Concílio Vaticano II: Tensão interna entre Hermenêuticas e a Modernidade

Economiaenegocios Artigos 04 Fevereiro / 2019 Segunda-feira por Padre Ari

Afinal uma coisa é a vivência da fé dentro da própria comunidade, outra é quando se trata do processo de evangelização ao esbarrar com outras culturas e ideologias. Esse pressuposto exigiu um processo de enculturação sem, no entanto, perder a essência da própria fé recebida. Essa será sempre uma consciência à qual os cristão podem ficar alheios ao longo da história da humanidade.
A Carta Apostólica “Fides et Ratio” de João Paulo II, ao tratar das Relações entre fé e razão nº 36, tem citado o seguinte texto bíblico do NT.: “...os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os primórdios, com correntes filosóficas do seu tempo. Lá se refere, a discussão que São Paulo teve com “alguns filósofos epicuristas e estoicos” (17,18). E segue:
“...a análise exegética do discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares, predominantemente de origem estoica. Isso não foi por acaso; os primeiros, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas “Moisés e os Profetas” nos seu discursos,

por isso
tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem” (cf.Rm 1,19-21; 2,14-15; At 14,16-17).
É importante frisar que de acordo com a “Fides et Ratio”: “...na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria”. (Rm 1, 21-32), e o apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos esotéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência divina”.
Toda a teologia no decorrer do tempo sempre precisou buscar em diversos paradigmas seja em correntes filosóficas e/ou nas culturas dos diversos povos, uma linguagem que pudesse falar ao homem daquele tempo. Ora, se omitir desse processo de enculturação sempre vai significar o fechamento para um “gueto” e sem a devida força e energia para a missão de evangelizar as várias e ricas culturas com seus coloridos peculiares. Por outro lado, sem olhar sob esse ângulo é impossível ter a capacidade de discernir entre o que é secundário daquilo que faz parte da essência da fé cristã e, assim, dificultando o processo do anúncio a todos os povos.
Se a Igreja tem consciência da sua missão e quer manter a fidelidade ao mandato do Senhor de evangelizar, necessita de mente aberta conforme o texto bíblico: “...Ide, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E, eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. (Mt 28, 19-20) é necessário continuamente fazer a leitura dos novos tempos, pois a “cultura” é sempre dinâmica e não estática.

A cultura contemporânea tem chegado a uma situação de niilismo por ter feito uma escolha unidimensional, ou seja, absolutizou a razão e fez dela uma resposta última da existência humana. Nisto perdeu o fio do sentido e do verdadeiro significado da vida. Sem margem de dúvida que a tecnologia tem ajudado em muito a facilitar a vida das pessoas, mas, em contrapartida, o fascínio pelas benesses proporcionadas pelos inventos, salvo exceções, tem afastado muitos cristãos da verdadeira Transcendência por se fixar no progresso.
Pode-se deduzir da ligação da fé revelada com a filosofia o seguinte: “...os filósofos procuraram, ao longo dos séculos descobrir e exprimir a verdade, criando um sistema ou uma escola de pensamento. Mas além dos sistemas filosóficos, existem outras expressões nas quais o homem procura formular a sua filosofia: trata-se de convicções ou experiências pessoais, tradições familiares e culturais, ou itinerários existenciais vividos sob a autoridade de um mestre. A cada uma destas manifestações, subjaz sempre vivo o desejo que alcançar a certeza da verdade e do seu valor absoluto”. (cf. Fides et Ratio, 27).
É interessante observar que à realização do Concílio Vaticano II seguiu-se uma luta entre duas leituras interpretativas ou hermenêuticas. 1. A teológica e 2. A histórica.

Dessa primeira significou uma “...continuidade com os documentos que o precederam, ou seja, à luz da tradição. Na segunda, representada pela “Escola de Bolonha” {...} ela escreve uma ampla e divulgada história do Concílio e que o Vaticano II {...} seria mais do que os documentos que produziu, {ou seja} um “evento que implicava uma descontinuidade na história da Igreja, pelo qual se abre para uma nova época para a Igreja. (ASSUNÇÃO, Rudy Albino – Bento XVI, A Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade” – Análise da visão do Papa teólogo sobre o Mundo de hoje Ed Paulus/Eclesiae – 2018 p.96).
De acordo com o sociólogo Assunção no “...no pós-Concílio (da metade da década de 60 até o final da década de 70 logo se fizeram sentir duas hermenêuticas, em evidente oposição representadas em duas revistas que nasceram na esteira do Concílio. A saber:

OS AVANÇOS E RECUOS DAS HERMENÊTICAS ECLESIAIS NO SEIO DA IGREJA.

