Culturas e evangelização: Desafio da Igreja para o século XXI

Economiaenegocios Artigos 24 Fevereiro / 2014 Segunda-feira por Padre Ari

“A evangelização é dever da Igreja (...) este sujeito da evangelização, porém, é mais do que uma instituição orgânica e hierárquica: é, antes de tudo, um povo que peregrina para Deus. Trata-se certamente de um mistério que mergulha as raízes da Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão institucional’(EA-nº111).
Partindo dessa assertiva percebe-se a complexidade em que envolve o processo de evangelização quando a Igreja inserida numa cultura dominada por ideologias individualistas, pragmáticas e utilitárias sente que um elemento fundamental a ser confrontado, é o rompimento dessa visão fragmentada da realidade do tecido social. Nesse quadro se faz necessário verificar o desconforto dos agentes de pastoral, mesmo de sacerdotes, religiosos e bispos muitas vezes com uma visão de relaxamento de espaços de autonomia. O risco dessa metodologia pastoral é que a mesma carrega no seu bojo um problema que atinge a própria identidade da fé cristã ao misturar a lisura da mensagem do evangelho, com elementos do individualismo da cultura vigente. “...a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que não são alimentados para o encontro com os outros, o compromisso com o mundo, a paixão pela evangelização, não obstante rezem, há uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor”(EA-78) O individualismo é uma forma de vida mais perigosa que a doutrinal, pois agem como se Deus não existisse, tem atitudes aparentemente sólidas, convicções doutrinais e espirituais, mas por outro lado, acabam caindo num estilo de vida que os leva a se agarrar em seguranças econômicas em vez de dar vida pelos outros na missão.


DESAFIOS A SEREM SUPERADOS PARA UMA EFICAZ EVANGELIZAÇÃO

A (EA) aponta sérios problemas de natureza interna da Igreja que urge uma mudança total para que de fato a mesma volte a ter a credibilidade e um terreno fértil para o anúncio do evangelho.
Citamos alguns desses desafios.
1. O ciúmes e invejas entre cristãos e ministros ordenados.
2. Busca de poder, prestígio, prazer ou segurança econômica.
3. Em algumas comunidades cristãs, sejam Dioceses, Paróquias, até mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme e desejos de impor as próprias ideias, a todo o custo e com perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas.
4. O excessivo clericalismo tanto da parte de ministros ordenados como de leigos a serviço das comunidades.
5. A falta de sacerdotes e leigos preparados para evangelizar as categorias profissionais e intelectuais.
6. Maior valorização da mulher. (...) o gênio feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho e nos vários lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais. (EA-103).
O documento faz uma observação importante sobre o sacerdócio que é reservado aos homens quando diz: “O sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se a gente identifica demasiada a potestade sacramental com o poder”. (EA-nº104).
7. A ausência de uma linguagem adequada para a evangelização dos jovens.
8. A escassez de vocações ao sacerdócio e à vida consagrada (...) fica-se a dever à falta de ardor apostólico contagioso nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza pelas vocações e tem coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração.
9. Apesar da escassez de vocações há necessidade de selecionar melhor os candidatos ao sacerdócio. Não se podem encher os seminários com qualquer tipo de motivações e menos ainda se estas estão relacionadas com insegurança afetiva, busca de formas de poder, glória humana ou bem-estar econômico. (EA107).
São alguns dos desafios!


A MISSÃO DE EVANGELIZAR TODOS OS POVOS EXIGE CLAREZA CONCEITUAL DE CULTURA E A ESSÊNCIA DA FÉ

A fé cristã tem muitos rostos e faz-se necessário conhecer um correto conhecimento antropológico e o que fundamenta uma teologia que retrata rostos diversos. Talvez nesse momento da história a Igreja como instituição terá que novamente internalizar que a missão não possui apenas um rosto, seja europeu, latino e norte americano, negro, asiático, e etc., mas muitos outros.
“O povo de Deus se encarna nos povos da terra, cada um dos quais tem a sua cultura própria”. (EA nº115).
E continua: “A noção de cultura é um instrumento precioso para compreender as diversas expressões da vida cristã que existem no povo de Deus (...) trata-se do estilo de vida que uma determinada sociedade possui, pois a cultura abrange a totalidade da vida de um povo. Cada povo, na sua evolução histórica, desenvolve a própria cultura com legítima autonomia”. A (EA) insiste na questão da enculturação da fé e afirma: “O ser humano está sempre culturalmente situado: natureza e cultura encontram-se intimamente ligadas (...) a graça supõe a cultura e o dom de Deus encarna-se na cultura”. (ibidem).
Olhando retrospectivamente a história da Igreja pode-se ver: “...a quantidade inumerável de povos que recebeu a graça da fé, florindo na sua vida e transmitida segundo as próprias modalidades culturais.(...) quando uma comunidade acolhe o anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força transformadora do Evangelho”(EA-nº116).
O documento frisa de que o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural, mas deve assumir o rosto das diversas culturas e dos vários povos onde for acolhido e se radicar. Com essa postura a Igreja retrata a sua catolicidade e mostra “a beleza deste rosto multiforme”. Por outro lado, nessa pluriformidade de manifestações culturais o Espírito Santo embeleza a Igreja mostrando-lhe novos aspectos da Revelação com rostos novos.
Portanto, através da enculturação a Igreja “introduz os povos com as suas culturas na própria comunidade, porque cada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o evangelho é pregado, compreendido e vivido”. (ibidem).

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