A sacralidade da vida no contexto da Pós-Modernidade

Economiaenegocios Artigos 22 Outubro / 2018 Segunda-feira por Padre Ari

O fundamento teológico dessa assertiva encontra-se em (Gn 1, 27). Esse gesto concreto de Deus, na prática significa o dom da inteligência, da vontade e da liberdade. Jamais o ser humano deve esquecer tal realidade, pois é a raiz de sua grandeza e dignidade.
Por outro lado, o pressuposto que nos faz diferentes do todo da criação deve nos induzir, embora o Criador respeite a liberdade que nos legou, a reconhecermos que a liberdade, o dom da inteligência não são de natureza absoluta e desvinculada de algo mais profundo que supera a temporalidade, pois, afinal tudo está voltado para a origem do próprio ser humano.
“Na concepção tradicional, cristã, a vida é considerada um dom outorgado ao homem pelo Criador (Jo 10,10), portanto, um meio necessário para servi-lo e cumprir os deveres inerentes à sua condição e estado. Esse dom é um bem primário do homem no mundo. O direito à vida e por isso, o primeiro dentre os direitos fundamentais”. (João Paulo II, papa – Evangelii Vitae, 71, condição indispensável de todos os outros. Sobre ele, “se fundamentam e desenvolvem todos os direitos inalienáveis do ser humano” (EV, 101), inclusive a “convivência humana e a própria comunidade política”. (EV,7). (NEDEL, José – Ética Aplicada – Pontos e Contra Pontos – Ed. Unisinos – 2004 – p.33)
Esse é o impasse mais explícito que se vive nessa cultura secular, laicista, pragmática e utilitária. No decurso do tempo houve uma tendência para uma emancipação do Criador, como também a ousadia de criar uma ‘transcendência imanente’, ou seja, uma vida voltada para si própria. A situação da cultura contemporânea ao prescindir da lei natural, chega a um momento crucial da história, ou seja, sem um paradigma e uma referência consistente que possa nortear a atual civilização.
Os conflitos sempre se fizeram presentes na história, no entanto, a dimensão dos mesmos nesse momento tomaram uma magnitude que tem deixado a humanidade no ar, sem chão e a impossibilidade de reencontrar o sentido último da existência humana. Essa conduta pós-moderna que se fechou sobre si mesma, vem consciente e/ou não, desenhando uma nova época no construto político socioeconômico e religioso que nos proporciona um mal-estar em toda a sociedade. No entanto, percebe-se que a mesma não tem consistência, pois se baseia simplesmente no progresso material, na tecnologia de ponta, como no livre mercado e no capital financeiro. Em contrapartida os mesmos se desviam de sua finalidade primeira, ou seja, a promoção do bem comum e uma vida digna para todo o tecido social. Entretanto, o interesse desses mecanismos é promover-se com interesses próprios e que têm no “dinheiro” o seu fim último.
Sempre é prudente e sábio olhar para a história retrospectiva, para assim aprender no decurso do tempo os acertos e erros, para que assim possa traçar caminhos novos, mas com solidez, especialmente quando se trata de valores, pois quem revisa, sempre avança e cresce.
É relevante frisar que: “...a filosofia cristã, não criou a lei natural, mas a acolheu, incorporou e interpretou”. (Paulo VI, papa – Carta Encíclica Humanae Vitae, 4 e 8).

Entretanto, o que se observa no contexto da cultura hodierna é uma hermenêutica que distorceu o conceito de “lei natural”, aliás, e que está na subjacência do pensamento atual fomentado pela ideologia da “dialética iluminista”, que monopolizou algo que não lhe é de direito, provocando assim, disfunções no construto político socioeconômico. Ora, torna-se necessário uma visão crítica desse paradigma, pois ele é unidimensional na medida em que torna a existência humana, insípida e vazia. Isso é proveniente de que?
“...após um período mais ou menos recente {houve} uma rejeição protagonizada pelo positivismo jurídico {...} que renasce com renovado vigor entre os próprios juristas e filósofos políticos”. (NEDEL, 2004, p.33).
A grande questão que está em jogo dentro desse imaginário positivista é o fato de que o mesmo não vê a razão com ligação à consciência moral, e sim, como algo que apenas exerce um papel de “funcionalidade pragmática e utilitária”. Esse paradigma despe o ser humano de sua dignidade e empurra o mesmo para o conceito de “individuação”, o que na prática é absorvido pelo livre mercado e o capital financeiro ao reduzir o humano como simples mercadoria como a tantos outros objetos.
Entende-se a partir desse pressuposto a crise da atual cultura, pois a mesma não está fundamentada em princípios e valores, mas num crasso pragmatismo utilitário que detona qualquer ser humano. Por outro lado, como o homem e a mulher são seres que buscam o sentido último da existência, dão-se conta que se encontram na beira de um abismo, e que impreterivelmente os conduzirá à morte. Explica-se assim, embora não justifique, que com um desenvolvimento tecnológico brilhante, por outro, emerge o tédio, a monotonia da vida, a busca ansiosa por novidades que no fundo são necessidades para preencher o vazio do interior.
O sentido jamais é encontrado na exterioridade da vida, mas no silêncio do próprio “eu”, no cultivo de uma espiritualidade íntima ligada a verdadeira Transcendência. Nesse aspecto a religião instituição sempre é posterior à experiência de Deus, e essa se concretiza na intimidade de cada um e não no barulho.

“...a relação que existe entre a liberdade do homem e a lei de Deus tem sua sede viva no “coração” da pessoa, ou seja, na sua consciência moral {...} o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está chamando ao amor do bem e a fuga do mal, soa no momento oportuno na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus: sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado (Rm 2, 14-16). (apud João Paulo II – Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo – Gaudium et Spes, 16 – in Veritatis Splendor – Paulinas – 8ªed – 1993 – p.89).
Portanto é bom frisar que o Concílio Vaticano II, “...exalta o valor da consciência que a definiu como “santuário do homem”, na qual se encontra encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade de seu ser”. (ibidem, p.90).
É a partir desse paradigma que os cristãos inseridos num contexto cultural secular e utilitário, tenham a coragem e consciência no processo evangelizador de descontruir a “ideologia da funcionalidade”, sem abrir mão do desenvolvimento, sobretudo, tendo o compromisso de restabelecer o respeito pela vida. “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.
É bom pensar!

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