De um lado a “REVISTA CONCILIUM” (nascida em 1965 na Alemanha) de orientação mais “progressista”. Os protagonistas da mesma eram teólogos como Hans Küng; Karl Rahner e outros. Para fazer frente a ela, nasce a Revista “COMMUNIO” (1974) na Itália e na Alemanha, de cunho mais conservadora, sob a égide de teólogos como Hans Urs Von Balthazar, Henri de Lubac e Josepf Ratzinger. Assunção, faz uma observação ao dizer que o teólogo Ratzinger participou do primeiro volume da “Concílium”, mas a deixou por discordar da orientação que acabou tomando. (fonte: cf. ibidem Assunção, 2018 p.97).
Mas toda a discussão não parou por aí, pois em contrapartida houve mais uma subdivisão feita pelo historiador italiano Massimo Faggioli, quando publicou o livro: “A luta pelo sentido” – Paulinas, 2013, que pertencia à Escola de Bolonha. Esses teólogos buscavam interpretar o Concílio, aliás, que também estavam divididos em outras duas correntes teológicas: os (neo) agostinianos e os (neo) tomistas.
Pergunta-se a esta altura onde realmente estava focado o debate dessas correntes? Na verdade a questão central era em relação ao Vaticano II que tinha um foco importante no processo da evangelização num mundo cuja cultura se tornara adversa. A Igreja não podia continuar numa atitude de resistência defensiva, e, ao mesmo tempo fechar-se sobre si. Seria uma contradição com aquilo que Jesus ensinava em (Mt 28, 19-20). Portanto, frente a essa realidade, qual seria a postura da Igreja em relação ao Mundo moderno com seus paradigmas.

Em toda essa discussão os próprios teólogos e Padres Conciliares sofreram um processo de questionamento, como paulatinamente foram amadurecendo nas diversas hermenêuticas que, salvo exceções, bloqueava a missão da Igreja em relação à evangelização no mundo moderno. Afinal, o mundo moderno também nos apresenta inúmeros pontos positivos.

Torna-se importante destacar a importância da Tradição enquanto é uma continuidade do fato fundante do passado, do primeiro tempo, e, neste sentido a tradição é a transmissão fiel ao carisma no presente; tem a função de mantê-lo vivo no tempo e no espaço pela graça de sua própria força que continua jorrando {...}mas também de sua capacidade de atualizá-lo no presente (fazer memória) e de interpretá-lo (ensinar coerentemente). (apud PASSOS, João Décio – Concílio Vaticano II Reflexões sobre o Carisma em Curso – Ed. Paulus/ 2014, p.6-7 in ASSUNÇÃO, 2018, p.99)
No próximo artigo, pretendo abordar a questão do Concílio Vaticano II, que contrastou com o Concílio Vaticano I (1870), convocado pelo Papa Pio IX e depois a crise da modernidade se agravou no pontificado de Pio X 1903-1914) com a questão do laicismo francês, a queda da monarquia alemã, como das forças latino-americanas que queriam expulsar a Igreja da vida pública. Após emergiu também a questão do catolicismo norte-americano.
A figura do teólogo e, atualmente, papa emérito Bento XVI teve um papel importante, pois percebeu o tipo de mentalidade anti modernista que se tinha expressado no documento “Syllabus” de Pio IX (1864) numa atitude intransigente da Igreja e distanciando de forma decidida da mesma em relação ao espírito moderno.

É bom saber que os textos produzidos pelo Vaticano II apontaram para outra direção, particularmente, com o documento “GAUDIUM ET SPES”, aliás, que fez a diferença, pois a vontade expressa pelo Concílio era de fato de uma abertura ao mundo. Afirma Bento XVI: O Vaticano II não busca “uma mundanização, e sim a uma abertura para o mundo”. (continua a reflexão).



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