A pós-modernidade se caracteriza por uma cultura do tédio e do "sem-sentido"

Economiaenegocios Artigos 10 Setembro / 2018 Segunda-feira por Padre Ari

Um dos personagens que pode nos ajudar nesse processo é o pensamento de Santo Agostinho, quando o mesmo faz uma crítica à modernidade, justamente ao abordar a questão do sentido na cultura hodierna, principalmente quando se procura verificar o que subjaz, e que tipo de antropologia vem estampado no conceito de pessoa humana dessa cultura contemporânea. Sem a pretensão de uma análise minuciosa, percebe-se que se está diante de uma sociedade que eliminou os princípios e fins absolutos, ou seja, “...tudo ficou reduzido ao conhecimento empírico, testável, deixando de lado pontos fundamentais e necessários à conduta humana”. (MONTAGNA, Leomar Antônio – A Ética como elemento de harmonia social em Santo Agostinho – Ed. Humanitas-vivens – 2ª ed. – 2009)
O fascínio do homem face aos grandes e significativos avanços na tecnologia, fez com que o contexto social perdesse um dos elementos mais importantes na vida humana, ou seja, avançamos tecnicamente, por outro lado, esquecemo-nos da finitude e da provisoriedade do progresso como da própria vida como um todo. Querendo ou não admitir o homem continua a fazer as tradicionais questões: Quem sou eu? Para onde vou? Por que existe o mal? O que existe após esta vida?
A busca de caminhos alternativos para preencher o vazio da atual sociedade é nítida, dado as consequências práticas da mesma. Por quê?
Há ausência de referenciais objetivos para o indivíduo, a família e para o tecido social como um todo. Ante esse vazio da cultura, a mesma tenta traçar linhas paradoxais agudas entre “ideias e promessas” e a realidade efetiva do agora.

Por outro lado, todo o tecido social foi induzido a absolutizar a tecnologia como resposta última ao sentido, embora tais respostas não chegou sequer a responder por aquilo que pulsa e deseja o coração humano, ou seja, pelo sentido último da vida humana. Na interioridade humana, mais precisamente, no profundo do ser-si-mesmo. Sonha-se com um mundo de paz, no entanto o que se percebe é que se agravam o ódio e a violência nos diversos níveis da sociedade. Daí o desconforto em proporções descabiveis.


A MISSÃO DA FILOSOFIA E DA TEOLOGIA NUM CONTEXTO ANÔMICO

O atual contexto conjuntural nos leva a um questionamento importante e básico quando se pergunta: Qual o papel da filosofia num mundo de contínua desconstrução e de ausência de valores referenciais para uma visão holística de sociedade? É bom lembrar a importância da filosofia na formação das novas gerações, ou seja, não o estudo da história da filosofia, e, sim, a “introdução ao pensar”.
“A filosofia, mãe de todas as ciências, chega ao século XXI em uma situação penosa de insegurança com relação aos seus princípios fundantes e, mesmo, no que diz respeito à justificação de sua própria existência {...} os imensos avanços das ciências, por um lado, e a crescente consciência da desagregação das certezas da tradição, por outro, colocam o pensamento filosófico em um impasse de grandes proporções”. (MONTANGNA, 2009).

Há um processo de nuanças que oscilam com uma frequência espantosa na Conjuntura Política socioeconômica, embora sempre tenha referência ao ser humano. A verdade acima de tudo é que o “humano” está deslocado do seu próprio ser-si-mesmo. São transtornos de ordem social e uma solidão cada vez mais profunda do próprio humano, mesmo que, ironicamente vivem em grandes metrópoles. Então se pergunta: tem sentido essa visão de um antropocentrismo? Afinal Ele mesmo é que vem destruindo a natureza da qual faz parte, o que não deixa de ser um contrassenso.
O pressuposto é claro: “...o homem domina a natureza e provoca uma crise ecológica descomunal, e, em consequência, uma crise social de domínio de uns para com os outros”. Sempre é saudável parar, ouvir e repensar a própria caminhada feita até então. Em outras palavras significa: “...a modernidade não {termina} simplesmente num antropocentrismo, mas, Algo em que os seres humanos podem, por sua livre força criar um mundo perfeito”. (ibidem).

