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O amor em quatro patas
Pode parecer estranho, mas é no convívio com os bichos que a pessoa revela o que tem de mais humano

Guilherme Drago
por Guilherme Drago
Texto publicado em 08/10/2008* - 11:12, quarta-feira.
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Mais antiga que a civilização, a domesticação de animais mudou de sentido com o passar do tempo. Pode parecer estranho, mas é no convívio com os bichos que a pessoa revela o que tem de mais humano.

Debaixo do mesmo teto, os animais se misturam à vida das pessoas, numa troca de companhia e amizade, numa relação muito mais além do que qualquer sentido utilitário.

Entretanto eu fico me questionando: o que me leva, num mundo cada vez mais urbanizado e moderno, a apreciar tanto a companhia da minha cadela “Kim”?!
Sinceramente acredito que a “Kim” influencie diretamente na minha saúde física e mental. É como se eu tivesse uma necessidade psicológica que acaba por ser preenchida por ela.

A rotina exaustiva de trabalho e estudo nem sempre deixa tempo (ou cabeça) para que as pessoas dêem ou recebam carinho na hora em que desejam. Assim, se o “bicho humano” mais próximo está ocupado ou ausente, a alternativa para muitos é afagar o de quatro patas mesmo!
Lógico que existe uma distância enorme entre criar uma criança e um bichinho de estimação, mas as duas atitudes parecem ter certos pontos em comum. Pessoas ou animais têm de ser alimentados, protegidos, cuidados em sua saúde, além da necessidade que têm em receber carinho. A diferença aparece exatamente quando crescem! Os filhos viram adultos e saem de casa, mas os animais continuam completamente dependentes a vida toda, e por isso podem ser amados egoisticamente como filhos que jamais crescem, como eternas crianças, em oposição aos filhos verdadeiros que um dia batem asas para formar suas próprias famílias.

O animal está na vida do ser humano como companheiro – e também dentro dele. Pelo menos foi assim que o psicanalista Carl Jung viu os animais enquanto símbolos, na medida em que representariam o lado mais instintivo do homem – a porção fera de cada um!
Esse “animal símbolo” estaria gravado no que Jung chamava de o “inconsciente coletivo”, uma espécie de memória geral da espécie humana presente em nossa mente.

Assim, se uma pessoa souber lidar satisfatoriamente com o seu animal interno, possivelmente vai se dar bem com os animais reais! Todavia, se ocorrer o contrário, é provável que uma pessoa acabe por não gostar de animais, vindo, inclusive, a maltratá-los. Sim! O ser humano agride os animais, mas também organiza sociedades protetoras de animais!
Num momento de raiva, no entanto, crianças ou adultos podem descarregar suas frustrações em cima do bicho, que geralmente não revida, a não ser que tenha tamanho suficiente para tentar dar uma mordiscada de leve. Esse, na minha opinião, é o lado mais negativo da relação das pessoas com os animais!
Desde que não se desemboque para o espancamento gratuito, estas desavenças são, porém, comuns a qualquer paixão. Com freqüência a “Kim” e eu discutimos! Contudo, na maioria das vezes, ela me escuta sem me recriminar. Muitas vezes sofre comigo e, ao mesmo tempo, tenta me alegrar!
Aliás, bicho parece não ser consolo só para crianças ou adultos. Os idosos padecem de um isolamento gradativo devido à idade e ao culto da juventude que permeia nossa cultura ocidental. Com a pele enrugada e as mãos encarquilhadas, muitas vezes fica difícil para uma pessoa idosa tocar e ser tocada (nem todo mundo gosta do contato com uma pela que já não é mais macia). Sem a discriminação praticada pelos humanos, os animais, sobretudo os cachorros e gatos, aceitam e retribuem o carinho de um idoso com o maior prazer.

Por isso, se não encontra mais a atenção de parentes próximos, uma pessoa de idade acaba por suprir suas necessidades afetivas graças a um animal!
Na verdade, não só os cachorros, as cadelas ou os gatos, mas uma infinidade de animais podem se tornar grandes amigos ou amigas dos humanos. Aliás, eles estão aí exatamente para dividir amizade, companheirismo e afeto, resgatando muitas vezes uma intimidade esquecida por aqueles seres que se julgam “racionais”.
   
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