O processo de secularização que vivenciamos na atualidade nos conduziu à perda dos princípios fundamentais que regem o comportamento humano. Em termos de praticidade, pode-se afirmar que um “ethos” normativo com a capacidade de orientar as atitudes de cada ser humano e as decisões dos mesmos, parece melancolicamente fadado ao desaparecimento. Essa realidade revela uma situação de tragicidade nas relações social, política e religiosa. Isso atinge a essência daquilo que proporcionava uma referência segura à sociedade e uma lacuna a qual se pretendia ser preenchida pela absolutização da ciência como motora e condutora dos parâmetros humano, religioso, além do próprio científico.
A Pretensão da ciência, na berlinda da história, em ser resposta ao sentido último do ser humano A presença da tecnologia no mundo do trabalho e da cultura tem alterado significativamente as relações intra e interpessoais, incluindo o papel da Igreja na sociedade. Não podemos esquecer a influência da informática nos meios de comunicação social, que alterou o conceito de tempo e espaço, do comportamento dos seres humanos e, naturalmente, o modo de organizarem-se como sociedade. Partindo daí, essa realidade atinge, de forma certeira, as diversas transações na economia e, com isso, todas as instituições sociais. Outro aspecto interessante a ser observado nessa realidade, é a consciência de que a linguagem é um veículo tão significativo, que a mesma pode atingir a “verdade”. Não há dúvida de que esta pretensão não tem sustentabilidade real, já que o “real” jamais será atingível pelo que se vê, mas está além do visível. “Os limites da linguagem denotam os limites do meu mundo” (Wittgenstein). Assim, o que se percebe é que “(...) o caráter plural da linguagem, em sua íntima conexão com a cultura, acenou também para a necessária ruptura com modelos absolutos de verdade e com a construção de modelos que apontem para a verdade vista a partir das relações horizontais efetuadas historicamente” (SOUZA, Ney. Org. Teologia em Diálogo: os desafios da reflexão teológica na atualidade. p. 16. Ed. Santuário: 2010). E continua o texto: “(...) a própria ciência já não pode mais ser vista em um caráter de exatidão, de certezas e isenção de erros e limites. Também a ciência está atualmente marcada por uma nova busca de sua identidade epistemológica e de sua função social” (apud. CASTELS, Manuel.
A Era da Informação: economia, sociedade e cultura). As raízes da crítica à religião e, principalmente às instituições religiosas devem ser buscadas em Ludwig Feurbach, no seu “niilismo”, ao anunciar a “morte de Deus”; embora sua crítica não significasse um ataque ontológico a Deus, mas uma crítica à religião, fundada na metafísica conceitual, imbuída de valores morais denotativos da inibição da liberdade humana (HEIDEGGER, Martin. Caminhos de Floresta. pp. 214-306. Fundação Caloste Gulbenkian, Lisboa: 1998). O neologismo “presenteísmo” precisa de certo ajuste ante o contexto atual marcado pelo relativismo, pela indiferença e pela ausência de identidade no contexto da civilização pós-moderna. O mesmo parece ser mais um eufemismo a fim de negar ou dar menos peso à influência das raízes que antecederam o atual estágio técnico, cultural e religioso. Pois, assim como é possível verificar que o mesmo não nega, pelo menos abertamente, o paradigma que antecede os avanços culturais da atualidade, por outro lado, abre uma fenda significativa a uma futura negação objetiva dos valores das etapas históricas do passado. Vemos também que esta pode significar à fé cristã, a ruptura e a sua rejeição em todos os níveis, substituindo a ciência e seus pressupostos na religião da humanidade. Para tanto, a Igreja necessita ter “novo ardor e novos métodos” (João Paulo II), para contrapor uma sociedade sem identidade; também se deve lembrar que a própria ciência passa por uma crise de identidade e é marcada atualmente pela busca de uma identificação epistemológica na sua função social.
O Desafio atual da teologia em refazer o conceito do divino A Páscoa da Ressurreição é a razão primeira que fundamenta o sentido da nossa fé católica, como Paulo diz: “Se Cristo não tivesse ressuscitado vã seria nossa fé” (1Cor 15,14). Somente em Jesus é que podemos conhecer Deus. Esta é a razão pela qual Jesus disse a Felipe: “Aquele que me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). “Em Jesus se concretizou o grande acontecimento que marcou definitivamente a história das tradições religiosas da humanidade. No homem Jesus, o divino fundiu-se com o humano, de tal modo que, a partir de Cristo, ficou demonstrado que Deus é diferente do que se supõe. Porque o distintivo mais profundo de Deus não é sua divindade – que nem sabemos o que é, nem podemos sabê-lo –, mas sim sua humanidade. Sem dúvida está radicado o mistério profundo de Deus que, sem deixar de ser o Transcendente, é a realização mais plena e mais profunda da humanidade” (CASTILLO, José M. A Ética de Cristo. p. 30. Loyola, SP: 2010). A missão da Igreja está em superar os antigos esquemas petrificados e abrir-se à compreensão de uma sociedade que chega hoje ao limite suportável a qualquer ser humano. O homem busca com sede ver o rosto de Deus, embora esse se manifeste no humano. Todos passamos a participar da divindade de Deus, quando Jesus, no Mistério da Encarnação, entra na história humana e nos dá o Toque do Sentido. Pense e reflita! |  | |