A autêntica política sempre está a serviço da paz

Economiaenegocios Artigos 14 Novembro / 2018 Quarta-feira por Padre Ari

O século XXI tem iniciado com situações conflitantes sob vários pontos de vista, ou seja, se acentuaram as desigualdades sociais, as discriminações de toda ordem, como as absolutizações daquilo que faz parte da temporalidade e que jamais podem tomar o espaço de “verdade última”, como é o caso da tecnologia de ponta e o desenvolvimento e o avanço das ciências. Ciência sempre é do provisório e, portanto, a mesma não pode voltar-se sobre si mesma, mas saber que é um paradigma de hoje e amanhã já estará superado. Essa é a lógica da ciência, tudo é provisoriedade.

Por outro lado, quando se percebe a tentativa do fazer científico se tornar a resposta absoluta para o ser humano, entra-se numa estrada sem saída, aliás, e tem um alto preço para o homem, aliás, que foi criado para ser feliz. Esse aspecto obriga a todos a olhar para além do aqui e do agora se é que se quer “sentido existencial e razão para viver feliz”.
Vê-se que nesse contexto a frustração, que hoje é parte da cultura contemporânea e que se expressa através das diversas disfunções de ordem psicossomáticas. Esse pressuposto não deixa de ser um sinal e alerta de que nenhum ser humano encontrará a felicidade, caso não levantar o olhar para aquilo que o transcenda. É preciso revisar os preâmbulos da cultura vigente com certa desconfiança, ao tratar-se do que realmente é que impulsiona não somente o desenvolvimento e progresso tecnológico, mas, e, sobretudo a felicidade do ser humano. Em contrapartida sempre é bom lembrar que a felicidade jamais será plena enquanto vive-se inserido na finitude histórica, embora se tenha muitos momentos para se usufruir das benesses da tecnologia.
Há uma necessidade premente de superar os ranços e tragédias herdadas de ideologias de séculos passados, aliás, que são sempre visões parciais da verdade, para a construção de uma nova sociedade onde o progresso seja sustentável, a igualdade social seja uma realidade, as discriminações de raça e das minorias étnicas e de outra natureza possam ser respeitadas e viver em harmonia, embora no diferente. Essa é uma tarefa da autêntica política, ou seja, gerir a “Coisa Pública” para todos e sem privilégios. E isso, sem dúvida é possível, e é uma questão de vontade de quem assume a tarefa de gerir a “Coisa Pública”.

Em outros textos que tenho publicado já frisei que para o novo século urge mudanças. Ora toda a mudança sempre gera conflitos e incertezas, mas isso é um processo que vai se configurando entre “sombras e luzes”. De maneira que se o tecido social viver sob a ótica de valores, princípios e virtudes no hoje da história, com certeza se fará a mudança de paradigma com fundamentos sólidos e no tempo certo. Em outras palavras significa: colocar as bases para um futuro com sentido e sustentabilidade.
A realidade vivida em nosso tempo é multicultural e, isso, é positivo como também de uma riqueza extraordinária, afinal é o retrato de um ser humano que cultiva a autonomia, sua identidade e seu perfil segundo sua cultura, contudo não como um ser isolado, mas, e, sobretudo sempre ligado às relações interpessoais que faz parte da essência humana. O homem é um ser social por definição, embora que, muitas vezes por detrás permeia a ideologia da individuação, aliás, que é um contrassenso. Por outro lado, muitas vezes com/ou sem consciência de que há sempre ideologias nocivas e perversas rondando o humano, mormente do livre mercado e do capital financeiro que preferem olhar o humano na “individualização” e não na sua “individualidade”, o que na prática significa ter consciência de si, consciência de ter a capacidade de construir a vida de acordo com valores que edificam “todo” do Construto Político Socioeconômico, pois, assim é que dá o sentido ao conjunto da sociedade.

Há uma íntima relação entre a “política” e a “paz”, e, portanto jamais a mesma deve se distanciar da sociedade. Uma gestão política desvinculada da sociedade, favorecerá sempre as diversas disfunções no contexto político socioeconômico, pois acaba se perdendo a razão de existir. Infelizmente é de longa data que nosso país sofre o distanciamento de gerir a “Coisa Pública” do tecido social. O exercício da política significa estar sempre voltada para os interesses do bem comum, do contrário torna-se ilegítima.
“...a perda da consciência e do sentido real de gestar a “Coisa Pública” precisa urgentemente de uma transformação, ou seja, retornar à prática de servir ao bem comum e não a interesses oligárquicos e corporativos”. (SILVA, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o rosto do outro – Ed. Nova Harmonia – 2018 – p.240). Talvez seja necessário nesse momento da história buscar a etimologia real do que se trata um “sistema democrático”. Por quê? Vive-se no contexto de um sistema democrático, mas que retrata muito mais uma pseudodemocracia do que uma real democracia. Usa-se o termo, mas na prática fica distante de uma autêntica democracia que sempre significa “participação efetiva da cidadania” quando se trata de tomar decisões importantes para bem-estar de todos.

“{com} uma nova visão de democracia participativa, busca-se um equilíbrio do poder legítimo, embora sempre em sintonia com a sociedade {...} participante nas decisões que dizem respeito ao bem comum”. (SILVA, 2018 p.201). Repensar uma nova cultura é algo urgente, pois a que se está vivenciando não condiz com os novos tempos. Em pleno século XXI está mais que na hora de mudanças profundas na gestão dos Estados Nações. A globalização jamais poderá frisar apenas a dimensão econômica, mas também o respeito à diversidade cultural dos povos, do respeito às etnias, mormente as minorias, afinal somos todos humanos e as diferenças é que fazem a beleza e riqueza do mundo criado por Deus.
Todos os seres humanos em tese desejam viver a paz. O desenvolvimento da tecnologia nos facilita a vida, embora o mesmo sempre tenha sua raiz “dentro do coração humano” onde habita a Transcendência. Em outros termos significa que o desarmamento interior, o cultivo da espiritualidade sem os “espiritualismos” baratos que também rondam o tecido social com receitas absurdas e que não ajuda em nada para edificar o verdadeiro “ser” do humano.
Portanto, diante do desejo do ser humano para viver o dom da paz precisa-se daquilo que Leonardo Boff nos diz: buscar sempre a justa medida que nos proporciona os limites e a sensatez necessários para o equilíbrio. “...É aqui que entra a função insubstituível da razão. É própria dela ver claro e ordenar, disciplinar e definir a direção do sentimento e da paixão”. (BOFF, Leonardo – Ética e Espiritualidade – Como cuidar da Casa Comum – Vozes – 2017 p.66). E segue:
“...eis que surge uma dialética dramática entre sentimento e razão. Se a razão reprimir o sentimento, triunfa a rigidez, a tirania da ordem e a ética impositiva como um superego castrador. Se o sentimento dispensar a razão, vigora o delírio das pulsões e a ética hedonista, do puro gozo das coisas. Mas, se vigorar a justa medida e o sentimento de se servir da razão para um autodesenvolvimento regrado, então poderá surgir uma consciência ética que humanize e torne possível a paz entre os povos”. (ibidem BOFF, 2017).
Portanto, sempre é possível sonhar com a paz, mas ela é fruto do desarmamento interior das pessoas e dos povos entre si, focada em uma espiritualidade crística e sadia, do diálogo e do respeito mútuo incentivado pela arte da autêntica e transparência no exercício da política. Nisso também se precisam levar em consideração as palavras de Jesus Cristo; “Deixo-vos a paz a minha paz vos dou; não a dou como o mundo dá” (Jo 14, 27).

É bom pensar!

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