Nenhuma sociedade consegue viver sem esperança

Economiaenegocios Artigos 02 Janeiro / 2019 Quarta-feira por Padre Ari

Esse pressuposto ideológico é preciso compreendê-lo, pois o ponto de partida dessa premissa foi à base, que deu sustentação a esse reducionismo, ou seja, tornou-se um posicionamento ante a realidade, e, aliás, tão frisado no imaginário da sociedade moderna, que o mesmo chega a nosso tempo para um esvaziamento total do sentido último da vida humana.
A modernidade embriagada pela tecnologia e os novos inventos se entusiasmou tanto, que ousou a apostar todas as suas energias na ideologia do “progresso” e do “desenvolvimento”, e, com especial atenção, frisando a ciência como resposta à realização última do ser humano.
Esse paradigma numa mudança epocal significou: “...a nova correlação entre ciência e método que coloca o homem em condições de chegar a uma interpretação da natureza conforme às suas leis e, deste modo, conseguir finalmente “a vitória da arte sobre a natureza”. (BENTO XVI, Carta Encíclica “Spe Salvi”,16). E segue:
“A novidade – conforme a visão do pensador Francis Bacon está em uma nova correlação entre ciência e prática. Isto foi depois aplicado também teologicamente: esta nova correlação entre ciência e prática significaria que o domínio sobre a criação, dada ao homem por Deus e perdido no pecado original, ficaria restabelecido”. (cf. ibidem).

É sintomática e curiosa essa premissa, pois é a partir desse pressuposto que a modernidade posta o seu fundamento e a base para a ideologia do progresso e do desenvolvimento, isso, a tal ponto que chegando ao século XIX inspirou a famosa frase lapidar: “A razão é guia infalível de toda a verdade”.

Em contrapartida, e, por incrível que possa parecer, em consonância com a visão do pensador Francis Bacon, essa ideologia acabou atingindo inclusive o âmago da teologia que, sem margem de dúvida, se aplicou também à teologia isso irá ao futuro determinar a atual crise de fé e, sobretudo, uma crise da “esperança cristã”. Por quê?
Aquilo que se esperava da fé em Jesus Cristo e via no Mistério da Redenção a resposta para o ser humano, foi transmutado para uma “transcendência imanente”. Em outras palavras:
“...esta, “redenção”, a restauração do “paraíso” perdido, já não se espera da fé, mas da ligação recém-descoberta entre ciência e prática {...} não que se negue simplesmente a fé; mas, esta acaba deslocada para outro nível – o das coisas somente privadas e ultra terrestres – e, simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante para o mundo”.(Spe Salvi, 17).
Esta visão, com certeza tem reforçado a ideia, como tem traçado o caminho da modernidade que incidiu na crise da “esperança cristã”, e, como bem afirma Bacon, a esperança ganha uma nova forma: “a fé no progresso”. Na decorrência desse imaginário surge um mundo novo, ou seja, o “reino do homem”. É interessante como Bento XVI na Encíclica “Spe Salvi, 18”, mostra que há duas categorias que penetram sempre mais o centro da ideia de progresso: razão e liberdade. “...o progresso é sobretudo uma expansão no crescente domínio da razão, sendo esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem {...} o progresso é a superação de todas as dependências; é avanço para a liberdade perfeita.
Esses dois conceitos não têm uma definição clara, pois parece que a liberdade é vista só como promessa e esse é um aspecto que diz respeito à política. No novo livro que publiquei em 2018, “A ética nasce quando encontro o rosto do outro”, tenho abordado o seguinte: “O século XX deixou mais ruínas sociais do que novas construções”. Pergunta-se o porquê desse título do livro. É para que o leitor perceba o problema que se vivencia hoje com uma gravidade significativa não somente em nível local, mas também mundial. Afinal o contexto do construto político socioeconômico vigente, é o retrato fiel do esvaziamento e do trágico reducionismo a que se chega ao novo século, sem clareza de paradigmas, sem uma referência segura para a humanidade, mas, e, sobretudo para as novas gerações que se sentem perdidas ante a realidade deste novo século. Como então fazer emergir uma nova sociedade sem os valores e princípios que possam fundamentar solidamente um nova e autêntica sociedade e que não esteja assentada apenas em “cifrões”, mas em valores?
Os possíveis parâmetros que pudessem reconstruir o “novo” foram reduzidos a cinzas “... assim, com este imaginário político socioeconômico é que se iniciou o novo século, ou seja, sem perspectivas”. (SILVA, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o rosto do outro – Ed. Nova Harmonia – 2018 p. 31).
O momento da história contemporânea deve ser de pensar e reinventar a história deste novo século. Que o passado possa servir como lição e baliza para reconstruir o sonho da humanidade, ou seja, a felicidade de todos, sem os desequilíbrios sociais, mas sempre tendo em vista a inclusão de todas as pessoas e culturas. Não se trata apenas de sonhar, mas de atitudes concretas cujo caminho começa com a educação para a formação e personalidade das novas gerações em cima de um alicerce sólido que são sempre os valores, mormente na defesa da dignidade humana. Nada se justifica e responde a não ser uma visão holística da realidade humana e ambiental.
“...faz-se necessário reconstruir todas as instituições sociais e colocá-las a serviço da subjetivação dos atores e da salvaguarda da terra, e não mais do lucro”. (apud Toraine, Alain – Após a crise – 2011 – in: SILVA, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro – 2018 – Ed. Nova Harmonia pp.31-32). E segue:
“...cada qual sente que a dificuldade é imensa e o fracasso muito provável, mas também que os termos {...} indicam a única solução para uma crise que vai além do funcionamento da economia, já que ela se produziu num mundo onde todos os vínculos entre economia e sociedade foram rompidos pela globalização de uma economia que ninguém consegue controlar”.
A realidade nua e crua é que a “ideia de sociedade” está destruída e urge recompor como reinventar novos paradigmas para um mundo novo, pois aí está fundamentado num sistema obsoleto e superado para esses novos tempos que exigem mudanças.

“...A cultura atual tende a propor estilos de vida de ser e viver contrários à natureza e dignidade do ser humano {...} o impacto dominante dos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero se transformaram, acima do valor da pessoa, em norma máxima de funcionamento e em critério na organização social”. (Documento de Aparecida, 387).
Que o novo ano, 2019 que aí está seja um momento de reflexão, mas principalmente reconstrução de uma nação com base nos valores, no respeito à dignidade humana e na sustentabilidade de um Construto Político e socioeconômico que mira para um novo modelo de gerir a “Coisa Pública”, embora isso não seja tarefa apenas dos gestores da nação, mas de todo o cidadão ao exercer o seu direito de participação nas decisões de interesse do país.
Desejo a todos um Feliz ano 2019!

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