"Uma Medicina sem espiritualidade é uma Medicina sem alma"

Economiaenegocios Artigos 05 Dezembro / 2018 Quarta-feira por Padre Ari

Novos tempos timidamente começam a deslumbrar na sociedade contemporânea. Embasada em paradigmas racionalistas de cunho pragmático, utilitário, a sociedade como um todo, mormente os profissionais da saúde interrogam-se sobre o procedimento da cura das pessoas quando se prescinde de algo que faz parte da essência do ser humano, ou seja, da dimensão da fé.
Já em outros artigos que publiquei tenho abordado a importância de rever o conceito da antropologia a partir do pensamento personalista, pois esse retrata o ser humano a partir de uma trilogia: cognitivo, biológico e espiritual. No entanto ao longo do tempo impulsionada pela lógica da ciência e da ideologia racionalista, houve um processo de ignorar a dimensão da fé no tratamento da saúde do ser humano.

Ora, ao verificar com mais atenção tal postura, percebe-se que a maneira de tratar a saúde de um humano ainda persiste em vários profissionais, cientistas e intelectuais uma atitude cética em relação a saúde das pessoas, quando os mesmos prescindem de levar em conta a dimensão da fé, aliás, que faz do ser humano como essência e não como acidente de percurso.

Esse reducionismo retrata em sua lógica uma antropologia cujo fundamento está voltado para a “ideologia do iluminismo” e o capital financeiro com suas leis e normas, onde a pessoa é reduzida a uma mercadoria na ótica da individuação e não de sua individualidade. Na prática nesse imaginário a pessoa é reduzida a uma reificação e procura-se consertar como se fosse uma máquina qualquer que está danificada e necessita de ajuste para voltar a produzir. Caso não consiga, passa a ser tratada como “sobra” e, assim é enxotada para a exclusão.
Esse paradigma urge de mudanças profundas, pois o ser humano é tripartite: corpo – espírito – alma, é uma espécie de osmose, uma ligação orgânica e vital que lhe faz ser diferente no contexto do cosmos. Se for negligenciada uma dessas três dimensões: “...produz-se o desequilíbrio que pode ser denominado “ruptura” , “carência”, “vazio existencial”. (SIMARD, Jean-Paul – Espiritualidade – Os recursos da alma para cura dos sofrimentos e das doenças – Paulinas – 2016 – p.40) E segue:
“...a doença e o sofrimento são com frequência aquilo que nos leva a encontrar na vida essa dimensão que falta {...} uma vez encontrada e integrada, essa dimensão representa um importante fator de cura”.

A verdade é que existe dentro de cada ser humano um “ser espiritual”, ou seja, uma alma que aspira constantemente a viver, a crer, a crescer, mas, infelizmente muitos profissionais da saúde ainda não se deram conta da importância dessa terceira dimensão da estrutura humana.

O sociólogo Jacques Grand’Maison afirma: “...somos gigantes no plano material, mas anões no plano espiritual”.

Portanto deve ficar bem explícito de que a verdadeira medicina como a psicologia, devem reconhecer as doenças da alma. Por quê? Façamos uma comparação simples: É possível viver algum tempo sem nos alimentar, embora em algum momento haveremos de sofrer de anorexia, de anemia, e a nossa parte física e a psíquica acabariam prejudicadas.

O que são as doenças da alma? As mais conhecidas são as crises existenciais que levam à “neurose”. Em outras palavras: quando a vida não nos diz mais nada, vai ao colapso, à depressão e ao suicídio. E nesse contexto emerge a importância de tratar o paciente não apenas com fármacos, mas, e, sobretudo, abri-lo à dimensão da Transcendência.
As estatísticas atuais nos apontam que o mal do século é justamente a depressão que na prática é doença da tristeza, da melancolia e do “vazio da alma”. A vida nesse contexto não tem como ter pela frente um futuro feliz, embora a depressão possa nos ensinar.
“...a sociedade contemporânea fez uma opção errada ao jogar, subestimar e relativizar questões básicas para o equilíbrio de uma personalidade em formação como os valores, princípios, a ética e a moralidade {...} o incentivo a uma pseudo liberdade faz com que as novas gerações se sintam inseguras e desconfortáveis. Isso nos leva inevitavelmente à questão do sentido, que é a meta a ser atingida, contudo, quando a meta não aparece, explode a “síndrome do pânico”, o medo e a depressão em geral sob o enfoque patológico”. (SILVA, Ari Antônio – Economia e Espiritualidade: Reformando o mundo dos negócios – Ed. Ka & Lá – 2011 – p.75). E segue:
“...muitas crianças e jovens não aprendem mais a brincar e curtir a infância e a juventude. Os espaços todos são preenchidos por programas previamente organizados, fato que bloqueia o senso de criatividade, do lúdico e da iniciativa. Daí à depressão é um passo.

COMO ALIMENTAR O SER ESPIRITUAL?

Sem margem de dúvida através da prece, da meditação, da leitura espiritual, a Palavra de Deus, a prática da presença divina, o comparecimento aos ofícios religiosos e o engajamento. Portanto, isso significa que o ser espiritual se alimenta da fé e de todas as atividades que se desenvolvem e mantém.

“...a psicologia afirma que a depressão é uma proteção “inventada” pelo inconsciente em benefício do organismo como um todo. É um mecanismo de defesa ao qual o subconsciente recorre quando a agressão, a hostilidade por parte do sistema torna-se demasiado forte. Por mais paradoxal que possa parecer, deveríamos até certo ponto agradecer a isso, pois trata-se de um dinamismo poderoso”. (SIMARD, 2016 – p.41)
Em contrapartida é preciso ter em conta que a depressão afeta não apenas as pessoas com disfunções psicológicas devido a dor, o sofrimento, a doença, a morte, o além. A natureza tem horror ao vazio. Há quem preencha esse vazio ou tenta mascará-lo com álcool, drogas, jogo, trabalho e etc. No entanto acontece tal fenômeno em pessoas equilibradas e bem-sucedidas que também conhecem a provação do “vazio interior”. Como exemplo, depois da perda de um emprego, da morte de uma pessoa querida, de um acidente, de desastres naturais e etc. Precisa-se tomar consciência de que o sentido da vida nunca é definitivo. Nunca está completo. É sempre algo a ser construído.
O que falta a nós para sermos felizes? Sem dúvida a experiência de Deus que antecede a religião. Há dentro de todo humano “...o ser espiritual adormecido em nós que é paciente. Um dia, porém, ele se revolta e grita. Há tipos por exemplo de câncer que são da alma. É nessa perspectiva que é preciso compreender que a cura aconteça muitas vezes ao reencontrar a alma”. (SIMARD, 2016 – p.44). E segue:
“...hoje, muitos ignoram que a temos, o que faz com que precisam primeiro encontra-la”.
É bom pensar!

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