A paranóia do poder é o desmantelamento da democracia, da vida e da civilização

Economiaenegocios Artigos 10 Julho / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

As atuais crises partem do desvinculamento de uma equivocada visão antropológica. Todo o ser humano foi criado à “...imagem e semelhança de Deus”. (Gn 1,27). Ora, em nenhum lugar encontra-se uma hierarquia criada por Deus a não ser a do homem em relação a todas as criaturas. Mas como humanos somos responsáveis uns pelos outros, embora com funções e responsabilidades diferentes. No entanto é preciso frisar que enquanto humanos, somos todos irmãos uns dos outros. Ao retornar às nossas raízes, urge fazer uma leitura minuciosa desta verdade sobre a igualdade, aliás, que não coaduna com o igualitarismo. Pois, somos diferentes uns dos outros com qualidades e carismas diversos, o que não significa superioridade uns sobre os outros, de modo especial em relação aos mais simples e humildes. No entanto, no decurso do tempo percebe-se que o “homo faber” na medida em que foi se desenvolvendo e descobrindo novas tecnologias que lhe facilitaram a vida, o mesmo paulatinamente inverteu o objetivo último de sua própria criação; conduta que atingiu a essência do sentido da vida como um todo. Na pós-Idade Média, ou seja, século XVI com o advento do Renascimento há uma retomada da valorização da razão, bebendo novamente na visão de homem da antiguidade clássica. Daí em diante houve uma significativa promoção da razão, aliás, que em princípio foi positiva. Por outro lado, avançando no tempo se chegou ao auge no século XIX, com a absolutização da razão expressa pela afirmação: “A razão é guia infalível de toda a verdade”. O século XX, talvez tenha sido a expressão mais concreta e trágica dessa expressão. A ideologia da “dialética do Iluminismo”, que além de esvaziar o sentido último do ser humano e esquecer sua razão de ser, legou para o século posterior uma das fases mais trágicas e sangrentas da humanidade. É o início da modernidade com seus paradoxos e a fragmentação de tudo. Elege-se como verdade última a economia de mercado e o feroz capital financeiro com seus protagonistas entre tantos, com destaque a Adam Smitt com sua publicação “A riqueza das Nações”. O que permeia os bastidores dessas situações limites que conduziram a humanidade, com destaque ao Ocidente, a terem um abismo entre a ecologia humana e ambiental? Toda vez que o ser humano fecha-se sobre si mesmo, acontece na praticidade existencial uma frieza contra a própria vida humana e a natureza, da qual o homem também faz parte. O catecismo da Igreja Católica no nº 2259 aponta o texto bíblico de (Gn 4,7), que tem referência à narrativa da morte de Abel por seu irmão Caim. Este “...revela, desde os primórdios da história humana, a presença no homem da cólera e da inveja, consequência do pecado original. O homem torna-se inimigo do seu semelhante. O irmão mata o irmão. É o primeiro fratricídio. Também em cada homicídio é violado o parentesco “espiritual’, que congrega os homens numa única grande família, sendo todos participantes do mesmo bem fundamental: a igual dignidade pessoal”. (João Paulo II, papa – Evangelii Vitae – Evangelho da Vida – Sobre a inviolabilidade da vida humana). É necessário se ter consciência de que “...na raiz de qualquer violência contra o próximo, há uma cedência à “lógica” do maligno, isto é, daquele que “foi assassino desde o princípio”. (Jo, 8,44). Caim ao ser interpelado por Deus sobre a sorte de seu irmão Abel em vez de mostrar-se confundido e desculpar-se, esquiva-se à pergunta com arrogância: “Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão? (Gn 4,9). “Não sei nada dele”: com mentira Caim procura encobrir o crime”.(ibidem). Ao lançar um olhar sobre o mundo globalizado e o nosso país, fica patente que o episódio bíblico pode nos ajudar a compreender esse retrato confuso e trágico que se vive na atualidade em nível mundial como local. O comportamento frio e calculista de muitos de nossos estadistas responsáveis pelo bem comum da nação, que agem com frieza, pois “...se servem das mais diversas ideologias para justificar e mascarar os crimes mais atrozes contra a pessoa”. “Sou, porventura, guarda do meu irmão?. (ibidem) E segue: “...Caim não quer pensar no irmão e recusa-se a assumir aquela responsabilidade que cada homem tem pelo outro. Saltam espontaneamente ao pensamento as tendências atuais para sonegar a responsabilidade do homem com seu semelhante. Os sintomas, entre outros, são a falta de solidariedade com os membros mais fracos da sociedade, como os idosos, os doentes, os imigrantes, as crianças -, e a indiferença que tantas vezes se registra nas relações entre os povos, mesmo quando estão em jogo valores fundamentais como a sobrevivência, a liberdade e a paz”. A realidade de nosso país deixa qualquer cidadão estarrecido e paralisado ante a indiferença de “homens públicos”, com exceções, encharcados de cinismo e de ambição desmedida do poder pelo poder. É preciso mais do que nunca o exercício da cidadania para dar um basta a essa situação que constrange a todos nós. O conformismo do “sempre foi assim” é um dos novos pecados capitais. Nada que esteja no tempo e no espaço é definitivo. Não existem partidos de esquerda ou direita, existem estadistas que jamais deviam estar onde estão, talvez por nossa culpa de achar que sempre foi assim.

INFELIZMENTE, HÁ IMPOSIÇÃO DE UMA CULTURA ANTI-SOLIDÁRIA
Esse imaginário se configura como uma cultura de morte promovida por fortes correntes culturais, econômicas e políticas, portadoras de uma concepção eficientista da sociedade. Toda e qualquer organização, mormente, os dirigentes das nações, hoje em especial o Brasil, tem uma fome de poder que buscam a qualquer preço, não importando os meios usados. Isso significa na prática uma decadência explícita da vida, da democracia participativa, que consequentemente induzem as pessoas ao isolamento e elegem ideologias de dominação. Não há espaço para uma autêntica e criativa civilização fraterna. Não se consegue perceber e sentir o futuro solidário, e sim, o desmoronamento do civismo como do patriotismo com a exploração dos mais fracos, pobres, excluídos e marginalizados do tecido social.

Até quando?
É bom pensar!

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