Os valores tornam a vida valiosa e, em longo prazo agregam valor a uma empresa e/ ou organização.

Economiaenegocios Artigos 23 Outubro / 2017 Segunda-feira por Padre Ari

A surpresa com que muitos leitores se defrontaram foi de se perguntar: O que tem a ver economia com a espiritualidade? Tal questionamento retrata o quanto a ideologia da fragmentação imposta pela “dialética do iluminismo” tem sedimentado o imaginário político socioeconômico e também religioso da cultura em curso como realidades estanques desvinculadas da totalidade.
Nesse processo entende-se a complexidade e confusão que se passa no atual contexto do tecido social contemporâneo. O mesmo não encontra uma saída digna tanto para o crescimento sustentável e inclusivo em todas as áreas, como para responder aos conflitos existenciais do ser humano, já que o mesmo é um ser de significado e busca a realização como fim último.
Nesse emaranhado de ideologias que ainda permeia a cultura contemporânea se percebe que as mesmas não conseguiram preencher o prometido durante décadas, pois elegeram a parte esquecendo-se do todo, fragmentando com isso o próprio conceito de antropologia cujo princípio sempre deve ser tríplice: cognitivo, biológico e espiritual.

Já tenho abordado em outros artigos o quanto é importante à gestão de qualquer organização seja empresarial, política, social, familiar e também religiosa os valores como suportes básicos para edificar uma sociedade saudável, fraterna e inclusiva.

Ao lançar um olhar retrospectivo na história veremos que já na antiguidade clássica na filosofia grega os elementos propostos como referência para uma sociedade regida por aquilo que filósofos definiam como as “virtudes cardeais”, aliás, adotadas também pela tradição cristã, que posteriormente agregou mais três virtudes cristãs: fé, esperança e amor.
Todos esses valores estão ligados à natureza do ser humano, pois sempre vão proteger a dignidade humana independente de religião ou de cultura. Sem margem de dúvida é um paradigma que tem grande validade e atualidade nessa cultura hodierna que infelizmente não possui referência alguma que abra perspectiva para um futuro com sentido.

As virtudes como justiça, fortaleza, temperança e prudência são fundamentais na condução de qualquer empresa e/ou organização. “Quem semeia justiça, colhe paz”. Estruturas injustas numa empresa perdem muita energia. Sempre é bom ter presente que: “...empresas que possuem estruturas internas justas exportam não só mercadorias, mas também valores (...) pelo sistema salarial justo e pelo tratamento justo de seus funcionários, elas criam um clima que se irradia também para a sociedade e contribui para cunhá-lo”. (GRÜN, Anselm – ZEITZ, Joche – Deus, Dinheiro e Consciência – Vozes – 2012).

No entanto vive-se hoje uma lógica que paulatinamente precisa ser erradicada do contexto dos empreendimentos, ou seja, o fascínio cego pelo sucesso a qualquer preço. Daí as exigências de metas, sem a justa medida de cada ser humano. Isso tanto da parte do sujeito como das empresas. Por que tantas pessoas em nosso meio adoecem?
“...porque fazem exigências desmedidas a si mesmas: acham que devem ser sempre bem sucedidas, sempre perfeitas que devem, sempre animadas, sempre calmas e otimistas”. (ibidem). É um engano grotesco, afinal cada ser humano possui o seu ritmo e seu tempo. Quando tal realidade é ignorada as consequências logo se fazem sentir: depressão, estresse, desânimo etc. Afirmam os psicólogos; “...a depressão disseminada hoje é um grito de socorro da alma contra essas exigências desmedidas feitas a si mesma.
O gestor do futuro terá sempre mais a necessidade de levar em conta as virtudes tanto cardeais quanto as teológicas, pois com tal postura fará a diferença no desenvolvimento da empresa. Por exemplo:
A virtude da prudência numa empresa sempre vai fornecer um olhar mais amplo e terá certamente o senso para as pessoas que colaboraram. “...o ser humano prudente é sempre também um ser humano sábio”. Quando se conhece o colaborador se sabe sua medida e assim se pode avaliá-lo e aproveitá-lo melhor como estímulo para o rendimento que vai favorecer a empresa e, portanto, a realização pessoal do colaborador.
A DIMENSÃO DA ESPIRITUALIDADE COMO ELEMENTO AGLUTINADOR NO DESENVOLVIMENTO DA EMPRESA E/OU ORGANIZAÇÃO
Os novos tempos exigem que qualquer gestor consciente e responsável na sua função busque superar a fragmentação do conceito de “economia com espiritualidade”. Não se trata de dois elementos que se excluem e, sim, que se complementam.

O desiquilíbrio da cultura contemporânea é fruto de uma visão fragmentada cujas consequências trágicas se vivenciam na atualidade. Pois, não responde às expectativas do ser humano. Se já os antigos filósofos gregos colocaram na base da sociedade as “virtudes cardeais” e a própria tradição cristã agregou no construto social, significa que tal paradigma tem uma razão séria de ser. Além de a Tradição Cristã aglutinar as virtudes cardeais, acrescentou também as teológicas: fé, esperança e amor.
Ao resgatar para o hoje da história um imaginário holístico, vê-se que a fé é um elemento importante na construção de uma nova sociedade, pois a mesma é parte integrante que complementa e solidifica as organizações do futuro. Ao se abordar a fé não se trata apenas de crer em Deus, mas também acreditar na pessoa. Isso já significa a superação do subjetivismo característica de nosso tempo para uma visão de natureza social.

“...fé significa ver o outro na essência e, na sua essência, identificar o anseio pelo bem. Quando acredito no bem que há nos outros, também passa despertá-lo”. (GRÜN – ZIETZ, 2012).
Em meio ao caos disseminado na cultura hodierna sente-se também a ausência de outra virtude teológica fundamental, ou seja, a dimensão da esperança como um paradigma que novamente possa dar sentido a luta cotidiana do ser humano. O poeta italiano Dante Alighieri dizia: “Sem esperança a vida se torna um inferno”. E, certamente isso faz sentido no atual momento histórico da sociedade levar em conta as virtudes teológicas para a edificação de um mundo novo. Portanto: “Ninguém pode dirigir uma empresa ou um grupo sem ter esperança”, esta é algo diferente de expectativa.
E finalmente temos o elemento que nos proporciona o fundamento último de uma organização seja empresarial e/ou outras. É a vivência da virtude do amor. É neste aspecto que se assenta o futuro sustentável e moderno das empresas e/ou organizações. Pois elas são desafiadas a integrar nos seus projetos de avanço no empreendedorismo com sustentabilidade. Isso leva a empresa ao projeto de totalidade, onde há uma harmonização entre economia, política, sociedade e espiritualidade. É reunificar a realidade. Um mundo novo sem a dimensão do amor torna-se impossível a transformação desejada. Afinal todas as virtudes cardeais e teologais são fontes precípuas de energia. É bom pensar!

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