro que busca recuperar ou reviver as impressões outrora experienciadas”.
No mesmo sentido, o filósofo Ovídio, na sua clássica obra intitulada “Metamorfoses”, já dizia que “o objeto de teu amor não existe: esta sombra que vês é o reflexo da tua imagem (...) Ela não é nada em si, é de ti que ela surgiu, é em ti que ela persiste, tua partida a haveria de dissipar, se tivesses a coragem de partir”.
O “amor relâmpago” nada mais é do que uma projeção. Não se está “amando” o outro, mas a si mesmo. Esse “tipo” de amor nada mais é do que uma ferida narcísica mal curada. Há uma hipnotização por si mesmo.
Enquanto que no amor verdadeiro se busca o preenchimento de uma lacuna, no “amor relâmpago” se busca transformar o Outro num só ser.
Todo “amor relâmpago” está fadado ao fracasso. Ele não perdura no tempo! Um dos personagens da relação enxergará o Outro como um objeto para tentar reconstruir ou reencontrar “amores” vividos em outra fase da vida. Esse sujeito quer ser com o Outro sem nele se perder. O psicanalista Winnicott chamou isso de “capacidade de estar só”.
Na verdade, devemos buscar a aceitação do Outro. Uma aceitação do Outro como sujeito autônomo, com todas suas imperfeições e limites, todavia mantendo certa magia. Essa é a verdadeira tradução de “alteridade” em Emmanuel Levinàs. Talvez dessa forma se possa encontrar o verdadeiro amor.
Enquanto isso não acontece, sugiro que o “amor relâmpago” seja praticado à exaustão. Afinal, nada melhor do que receber amor, mesmo que de forma desvirtuada. |  | |