Sem margem dúvida, tal postura quando fechada sobre o próprio “eu”
é um engano. Pois em vez de realizar e promover a felicidade, aliás, tão almejada pelas pessoas, acabou desembocando em nossa cultura um mal estar geral, pois a definição que se pode denominar esse momento da história é de “...uma cultura do tédio, da depressão, do trabalho massagrante e da vida sem sentido {...} o ensino não oferece uma visão global do mundo, mas uma síntese de conhecimentos parciais, especializados e fragmentários”. (MONTAGANA, 2009). E segue:
“As pessoas se sentem como baratas tontas e sem perspectivas. A modernidade não trouxe a felicidade. A pobreza aumentou; os banqueiros e os grandes empresários tomaram o poder dos políticos e o Estado deixou de ser o juiz dos conflitos entre capital e trabalho. Neste contexto só o capital tem a palavra e o dinheiro manda no mundo”.

Essa realidade em pauta nos empurra para uma ditadura do relativismo, ou seja, a ausência quase total de objetividade, como uma constante mudança de valores. É bom frisar que o ser humano não foi criado para viver esse relativismo e a ideologia do descartável da vida. Nessa lógica não se respeita o ritmo de cada um, e em consequência fica sempre mais explícito que fomos reduzidos a uma peça da engrenagem da tecnologia.

Partindo dessas ideias, se justificam as mudanças contínuas como a busca de sempre novos valores e/ou melhor, pseudos/valores seguindo a lógica da moda e do momento. Impreterivelmente há um processo de destruição do tecido social como desestrutura o humano em si, e, esse vive sem chão, daí a crise existencial em escala significativa na atualidade. Por quê?
“...falta uma fundamentação em tudo, a vida é superficial, valoriza-se a aparência, o contingente e o precário {...} e o mais delicado de tudo desenvolve-se uma “ética light”. No final das contas tem-se diante da realidade hodierna uma “cultura móvel”, pois não há absolutos”. (MONTANGNA, 2009).

No pensamento agostiniano é possível verificar o quanto o contexto da atual cultura, carece de uma fundamentação mais racional e equilibrada e com sensibilidade. O pensamento de Santo Agostinho, ainda é referência para os dias atuais quando aborda com objetividade os princípios de uma ética a partir do amor. Para ele, a força maior da moral interior é o “amor”, principalmente ao se referir ao primeiro mandamento da lei de Deus, ou seja, “amar a Deus sobre todas as coisas e a próximo como a si mesmo”.

É bem possível que muitos da geração presente, e, também dos mais antigos esqueceram e/ou até rejeitaram tal assertiva como sendo algo anacrônica. (fonte: Livro – Confissões de Santo Agostinho). E Agostinho ainda faz referência bem clara da dimensão ética da política do Estado:
“...dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena: o amor a Deus levado desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a segunda em Deus, porque aquele busca a glória dos homens e tem esta por máxima, e por outro, a busca da glória de Deus que é testemunha de sua consciência”.
Fica claro no texto de Santo Agostinho que: “...somente uma moral interior orientada para a reta escolha das coisas de forma reta é que vamos encontrar o sentido: Deus. Desse pressuposto é que há possibilidade de atingir a harmonia individual e coletiva como salvar o Planeta que corre o grande risco da destruição”. Então surge a pergunta: Qual o papel da filosofia e da teologia num contexto de uma cultura da “mobilidade”?
Lanço mão do filósofo Raúl Fornet Betancourt, quando afirma: “Quem sabe da historicidade das perguntas fundamentais do ser humano, sabe também que o respectivo presente da própria vida dos seres humanos não esgota a contextualidade de sua vida,

pois
é sempre muito mais que o presente fáctico {...} e isto vale, especialmente para a contextualidade de questões filosóficas e teológicas, como a pergunta pelo que “falta”. (BETANCOURT, Raúl Fornet – Filosofia e Espiritualidade em diálogo – Ed.Harmonia – 2018). E segue:
“...um erro no qual podemos cair como consequência da ideologia do progresso e sua seguinte concepção como cronologia acelerada sem memória, {...} a tomada de consciência
dessa
contextualidade, no sentido exposto, nos ajuda a buscar o verdadeiro alcance da pergunta pelo que falta no diálogo contínuo entre tradição e presente”.
Com certeza é um tema atual e que certamente merece uma reflexão bem mais profunda no contexto dessa cultura da “mobilidade”.
Pense!

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