O Melancólico declínio da tradiçâo ocidental exige uma nova ética

Economiaenegocios Artigos 03 Janeiro / 2018 Quarta-feira por Padre Ari

O contexto paradoxal que se vive no momento histórico, é nítido o processo de desconstrução do tecido social, político e econômico com os elementos paradigmáticos que regem a vida do homem e da mulher contemporâneos. Dentre muitos, chama a atenção o vazio que as pessoas sentem, por outro, a tentativa de suprir esse niilismo de sentido incrustado na cultura hodierna a partir da construção de uma “transcendência imanente”.
A verdade é que tal tentativa não tem correspondido aos anseios mais profundos do ser humano. No entanto, ainda diversos grupos insistem na autossuficiência com projetos numa lógica de pensamento racional como verdade última. Isso tem contribuído ainda mais na frustração existencial como ampliou o abismo entre a vida moderna com destaque ao pensar horizontalista, prescindindo do encontro com a verdadeira Transcendência: Deus.
“Mas como falar em reflexão, pensamento, constituição de si diante de tantas multidões, de coisas como pessoas, ou seja, a tanta diversão”? (apud Arend, H –in VALLS L. Álvavo – MARTINS, Jassson da Silva – Kierkegaard no nosso tempo – Ed. Harmonia – São Leopoldo – p.98 – 2010). E segue: “...o final melancólico da grande tradição ocidental {...} “a sociedade de massa, a qual não tem necessidade de cultura, e sim de diversão”.

Pensadores mais recentes com um apurado senso crítico têm consciência de que o tipo de cultura em que estão inseridos é problemático. Portanto urge refazê-la, repensá-la ou sendo mais original, “reinventar-se” se é que se pretende seguir uma história com sentido, fundamentada em valores e princípios que unam as culturas, respeitando-as nas suas diferenças e convergindo para um processo de interculturalidade, embora sempre superando a “individuação”.
“O fato, difícil de ser engolido, é que fomos engolidos pelo conhecimento empilhado, ou mais propriamente dito, pelas informações objetivas ou objetivadoras, alienadas ou alienantes, as quais engolem um indivíduo da mesma maneira que Eichmann disse ter sido engolido”. (ibidem).

O contexto que está ainda firme como ideologia, aliás, que sempre é uma concepção de mundo, e, não tem a verdade última. “...é preciso estar alerta, consciente de que tudo nesta vida se dá no “gerúndio”. (Kierkegaard).
Ao abordar nessa reflexão a questão das consequências de eleger a razão como um paradigma infinitamente como “verdade”, chega-se a um impasse que provém de séculos anteriores deslocando o ser humano para a individuação e consequentemente seguiu a diluição do próprio tecido social. Daí:
“...”se busca, precisamente, chamar a atenção para contundente constituição de um sujeito crítico {...} pois deste sujeito-projeto, verdadeiramente um sujeito-utopia, chegamos às massas, as quais parecem atravessar apressadamente não apenas todos os tipos de multidões, senão a própria vida, como se tudo não fosse senão diversão”. (VALLS-MARTINS, 2010).
Temos que ter presente que: “a ética racional é irrenunciável”, embora não recobre toda a vida humana, pois existem outras dimensões que estão aquém da razão como a vida afetiva e o cuidado, ou além dela, como o mundo das artes, a estética em geral e a experiência espiritual”. (BOFF, Leonardo – Ética e Espiritualidade – Como cuidar da Casa Comum – Vozes – 2017).
Esse texto de Leonardo Boff aponta para um dos elementos cruciais da atualidade. É urgente colocar não somente na pauta dos importantes debates a questão da ética da razão e a ética do sentimento. Afinal é um problema que diz respeito à sobrevivência do Planeta Terra, mas e, principalmente na praticidade da vida diária. Infelizmente a petrificação da razão/verdade têm atrapalhado o fluir e uma sociedade harmônica e justa. O elemento que necessita ser desconstruído no imaginário da sociedade contemporânea constitui um desafio necessário, embora por ter que se confrontar com os interesses da elite que se beneficia com esse paradigma da fragmentação. Infelizmente esse imaginário também foi internalizado pela própria população simples. A mudança de paradigma jamais será tranquila, entretanto necessária.

A ética da razão pelo tempo que direcionou a conduta da cultura contemporânea vai exigir um esforço significativo para a mudança dessa visão unidimensional, pois além de beneficiar as elites em seus negócios, as corporações nacionais e transnacionais, com muita resistência, determinação e consciência não se pode deixar continuar a fragmentação, pois sempre mais há de dificultar uma ética complementar que possa harmonizar “razão e sentimento” conforme foi publicado no artigo próximo passado. A individuação sempre vai favorecer a economia de mercado e do capital financeiro, onde o próprio homem e a mulher se tornam mercadoria e perdem sua identidade e pessoa com dignidade.
O pensador Leonardo Boff em seu recente livro: Ética e Espiritualidade, classifica as fontes históricas das éticas vigentes. 1. Uma ética das religiões 2. A ética da razão crítica. 3. A ética como fonte do desejo. 4. A ética da responsabilidade. 5. A ética do cuidado. (BOFF, 2017 – pp.55-60)
Ao escrever o texto desta semana entre as éticas citadas por Boff fiz a escolha da ética do desejo. “...Essas várias expressões do ethos humano (a morada) não se invalidam”.

Gostaria de frisar neste texto de hoje a “ética do desejo”, pois “somos seres, por essência, desejantes”. Boff explicita assim: “Possui uma estrutura infinita. Não conhece limites e é indefinido por ser naturalmente difuso. Cabe ao ser humano dar-lhe forma e direção, pois deixado por si mesmo pode ser profundamente dilacerador e assassino. Na maneira de realizar, limitar e direcionar o desejo surge as normas e os valores qual desejo realiza a identidade humana e é bom para todos; qual é criador de projeções totalitárias letais”. (Boff, 2017)
É aqui que se encontra o grande desafio, de mudanças nos paradigmas da atual sociedade. Urge por um lado desconstruir um paradigma que se tornou absoluto e cruel impondo suas normas e, por outro, a complementaridade de uma Ética da ternura, do sentimento, do amor que juntas possam fazer a diferença para o “novo mundo” onde o limite e a criatividade, o amor e a sensibilidade possam andar de mãos dadas.
É bom pensar!

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