Ainda há esperança?

Economiaenegocios Artigos 19 Novembro / 2018 Segunda-feira por Padre Ari

Há no ar um sentimento pouco animador. Mesmo que os avanços tecnológicos nos fascinam e cada vez mais esteja eclodindo em muitos lugares do planeta. Por um lado, se revela um impacto aos olhos do tecido social uma sensação de beleza e bem-estar, pois facilita a vida das pessoas, por outro, paradoxalmente percebe-se aumentar as incertezas e os medos das pessoas dessa mesma tecnologia de ponta.
A rapidez com que acontecem as mudanças e avanços tecnológicos nas últimas décadas, no entanto o imaginário do tecido social vive uma sensação de constrangimento como curiosamente, os mesmo vão gerando mais incertezas sobre o que vem pela frente, ou seja, nas próximas décadas e/ou tempos.

Cada dia que passa é perceptível nas pessoas um imaginário nunca antes visto que traz no seu bojo inúmeras perguntas, e, estas quase sempre têm referências sobre o futuro da humanidade. No fundo não deixa de ser um paradigma de “sombra” que acompanha o caminhar das pessoas, e, com maior intensidade que sentem nesse fenômeno, são as novas gerações que não veem praticamente nenhuma referência que lhes proporciona coragem, ânimo e determinação sobre o caminhar na construção do seu futuro. Se já os mais experientes já vivem esta sensação, como não será daqueles que ainda não construíram e formaram a própria identidade, caráter e personalidade!
A verdade é que o momento é de medo, sombra e incerteza. Para onde vamos? As estatísticas retratam um número expressivo e assustador de suicídios na faixa dos 18 a 30 anos. O que significa isso?
Toda essa realidade acima expressa, certamente tem um pressuposto que indica “sinal”, ou/e uma “linguagem” um “aviso” que nos pede para uma parada e pensar, avaliar e fazer uma leitura dos parâmetros até então vividos. A incandescência dos tempos atuais é um alerta ao ser humano que consciente e/ou não, ateu e/ou não, induz a uma profunda autoanálise sobre qual é o sentido real da existencial humana.

Todas as conjunturas políticas socioeconômicas dos Estados Nações vivem momentos paradoxais em relação a atual situação, embora também valha a todos os povos sobre esse futuro de incertezas. Nos bastidores de tudo é por focar o fim último da história no “ter”, e no “acúmulo de coisas materiais”. Infere-se dai que todo o pressuposto acima citado não deixa de ser um alerta para que a humanidade faça uma revisão da vida vivida até o momento atual.

Em contrapartida é preciso ter consciência que o futuro se constrói no presente da história através de uma sincera leitura dos acertos e erros do passado, mas, e ao mesmo tempo, saber que nos últimos tempos, fascinados pela tecnologia de ponta e ideologias materialistas vazias de sentido, aliás, que sempre são visões parciais de mundo, não respondem a totalidade e realização da existência humana. Então, sem margem de dúvida, urge uma mudança de paradigma que dê sustentabilidade para o “todo” da realidade humana e ambiental em vista de um futuro diferente.

Portanto, colocar toda a segurança e esperança na ciência e no progresso, certamente é um tiro no próprio pé. Afinal é voltar-se e, sobretudo, ao que é factível imanente e provisório. O ser humano não foi criado para a provisoriedade, mas para um futuro na eternidade do Mistério de Deus. De maneira que urge algo mais do que o simples progresso tecnológico, algo que possa complementar e responder a aquilo que está profundamente arraigado no coração humano, ou seja, a realização plena e, esta somente em Deus.

“A Carta aos Hebreus liga a “plenitude da fé” (10,23), com a “imutável” profissão da esperança”. Pedro exorta aos cristãos a estarem sempre prontos a responder a propósito do “logos” – o sentido e a razão – de sua esperança (3,15), pois “esperança” equivale à fé. Paulo lembra aos Efésios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam “sem esperança e sem Deus no mundo”. (Ef.2, 12). E ainda diz Paulo em relação aos que ainda não encontraram Cristo: “...sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religião, mas seus deuses revelaram-se discutíveis e, dos seus mitos contraditórios, não emanava qualquer esperança. Apesar de terem deuses, estavam sem “Deus” e, consequentemente, achavam-se num mundo tenebroso, perante um futuro obscuro. Paulo alude aos Tessalonicenses: não deveis “entristecer-vos como os outros que não têm esperança”. (1 Ts 4,13).

É interessante ver como o elemento distintivo dos cristãos é o fato de estes terem um futuro: o que não significa que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio. Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna visível a importância de viver bem o tempo presente fundamentados em valores, princípios e virtudes. Não há outro caminho!
Já a Igreja Antiga afirmava: “A fé é a “substância das coisas que se esperam a prova das coisas que não se veem”. (Santo Tomás de Aquino).Enquanto a civilização contemporânea não se der conta que abandonaram o barco da fé, para construir o reino do homem, as consequências práticas sempre é a perda do sentido da existência humana. Assim se explica o desencanto de tantas pessoas, mormente as novas gerações em relação ao mundo contemporâneo. Esse reduziu tudo a “cifrões” e deixou de lado o que caracteriza o “humano”. O destino do ser humano sempre vai além do aqui e do agora. No momento em que a cultura contemporânea fabricou para si própria uma “transcendência imanente” a mesma desconfigurou o rosto humano como imagem de Deus para reduzir a uma mercadoria como tantas outras. E isso é lamentável.
O grande desafio da pastoral eclesial contemporânea é ter consciência de que a Redenção significa na prática “unidade” na diversidade, pois é o caráter comunitário da esperança. Portanto, é bom lembrar-se de que fé absoluta no progresso e no desenvolvimento é uma tragédia, mas que colocando o desenvolvimento e o progresso em harmonia com a dignidade humana e a abertura para a Transcendência, com certeza teremos uma sociedade com os pés no chão, com a possibilidade de um Construto Político Socioeconômico, sustentável, harmônico e com consciência de que é possível crescer, mas, ao mesmo tempo tendo consciência da finitude histórica, se preparando para o grande com o fim último da história, ou seja, Deus.
Sempre é bom parar e pensar!

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